Falar de quê?

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Talvez referir, hoje, um sítio onde a escassez de gente constrói silêncios ímpares. Porventura revelar uma aldeia, de rua única, onde hortas incultas são o desboque de travessas estreitas. Quiçá falar de um lugar bucólico que se expõe, serenamente, à tarde fria. Eventualmente garantir que, neste pequeno burgo, existem dois pequenos bares aptos a aviar os sedentos de cerveja, os amantes de bom vinho caseiro ou os viciados em café.

Da capela só saem andores de dois em dois anos

Tem, de facto, pouca gente o dito povoado e a pouca que tem já está envelhecida, mesmo fazendo lembrar laboriosas formigas a tratar de leiras, a podar fruteiras, a varejar oliveiras, a apanhar castanhas, a amanhar talhões cismando em sementeiras.
Viver por aqui pode não ser simples mas é despreocupado. Estes são os sítios onde o decorrer dos séculos menos modernizou as coisas e onde a vetustez é culpada do findar de cultivos e do epílogo da manutenção dos gados. Só já há resíduos dos muitos rebanhos que, por aqui, deambularam subindo e descendo montes. Ficou a vigia dos cães e o miar dos gatos. Sobram, ainda, escassas galinhas e alguns burros, entretanto, promovidos a animais de companhia. As lebres, perdizes e coelhos, outrora tão acossados, já vão gozando de assaz tranquilidade.
Do património construído, restam algumas casas mais recentes e alguns austeros e antigos edifícios mas sobressaem a igreja e a capela. A igreja continua a abrir portas domingo sim domingo não. Da capela só saem andores de dois em dois anos, nas festas de Santa Bárbara. Porém há imóveis que já não estão habitáveis. Alguns já se entregam à natureza, com silvas a espreitar as janelas, árvores a assombrar os telhados, tetos a cair, ervas a crescer nos interiores e musgos a esverdear varandas formando um esplendido declínio que embeleza e mata fazendo-nos sonhar com um eventual milagre turístico/cultural.
Ainda brota água límpida e fresca do chafariz amodernado.
A Pega, a maior Ribeira deste pequeno mundo, segue entre margens frescas e sombrias. Erguem-se, ao longo do seu leito, alguns moinhos em absoluto desuso quando não em ruínas.
Hoje, nesta tarde parda de inverno, o pequeno povoado parece entregar-se a monólogos não deixando de nos mostrar três dos seus habitantes de referência. Um deles, um gato, a desdobrar-se em cautelas para se deslocar no cume afiado de um muro granítico. Outro, um cão, branco, enorme e afável aproxima-se como se nos rogasse festas. Ainda o Ti Messias que nos abeira no intuito de se dar a conversas.
Falar, então, de quê, hoje, senão deste povo e desta aldeia de Cheiras, campesina de nascença, inserida no concelho de Pinhel onde é sulista por condição.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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