Casteleiro – Brasão do Morgado de Santo Amaro

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Como prometi na semana passada, hoje dedico esta crónica ao outro brasão da aldeia: o de Santo Amaro. Era um morgadio e dele e do seu titular, o Doutor Tavares de Mello, trago aqui várias opiniões que corroboram o que sempre ouvi dizer do grande proprietário: ele foi sem dúvida um «bon vivant».

Brasão em Santo Amaro - Casteleiro - Capeia Arraiana

Brasão em Santo Amaro no Casteleiro

Como já escrevi várias vezes, a Quinta de Santo Amaro e a Serra da Pena fazem parte das minhas melhores reminiscências de infância.
E a figura do Morgado, titular de facto deste brasão, paira algures no meu imaginário, embora me recorde bem da figura imperial do conhecido Morgado.

Quinta de Santo Amaro no Casteleiro - Capeia Arraiana

Quinta de Santo Amaro no Casteleiro

O Morgado de Santo Amaro

O Prof. Manuel Leal Freire falava de modo muito amistoso do seu amigo de longa data, o Morgado de Santo Amaro, de seu nome Eduardo Tavares de Melo da Costa Lobo, filho de José Caetano Tavares da Costa Lobo e Sousa e Antónia Carolina de Melo Machado Corte Real.

Dizia-nos aqui mesmo Leal Freire: «… o Morgado de Santo Amaro foi o maior de entre os proprietários do concelho do Sabugal».

Terrenos de cultivo da Quinta de Santo Amaro no Casteleiro - Capeia Arraiana

Terrenos de cultivo da Quinta de Santo Amaro no Casteleiro

E sobre a sua relação com os amigos nas jantaradas de convívio usou frases que me encantaram: «O Morgado tinha sempre a mesa posta para os correligionários amigos – mesa fartíssima e muito portuguesa.»

E eu – com o meu particularíssimo amigo Henrique de Atahyde, quando nos apetecia lá íamos de longada até Santo Amaro usar da hospitalidade do velho fidalgo e receber uma lição de portugalidade.

Tavares de Melo ultrapassara já a casa dos noventa, mas mantinha-se aprumado, alto e direito como um ferro pedral.

E com uma enorme lucidez, apenas traída por uma arreliadora falha de memória para nomes.

Dizia manuel Leal Freire que «a Quinta produzia milhões que não apenas milhares de arrobas. Como também se alça premava a todas as outras em cântaros de azeite».

E, digo eu também: era famosa a batata de Santo Amaro.

Cruzamento na Estrada Nacional junto à Quinta de Santo Amaro - Capeia Arraiana

Cruzamento na Estrada Nacional junto à Quinta de Santo Amaro – Capeia Arraiana

Casteleiro – O brasão do último Morgado

De facto, Santo Amaro foi sempre terra de muita agricultura.

Era pois seu proprietário o Dr. Tavares de Melo.

Uma figura ímpar, de que mal me lembro como era fisicamente, mas cuja aura e fama se prolongam muito para lá do físico. Ou seja: todos sabemos quem foi esta personagem. Todos já ouvimos histórias diabólicas das suas aventuras. Eu próprio já divulguei algumas, como por exemplo aquela de ele ter chegado de carro à Bélgica, talvez em 1908 ou 10, e, como não entenderia muito bem a língua (certamente na parte da Flandres, onde se fala um «dialecto» do holandês, o flamengo), terá dito:
– Aqui me ladram, além me mordem… Vou mas é para a minha terra.

E veio, dizem.

O que era então um Morgadio?

Morgadio era «um vínculo de terras». «Estes bens assim vinculados não podiam ser vendidos» a não ser com autorização real. «O morgadio difundiu-se como um forma de contrariar o empobrecimento das famílias devido às sucessivas partilhas, servindo, assim, para manter o seu ramo principal com o suficiente estatuto económico-social». «Uma das razões que levou à sua extinção foi o empobrecimento dos filhos não primogénitos».

O pai deste morgado, aquele que é referido no texto que estou a citar, terá falecido em 1926. Isso li aqui, em Janeiro deste ano, nas notas desta peça inserida por Paulo Leitão Batista, na base do texto do investigador e quase cronista concelhio dos anos 20 do século XX, Joaquim Manuel Correia. A transcrição é do texto constante do seu livro «Memórias do Concelho do Sabugal», de 1926 (ano da 1.ª edição, se não estou em erro).

Sobre o avô do fidalgo lê-se na peça referida: «Filho do Fidalgo Cavaleiro José Caetano Tavares da Costa Lobo e Sousa, da Covilhã, e de Antónia Carolina de Melo Machado Côrte Real. da freguesia de São Martinho de Ceia. Nasceu na Quinta de Santo Amaro em 14 de Dezembro de 1842, neto paterno de Luiz Tavares da Costa Lobo e Sousa e de D. Maria Joana de Tavares da Costa Lobo. da Covilhã, e materno do desembargador Francisco Machado de Fontes Monteiro, e de D. Sebastiana Benedita de Faria de Melo Albuquerque Côrte Real, de Ceia. Faleceu em 8 de Maio de 1926.

Genealogia e brasão

Continuo a citar e volto ao blog da minha terra: «Eduardo Costa Lobo viria a casar com Eugénia da Conceição Peixoto Brandão. Do casamento nasceu uma filha em 10/5/1875, de nome Maria do Céu Tavares de Melo da Costa Lobo».

E logo de seguida, leio que «o Brasão, com a forma de escudo esquartelado, tem no primeiro quartel as armas dos Tavares, no segundo as dos Costa, no terceiro as dos Lobo e no quarto as dos Melo».

As famílias dos quartéis deste brasão

Tavares, Costa, Lobo e Melo são pois as famílias homenageadas nos quatro quartéis do brasão de Santo Amaro.

Agora, as componentes heráldicas de cada um destes quartéis – ou seja, a composição dos brasões dessas quatro famílias:

– Tavares – cinco estrelas vermelhas de seis raios;
– Melo – uma águia estendida de negro;
– Costa – seis costas de prata alinhadas em três faixas e dispostas em duas palas;
– Lobo – cinco lobos passantes de negro, armados e lampassados de vermelho.

Finalmente, uma nota muito pessoal

Confesso que é com muita emoção que publico estas coisas: são partes de nós todos que aqui ficam, pelas palavras de grandes pensadores das nossas terras. Obrigado aos nossos intelectuais que tant se dedicaram a estes assuntos do antigamente.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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