1971-74 – Os dias da Tropa (15)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Coluna militar portuguesa na picada africana - Capeia Arraiana

Coluna militar portuguesa na picada africana (Foto: D.R.)

Chegámos então ao território de missão do Batalhão. Bata Sano, Buco Zau, Pangamongo, Chimbete, Sangamongo, Tchivovo – estas palavras vão fazer parte do meu vocabulário diário até depois do 25 de Abril – e ficarão como marcas para toda a vida, como se nota.

Estamos em finais de Agosto de 1972.

Vai começar o meu calvário em terras do Maiombe.

Destaco uma ideia simples mas daquelas que nunca morrem dentro de mim: as palavras Chimbete e Sangamongo entraram em mim naqueles dias e ficaram até hoje como sendo as ideias fixas mais duras de toda uma vida.

Isso justifica que as imagens de hoje sejam todas dessa zona: a picada e os quartéis operacionais mais perigosos de toda a minha tropa.

Mas vamos adiante na narrativa, para não haver aqui agora nenhuma lamechice só porque em qualquer metro de estrada naquela picada podia ter perdido a vida.

Percorri essa picada vezes sem conta: a pé ou de Unimog. Sempre em estado de total alerta e prevenção, recorrendo a todas as técnicas de guerra aprendidas em Lamego.

Vamos a isto.

Patrulha a pé na savana da Guiné - Capeia Arraiana

Patrulha a pé na savana da Guiné (Foto: D.R.)

Primeira deslocação em terreno de guerra factual

Teoricamente, a Sede do Batalhão, onde estava sempre, era zona de guerra. Era o Bata Sano.

Três quilómetros serra cima, depois do Buco Zau.

Na prática, tratando-se de uma vila, o Buco Zau não tinha guerra.

Mas quando se sai e se apanham as várias vias que ali se cruzam, estamos em zona de guerra efectiva e plena: quer se vá para Cabinda, para o Belize (bem mais perigosa) ou para o Chimbete e Sangamongo – esta, sem dúvida, de todas elas a mais dada a cenários de guerra siubversiva.

Pois bem: uns dias (poucos) depois de chegarmos, eis que o Comandante me convoca e me diz que amanhã vai comigo ao Sangamongo:
– Prepare tudo. Saímos às sete.

Resposta pronta:
– Tudo bem, meu Comandante.

Mas nada bem, vim a constatar na manhã do dia seguinte. Leia mais adiante porquê…

Patrulha a pé na savana da Guiné - Capeia Arraiana

Patrulha a pé na savana da Guiné (Foto: D.R.)

Primeira ida ao Chimbete e a Sangamongo

A missão do meu Grupo de Combate, de acordo com a organização típica de qualquer Batalhão, era antes de mais, garantir a segurança dos membros do Comando. O meu Grupo chamava-se mesmo: de Reconhecimento e Informação. Ou seja:
– Tinha duas missões externas: manter sempre o Comando informado sobre as condições de segurança nas imediações do Quartel e desempenhar o papel de Adjunto do Oficial do Comando da área da Informação (uma espécie de 3.º Comandante).

Ora, eis que chegou a minha vez: muitos camaradas meus começaram a alinhar logo no primeiro dia em missões de controlo da floresta virgem que rodeava o quartel, de modo a garantir a nossa segurança.

Como responsável pela segurança do Comando, fui poupado nesses primeiros dias.

Mas… chegou a minha vez: vai ser manhã de manhã a minha primeira saída desta zona de relativo conforto que era o Quartel.

Foi então a minha primeira saída «a sério».

Com a missão de fazer a segurança ao Comandante – na sua primeira deslocação depois da chegada.

Quartel do Chimbete - Capeia Arraiana

Quartel do Chimbete (Foto: D.R.)

Primeiras divergências

Primeira nota: este acrónimo NEP’s. Por tudo e por nada, passei a ouvir os militares profissionais falarem de NEP’s. Bem sabia o que eram as NEP’s. Mas tanta referência às NEP’s parecia-me exagerada…

Mas não era: vim a saber que muitas vezes as tais NEP’s eram a única defesa dos pequeninos face aos grandes: aconteceu comigo, como vai ler.

As NEPs dizem que quem manda na coluna é o Comandante da Coluna. Esse era eu, portanto.

As NEPs dizem que não se podem usar galões nem divisas em coluna de guerra. Ou seja: em cima dos unimogs, nada de eu sou alferes porque tenho aqui isto nos ombros. Muito menos eu sou o Comandante e tenho aqui estes amarelos todos nos ombros. OK?

Mas o Comandante achou que devia subir para o Unimog (perguntou-me e bem onde se sentava…) achou que era bonito levar aqueles amarelos todos (de coronel) e sem arma. Foi logo o primeiro sarilho.

Eu fui claro: «Assim não saíamos dali.»
«Porquê?», pergunta o Comandante.
Apontei-lhe os meus ombros e a minha G3.

E só disse:
– São as NEPs, meu Comandante… Estamos todos nervosos mas tem de ser.

Ele olhou para o Céu… Pensou cinco segundos… Deitou as mãos aos ombros… Tirou os galões amarelões… Pediu uma G3.

Tudo bem. Valeu a pena.

E lá fomos: primeira operação em zona de guerra: Bata Sano / Sangamongo, passando pelo Chimbete.

Tudo extremamente nervoso, como se calcula…

Quartel do Sangamongo - Capeia Arraiana

Quartel do Sangamongo (Foto: D.R.)

>> Conto a operação na próxima semana.

(Continua.)

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