Novela na Raia – Episódio 22

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 22).

Novela na Raia - Episódio 22 - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Episódio 22 – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

III – Contrabandista a sério

O Natal de 1956 aproximava-se. Na véspera assistira à tragédia dos irmãos Perrichos, o Manel e o João. A brincar nas guardas da casa do Mocho, no fim da Rua do Cimo, a pegar com a de Sant’António, estas, que não estavam presas às pedras de baixo, com o baloiçar caíram-lhes em cima e esmagaram-nos. Natal estragado para a família e amigos deles. Já não ia haver filhoses p’a muta gente!

O Miguel não pertencia à família dos Perrichos, mas nem por isso deixou de sentir a tragédia que se passara com gente da sua terra. Lamentara não terem partido apenas uma perna, qu’isso curava-se no endireitê do Rocamador.

Outro desastre já havia presenciado nas malhas do ano anterior. Os manguais haviam sido substituídos pela máquina de malhar. Certo dia, salta uma fagulha do motor e pegou fogo às medes. Foi uma desgraça. O pão ardeu quase todo, deixando muita gente na miséria, mais que aquela que já tinham. Muita gente teve de andar a pedir pelo povo com saca na mão, esperando que lhe dessem algum do pão que a eles não ardera.

Não bastavam as desgraças no contrabando com apreensões de carregos e cadeia e respectivas consequências, e ainda mais estas!
Pareciê que tudo estava contra Codrazais. Mas Codrazais haviê de resistir a tudo! A Senhora Sant’Ofêmia haviê de o proteger!

O tempo iê passando e já estava prestes a dar o númaro para ir à inspecção no próximo mês de Junho.

No ‘stava rico, mas já tinhê dinheiro suficiente p’à inspecção. Fez contas. Foguetes, tocador, carne assada, copos e çarvejas, fato e sapatos novos levariam uma boa parte das suas poupanças.

Bem! Pelo sim, pelo não, iriê indê mais umas vezes alugado a Espanha. Até Junho, época das inspecções, faltavam uns três meses e pouco. Em Maio fariê vinte anos.

Lembrou-se, então, que precisava duns caturnos novos feitos pela namorada para esse dia. Sondou a irmã para que tivesse uma conversa séria com a Palmira sobre se ela aceitava que fosse a sua casa pedi-la. A resposta foi:
– Vou falar com m’nha mãe.

E falou, porque desejosa de ser pedida em casamento estava ela. A mãe prometeu escrever sobre o assunto ao pai, que havia emigrado para França havia uns cinco anos, juntamente com o Finote e seu tio Jaquim Cabral, antes de começar a emigração em força. Quando respondeu à carta, a resposta foi:
– Indê é muto nova!

A pedido da Palmira, que já se achava uma mulher a caminho dos dezassete anos, com a natureza a puxá-la p’à suê missão de mãe, a Crece convenceu o marido:
– Ser autorizada a namorar não significa casar já!

Pouco a pouco, o pai dela fora aceitando a ideia. Até nem tinha nada a apontar ao Miguel. Rapaz que ficou sem pai muto cedo e conseguiu governar a casa, só merecia elogios. Até que o pai, no dia de anos da mãe, em finais de Abril, lhe deu como prenda a desejada permissão para a filha.
– Fala lá c’o rapaz e acertem o diê em que há-de ir lá a casa. Mas só uma vez por semana, ao Domingo. Não quero dichotes porque eu não estou lá.

Foi uma enorme alegria para a Palmira. Procurou de imediato a Lucinda para transmitir a nova ao Miguel e combinou com ela irem no dia seguinte a Valverde para terem tempo de conversar mais à vontade. Talvez lá encontrassem o Miguel à espera da hora de partir p’a Portugal com o seu carrego. Aí, em terreno neutro, longe do olhar das coscuvilheiras, encontrariam um recanto para se verem cara a cara. Disse-lhe da permissão do pai e das condições. O Miguel ficou radiante e deu um beijo na cara da Palmira. Esta corou, mas retribuiu o beijo.

Afinal, não eram já namorados?!

Poderia quebrar a lei, embora com cautela, que as más línguês depressa torceriam as coijês.

Pela primeira vez olhou a Palmira olhos nos olhos, com um olhar demorado, e reparara como Palmira estava uma mulher, de rosto bonito e de peito e ancas já desenvolvidos e atraentes. Miguel sentiu uns tremelicos na coluna. O macho desejava a fêmea. Era a lei da natureza!

Iriê a casa dela pedi-la em casamento no próximo Domingo. Que avisasse a mãe. Com ele iriê a irmã Lucinda, sua confidente, sempre para evitar dichotes.

Para o Miguel esse dia foi de alegria extrema. Gostaria que a hora da partida para Portugal fosse retardada. Estava junto da sua namorada e sentia-se feliz, sentimento que Palmira compartilhava com ele. Mas chegara a hora da partidê. Com aquela nova agradável até correriê Marvana acimê! Não sentiriê as agruras do caminho nem a ansiedade de chegar sem incidentes. Pensariê em Palmirê todo o caminho. O sonho comandava a sua vidê. Que sonho tão doce!

Os dias passaram demasiado lentos. O Domingo nunca mais chegava.

Chegou finalmente. Bateu à porta da Palmira, a mãe veio abri-la e mandou-os entrar. Deram as bôs noites e sentaram-se ao lume, formando roda. Conversaram sobre o dia a diê e das idês frequentes a Valverde, com a Palmira presente, contrariando o costume.

Passada uma hora, e tão depressa passou, o Miguel pediu a mão da Palmira, como vira fazer ao Horácio para com sua prima Olinda. Palmira e mãe aceitaram de bom grado. Ofereceram um copo ao Miguel e um doce à Lucinda para celebrar este facto, com alegria. Depois, dando as bôs noites, saíram, conforme haviam acordado. Voltariam no próximo Domingo.

Miguel não cabia em si de cuntente. A irmã revelara-lhe que o Balecho a rondava. Ela também tinha direito a ter um namorado! O contentamento pegara-se à Lucinda. Mas esta ainda era muito nova. Tinha de esperar mais um ou dois anitos p’a ter o seu pedido.

Para o casamento o Miguel ainda teria de alombar com muitos outros carregos. Lá teria de ir mais umas tantas vezes a Valverde e esperar não ter maus encontros com os carabineiros ou os fachos. Mas sariê já com certo prazer que trilhariê os caminhos de Valverde, com a imagem de Palmira a acompanhá-lo e sabendo que o que ganhasse sariê p’a alcançar a sua felicidade.

Nessa noite nem dormiu, tão alvoroçado estava. Finalmente tinhê conquistado a sua Palmira.

Via Palmira agarrada às agulhas da meia a começar os caturnos, com a mãe dela ao lado a ensiná-la a fazer na meia. A sua inspecção sariê tamém um diê de enorme alegriê!

Não tardariê que subissem ao altar e tivessem a sua boda. Quem sabe se não sariê antes da Inspecção! Sonhava!
A realidade, porém, cedo o chamou a si. E a tropa? Como poderiê casar antes de fazer a tropa? Onde arranjariê dinheiro p’a uma casa e p’a manter a Palmira?

Conseguiu, finalmente, adormecer, que o diê seguinte sariê duro, como sempre.

Quase ia perdendo o encontro com os colegas para seguirem para Espanha, desta vez para Navas Frias. Levantou-se à pressa e partiu sem comer. Em Espanha comprariê um bocadillo.

Nem bengala, nem manta levou consigo. Felizmente, já não fazia muito frio. Aqueceriê com a caminhada.

A alegriê da véspera tinha sido engolidê pela realidade do seu dia a diê!

Mais uma vez a sorte esteve do seu lado. Não houve problemas que pudessem enegrecer a sua alegriê da véspera. Até conseguiu comprar umas galhetas p’à Palmira. Ofereceu-lhas com redobrado prazer no Domingo seguinte, na visita que iria ser habitual. A Palmira deliciou-se com a oferta, a primeira de namorados. Se estivessem em Espanha, o Miguel teria, certamente, recebido um beijo de agradecimento. Aqui contentou-se com um «mut’obrigada!» que lhe provocou a mesma sensação de alegria do Domingo anterior. Esta visita foi um pouco mais demorada, a pedido da Palmira e da mãe. Não queriam saber de possíveis dichotes nem de invejas. Crece mostrava-se satisfeita com o gesto do futuro genro, a quem começava a querer, adivinhando um futuro casamento feliz p’à sua Palmira. Oxalá tudo continuasse a correr p’o melhor! Até prometeu uma bô esmola à Senhora Sant’Ofêmia, se até à sua festa o namoro continuasse sem incidentes.

Notas:
– Bocadillo – sanduíche comprida. Termo espanhol.
– Coijê – coisa.
– Guardas – pedras de cantaria colocadas à volta do átrio das escadas, em frente à porta.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

One Response to Novela na Raia – Episódio 22

  1. José Antunes Fino diz:

    Estou plenamente rendido à beleza destas crónicas. Eu, que sou, também, arraiano, nascido na década de quarenta, sou, através delas, transportado àqueles anos de verdadeira miséria que, infelizmente, também suportei.
    O realismo das suas descrições adornado com o sotaque coadrazenho fazem delas uma obra prima de literatura popular cuja arte só o seu autor sabe cultivar. Parabéns e venha mais uma!

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