Santa Bebiana

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

O nosso Povo sempre teve propensão para misturar as festividades religiosas com as profanas. Nos tempos actuais, em muitas localidades, as festas religiosas são em grande parte feiras e mercados.

Santa Bebiana em Caria (imagem de Local visão TV)

Neste canto da Beira Baixa há uma tradição dos festejos a Santa Bebiana de uma forma muito própria em Aldeia da Nova do Cabo (Fundão), no Paul (Covilhã) e em Caria (Belmonte). Paul e Caria têm-na mantido nos últimos anos. Por experiência própria, o auge destes festejos profano-religiosos é em Caria no dia 2 de Dezembro, no primeiro fim-de-semana deste mês.
Santa Bebiana foi uma das jovens cristãs romanas martirizadas pelo Imperador Juliano, nos primeiros tempos do Cristianismo. As razões do seu martírio prendem-se com o facto de não ter correspondido ao aliciamento para se prostituir, prática muito em uso na cidade de Roma.
Não se sabe bem a razão, mas a verdade é que o povo a adoptou como padroeira das Mulheres que bebem, as Bebianas. Uns dias antes festeja-se o Dia de S. Martinho, que as gentes cristãs legitimam como um irmão que deu parte da sua capa a outro irmão carenciado. Na tradição popular é dia de se cumprir o adágio – “vai à adega e prova o vinho” -, esse néctar de Deus e dos Homens.
Nesta simbiose festiva profana e sagrada, o Povo de Caria sai para a rua para festejar estes dois santos, São Martinho e Santa Bebiana, um lindo casal, congregando milhares de forasteiros.
Já vem de tempos remotos esta iniciativa popular, mas teve grandes progressos na década de quarenta do século passado, criando grandes apreensões no poder eclesiástico, que propôs ao poder político tomar medidas de impedimento destas manifestações “nada católicas.”
Em 1947 a Guarda Nacional República tentou impedir a realização da Festa Popular, mas o Povo de Caria organizou-se e chegou a tirar as armas às forças de segurança, devolvendo-as só depois de estas assumirem o compromisso de que a celebração se realizariam.
Entusiasmado por vários companheiros amigos, algumas vezes me tenho deslocado àquela simpática vila de Caria, para “in loco” assistir a tão insólita festa, participando na procissão de Santa Bebiana e de São Martinho.
Dois manequins improvisados são vestidos e colocados em dois andores, a imitar duas pipas de vinho, e são transportados por homens já bem bebidos, mas com forças para carregar com o Santo e a Santa. Saem de locais diferentes para se encontrarem e abraçarem na Praça Principal da Vila. Dizem-me que antigamente iam com vestimentas de palha e trajes pobres, e no final da cerimónia deitavam-lhes fogo, como nas fogueiras de S. João.
Com cânticos e música à desgarrada, percorrem-se as ruas estreitas, iluminadas com archotes feitos de tradicionais molhos de palha de centeio.
A apoteose popular regista-se quando o São Martinho dá um abraço a Santa Bebiana. De seguida, num púlpito improvisado, o “padre“ Abreu, agora promovido a “Bispo”, profere um Sermão mordaz, com crítica aos diversos poderes e aos desvios das comunidades, apelando para que todos vivam com a alegria do bom vinho: “Depois da água benta, o melhor líquido é o tinto, até faz muito bem ao coração. Bebam até cair de cu, de costas, de joelhos, qualquer parte serve para venerar estes tão queridos e populares Santinhos que tendes na vossa presença”.
Como acontece em todas as outras homilias, há quem siga à risca a mensagem do “Padre Tadeu”: é vê-los caídos pelas ombreiras das adegas, nas esquinas, no chão, a “curtir” a bebedeira, nem a geada os faz despertar. Não há notícia de que alguém tivesse sido transferido para o Hospital em estado de coma, como acontece nas Queimas das Fitas ou das Recepções aos Caloiros nas nossas Universidades.
A tradição mantém-se, o Povo diverte-se e grita cada ano com mais força: “VIVA A SANTA! VIVA A SANTA BEBIANA! VIVA A SANTINHA QUE NOS ANIMA O CORAÇÃO!”
Santa Bebiana em Caria é uma festa divertida, atrevida, desafiante e gargalhante. É local de onde se regressa com felicidade e muitos com grãos na asa… Com disponibilidade, é “romaria” a marcar presença obrigatória para obter as bênçãos divinas e saborear um bom copo de tinto.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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