1971-74 – Os dias da Tropa (16)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Esta é a Curva da Morte de que falo no texto

Saída do Bata Sano: 07.12

Lembro-me porque o furriel mais antigo do Grupo, que ia aio meu lado no Unimog do meio (o Comandante ia no 4.º = penúltimo, disfarçado de um de nós, claro…), esse furriel disse-me assim logo 100 metros depois de sairmos pela porta de armas:
– Se fosse em Lamego já estávamos numa de 100 flexões na parada… Estamos atrasados quase um quarto de hora.

E eu:
– Deixa lá, pá. Eu quero é que na última operação a Grupo esteja todo completo como está hoje, na primeira!

Ficou-me para sempre esta conversa, pois essa foi de facto sempre, mas sempre a minha preocupação: sair do quartel com 25 homens e regressar com os mesmos 25.

E assim foi, felizmente.

A viagem até Buco Zau, 5 km de descida tipo rali de montanha, passaram num instante.

Mas a partir daí começava a zona de guerra e fiava fininho, muito fininho.

Picada Buco Zau / Chimbete - Capeia Arraiana

Picada Buco Zau / Chimbete

Primeiros quilómetros de floresta virgem

Saber que ali começava o Maiombe, a floresta virgem, todos sabíamos. O que não sabíamos era a que é que cheirava, a que é que sabia o ar, o que é que se ouvia quando e de cada vez qiue mandava parar as viaturas para fazer vigia total metro a metro e também para mandar fazer fogo de reconhecimeneo, nalgumas curvas e nalguns pontos mais em escarpa da floresta cá para baixo, onde a picada passa.

Mas vamos por partes:

1 – Era famosa a Curva da Morte. Ia connosco, a conduzir a primeira viatura, uma Berliet devidamente equipada, um condutor e uma equipa especial de Operações Especiais também, ainda do Batalhão que viemos substituir, exactamente para nos servirem de orientação e de guias. Pois bem, a primeira paragem foi essa: 250 metros antes da Curva da Morte, salta tudo do conforto dos banquinhos de madeira e ferro e vai de caminhar passo a passo, em passo de guerrilha, espingarda em riste: com calma, com toda a atenção ao menor movimento no meio das árvores (só se viam uns 30 a 40 metros). Tínhamos de ver tudo o que mexesse.

Fogo de reconhecimento de proximidade. Mais longe vão os morteiros e lança granadas -foguete - Capeia Arraiana

Fogo de reconhecimento de proximidade. Mais longe vão os morteiros e lança-granadas foguete

2 – Fogo de reconhecimento: sempre e só através de gestos que se aprenderam em Mafra, Lamego e Amadora, nada de paleio, nada de som: todo o contacto era visual entre nós: sobretudo alferes/furriéis e vai de dar ordens e sugestões de parte a parte. Honestamwente devo dizer que não estou a falar aqui do Comandante, que ia na coluna, porque ali e naquelas horas, ele não comandava nada nem era comandante de nada nem de ninguém e a minha preocupação nada tinha de formalidades, mas apenas de gestos automáticos e operacionais: tudo, mas tudo dependia de mim e dos meus furriéis. O resto era folclore da tropa profissional para mostrarem poder – mas isso só nos quartéis. Na mata, zero! Ali o problema era outro e dependia dos operacionais: levar 25 e voltar ao quartel com os mesmos 25, repito. E isso era demasiado sério para sequer estar a perder um único segundo com fosse o que fosse de outro tipo de situação… E assim era: nem me lembrava já que ia ali o Comandante: ali ele era mais um de nós e também era nossa missão chegar com ele vivo ao Chimbete e ao Sangamongo, para onde íamos – pela primeira vez, e das mais ansiosas e dramáticas horas da nossa vida até então vivida.

3 – Decidido: tal como os alferes do outro Batalhão nos tinham dito, era aconselhável varrer a zona com fogo de reconhecimento de toda a espécie.

4 – Execute-se: vamos disparar de tudo um pouco cá bem de longe, para que se por acaso ali houver guerrilheiros do MPLA, eles tenham mesmo de fugir e bem depressa, pois logo que dei a ordem de iniciar o fogo de reconhecimento foi tal a barulheira e a quantidade de chumbo a enttrar por aquela floresta virgem dentro… que ninguém por perto podia ficar incólume nem indiferente.

Nota
Correu muito bem esta primeira acção de contra-guerrilha. De tal modo bem, que, mais tarde, sempre que ia para algum lado, a primeria coisa que fazia era fogo de reconhecimento em todos os locais perigosos… Fiquei tão famoso por isso, que os oficiais do quadro passaram a recomendar isso mesmo a todos os Comandantes de Grupo, mesmo que não fossem de Operações Especiais. Serviu de lição a todos, felizmente. «Prevenção de guerrilha», chamávamos a essa táctica…

Seguimos viagem. Mais duas paragens e estávamos no Chimbete.

Depois, mais 20 minutos e chegámos ao Sangamongo.

No regresso, tudo exactamente igual, mas em sentido inverso…

Até hoje nunca soube se nalgum dos fogos de reconhecimento algum guerrilheiro teve azar.

Depois do 25 de Abril, ainda fiz essas perguntas a alguns dos guerrilheiros reconciliados, mas nunca foram claros nas respostas… Oxalá que não, que não tenha havido feridos no MPLA…

Eu só queria mesmo era não ter feridos do meu lado, nunca desejei fazer estragos do outro lado: por isso, em vez de ir à luta, prevenia: evitava tanto quanto possível o confronto directo…

(Continua.)

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