Fui ver a Banda passar!

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Música mítica de Chico Buarque nada destoa com a qualidade do concerto dos 148 anos da Banda da Covilhã. Um espaço com uma acústica fantástica, a Igreja da Santíssima Trindade, só confirmou a qualidade dos músicos e maestros que, nos ouvidos mais apurados, não sentiram qualquer desafinação. Acredito mesmo que von Karajan se estivesse vivo mas ouvisse o concerto nos rádios de transistores, daria os parabéns por telegrama à Banda da Covilhã, por mais este sucesso.

Concerto dos 148 anos da Banda da Covilhã - Capeia Arraiana

Concerto dos 148 anos da Banda da Covilhã

Eu tenho alguns amigos que são músicos profissionais ou outros cujos filhos optaram por essa carreira profissional. Enganem-se aqueles que um músico vive com dificuldades. Trabalho não lhes falta mas, obviamente, em grande parte nos países do centro da Europa. Mas não era este aspecto que pretendia realçar. O facto é que em quase todas as orquestras portuguesas, desde a Gulbenkian, Metropolitana, Filarmónica das Beiras e a do Conservatório Nacional tem profissionais que estudaram nas diversas escolas covilhanenses, seja a EPABI, Conservatório e a Banda da Covilhã.

Mas voltemos ao espectáculo. Primeiro o repertório. Peças nada fáceis de tocar, e fora do habitual das músicas de coreto que muitas das vezes ouvimos por este país. A banda sonora do filme «Último dos Moicanos» com um arranjo de J.C. Mortimer, pese embora a versão original é de Trevor Jones, foi a peça mais notável, e difícil, tocada no concerto numa sucessão de altos e baixos que demonstraram qualidade técnica de execução e boa orquestração.

Outras peças foram tocadas por estes jovens como «Festival Prelude» da Alfred Reed, «Dum Spiro Spero» de Chris Pilsner, e a majestosa «First Suite in E for Military Band», Op. 28, No. 1, do compositor britânico Gustav Holst, considerada uma das obras primas mundiais de concerto para banda, tendo recebido um prémio em 1920 pela Royal Military School of Music.

No final, ao jeito de um encore, tocaram o jingle do programa da Antena 2 «Última Edição», com Luís Caetano, nada diferenciando do que oiço diariamente no rádio do carro quando regresso do trabalho: a fantástica «Segunda Valsa» de Dimitri Shostakovich.

Alguns dos compositores do concerto - Capeia Arraiana

Alguns dos compositores do concerto

Tendo já assistido concertos no Royal Albert Hall, no Teatro Mariinsky, na Opera de Paris, no Festival de Jazz de Montreux, no Palau de la Música, no Musikverein, Golden Hall, no Grande auditório da Gulbenkian, no Centro Cultural de Belém, Jazz club Ronnie Scotts e tantos outros, digo com sinceridade que o concerto comemorativo dos 148 anos da Banda da Covilhã, está num patamar do nível dos que tenho assistido por esta Europa fora. E o que ressalva, o que se deve realçar, são os jovens que conseguem produzir música ao nível das melhoras orquestras, ou bandas, mundiais.

Imagino a cara de alguns leitores ao lerem estas palavras que este autor seguramente está a exagerar. Mas quem me conhece sabe que sou um grande apreciador de música e talvez o fator surpresa me levou a todo este entusiasmo por ver que jovens músicos amadores conseguem tocar exemplarmente peças com complexidade técnica.

Obviamente que haverá por este país outras instituições que merecem tantos elogios como a Banda da Covilhã. Mas não nos podemos esquecer que estamos no interior, a caminho do envelhecimento, os apoios para a cultura infelizmente são escassos, e este exemplo de persistência, de dar a mão à juventude para atividades proativas (sem dependência de novas tecnologias), de se sentir uma solidariedade dos corpos dirigentes, ou sociais, com um objetivo único: promover a excelência da cultura com a juventude covilhanense!

Parabéns Banda da Covilhã! Que venham muitos e bons anos, e com muito orgulho manifesto publicamente a alegria de ser sócio desta instituição, tal como foram muitos dos meus antepassados.

Covilhã, 2 de dezembro de 2018

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to Fui ver a Banda passar!

  1. Sandra diz:

    Acredito nas palavras do autor, pois eu própria tenho testemunhado o bom trabalho que se faz nas orquestras juvenis por esse país fora e que nos enchem de orgulho. Parabéns à banda e ao autor por não deixar passar em branco um trabalho tão meritório.
    Sandra Nobre

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