A vaca e a vacina

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

A vaca foi um dos animais predominantes da agropecuária beirã, quer como produtora de leite e respectivos derivados, quer como animal de tracção. Há, no entanto, algo que lhe devemos, na Beira e em todo o mundo, e nem toda a gente conhece.

Gravura do início do séc. XIX que representa Jenner a vacinar o seu próprio filho contra a varíola (ao colo da sua esposa). O autor da gravura, ao deixar entrever uma vaca através da janela, faz uma referência explícita à origem do método profiláctico descoberto por Edward Jenner - Adérito Tavares - Capeia Arraiana

Gravura do início do séc. XIX que representa Jenner a vacinar o seu próprio filho contra a varíola (ao colo da sua esposa).
O autor da gravura, ao deixar entrever uma vaca através da janela,
faz uma referência explícita à origem do método profiláctico descoberto por Edward Jenner

A palavra vacina deriva da palavra vaca em latim (vacca). Provavelmente isto deixará alguns dos leitores espantados. Expliquemos melhor.

As doenças mais mortíferas que afligiram e dizimaram a humanidade foram velhas companheiras do ser humano desde a Pré-História: a tuberculose, a peste, a malária, a lepra, a varíola, o tifo, a sífilis, a poliomielite e muitas outras deixaram um rasto que podemos detectar em fósseis humanos ou na arte.

Gravura anónima francesa do começo do século XIX sobre a origem da vacina. Repare-se no médico que observa as mãos da camponesa que ordenhava as vacas - Adérito Tavares - Capeia Arraiana

Gravura anónima francesa do começo do século XIX sobre a origem da vacina.
Repare-se no médico que observa as mãos da camponesa que ordenhava as vacas

A varíola (popularmente conhecida com o nome de bexigas) foi uma das piores doenças epidémicas. Entre as suas vítimas mortais contam-se o faraó Ramsés V, o rei Luís XV de França e o príncipe D. José, filho mais velho da nossa rainha D. Maria I. Eram raros os infectados pela varíola que sobreviviam, mas houve alguns: por exemplo a rainha Isabel I de Inglaterra, o compositor Beethoven, o presidente Lincoln ou o ditador russo Estaline.

A varíola não existia na América pré-colombiana. Porém, quando os europeus aí chegaram, levaram consigo não apenas a varíola como outras doenças contagiosas (o tifo, a peste bubónica, a febre amarela, a tosse convulsa, etc.), o que provocou uma mortandade apocalíptica entre os indígenas. Também uma doença tão vulgar na Europa como a gripe comum, desconhecida na América, provocou milhões de mortes entre os ameríndios. Calcula-se que as epidemias, as conquistas, a escravização e os trabalhos forçados tenham contribuído para fazer baixar a população indígena da América Central de cerca de 26 milhões para 1,6 milhões, entre 1500 e 1650. Em contrapartida, também os colonizadores transportaram para a Europa alguns «presentes» americanos, como uma variante da sífilis altamente mortífera, que alguns historiadores classificam como a «vingança dos vencidos». Quando Colombo regressou da sua viagem de 1492, os marinheiros que tinham sido contaminados com a sífilis americana nas relações sexuais com as mulheres índias disseminaram rapidamente essa doença nos portos mediterrânicos, sobretudo em Sevilha, Barcelona, Marselha e Génova, com consequências catastróficas.

Campanha de vacinação gratuita contra a varíola promovida pelo periódico francês “Le Petit Journal”, em 1905. Note-se a presença de uma vaca (ou vitela) a partir da qual um médico obtém o material necessário para a inoculação - Adérito Tavares - Capeia Arraiana

Campanha de vacinação gratuita contra a varíola promovida pelo periódico francês «Le Petit Journal», em 1905.
Note-se a presença de uma vaca (ou vitela) a partir da qual um médico obtém o material necessário para a inoculação

Na Inglaterra, como nos restantes países da Europa, a varíola surgia ciclicamente em epidemias que apareciam tão subitamente como cessavam sem se saber porquê. Durante as guerras, os exércitos contribuíam para espalhar este vírus terrível. Por exemplo, em Portugal houve uma epidemia nacional de varíola em 1810-11 propagada pelas tropas da terceira invasão francesa. A varíola provocava bolhas (ou pústulas) por todo o corpo (as bexigas) e deixava profundas e numerosas cicatrizes por todo o corpo nos sobreviventes (os bexigosos). A única «consolação» que lhes restava (embora não o soubessem) era ficarem imunizados.

Edward Jenner (1749-1823) exercia medicina em Berkeley, pequena cidade inglesa em cujos arredores existiam florescentes comunidades rurais que, na segunda metade do século XVIII, beneficiavam do arranque da Revolução Agrícola. Quando era chamado a tratar doentes com varíola, Jenner começou a notar que, numa família inteira infectada, apenas a pessoa que costumava ordenhar as vacas (geralmente uma mulher) não apanhava varíola. Observando o amojo dessas vacas, ele verificou a existência de pústulas semelhantes às dos doentes que ele tratava. E deduziu, acertadamente, que seria o contacto com as pústulas da varíola bovina (menos agressiva) que originava a protecção das ordenhadoras contra a varíola humana. Quase cem anos mais tarde, Pasteur explicaria cientificamente aquilo que Jenner acabava de descobrir empiricamente: era de facto o contacto com uma forma amortecida de varíola das vacas (vaccinia virus) que desencadeava a produção de anticorpos que, por sua vez, imunizavam essas pessoas. Estava descoberto o mecanismo da vacina.

A partir de 1796 Jenner começou por recolher o líquido existente nas pústulas das vacas dissolvendo-o depois em água destilada. Fez as suas primeiras experiências inoculando sobretudo crianças. Quando expostas ao contacto com doentes infectados com varíola, nenhuma dessas crianças contraía a doença.

Pouco a pouco, a descoberta de Edward Jenner tornou-se conhecida em toda a Europa. Em Portugal, a generalização da vacinação antivariólica iniciou-se relativamente cedo, logo a partir do ano de 1796.
Embora Jenner, muito provavelmente, não o soubesse, já na China se praticava, pelo menos desde o século XV, um método semelhante, a variolação: os médicos chineses recolhiam e trituravam as crostas secas das pústulas dos sobreviventes de varíola e introduziam o pó em indivíduos sãos, através das narinas. E resultava: o simples contacto com vestígios do vírus já inactivo bastava para desencadear o processo de imunização.

Dramático exemplo de uma criança infectada com varíola - Adérito Tavares - Capeia Arraiana

Dramático exemplo de uma criança infectada com varíola

A varíola foi uma das primeiras grandes doenças epidémicas a ser extinta em todo o mundo: a última epidemia ocorreu na Somália em 1977. Graças às eficazes campanhas de vacinação obrigatória promovidas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o vírus da varíola foi erradicado, existindo hoje apenas algumas «amostras» em laboratórios científicos (esperemos que bem guardadas).

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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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