Casteleiro – Comparar a Serra da Pena ao Centum Cellae

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Há cinco anos, defendi aqui uma teoria que cada vez mais me convence. Com base em algumas comparações e duas ou três consultas históricas na Internet, concluía eu nessa altura que a arquitectura da Serra d’Opa, do séc. XX, teria sido inspirada na arquitectura do monumento Centum Cellae a alguns quilómetros em Gonçalo, Belmonte. Volto agora ao tema por outro caminho…

Hotel da Serra da Pena e o Monumento Nacional Centum Cellae - Capeia Arraiana

Hotel da Serra da Pena e o Monumento Nacional Centum Cellae (Fotos: D.R.)

Chamava eu então a atenção para o facto de a Serra da Pena já não ser agora na Freguesia. Mas adianto que este era o Chão da Pena que era propriedade do Morgado e pertencia à Quinta de Santo Amaro (Casteleiro, não é?).

Além disso, mesmo hoje e sobretudo há 50 anos, as ligações visuais e pessoais ao Casteleiro eram e são imensas.

A tese que na altura coloquei é muito simples e volto a ela hoje: acho que o Hotel da Serra da Pena, inaugurado em 1926 foi inspirado em termos de «design» no Monumento Nacional Centum Cellae, em Belmonte, ao pé de Gonçalo – mais propriamente no Colmeal da Torre.

O que era o «Centum Cellas»?

Jorge de Alarcão diz que se trata da sede de uma villa – quinta – romana, cujo proprietário se chamava Lúcio Cecílio. Note até que D. Sancho I, em 1188, atribuiu à aldeia ali existente carta de foral – aldeia chamada Centuncelli. O que significa que se tratava de um povoado com importância ou demográfica ou estratégica.

Mas note que a torre que resta é apenas parte do original, pois essa construção incluiria «salas, corredores, escadarias, caves e pátios».

Hotel da Serra da Pena - Capeia Arraiana

Hotel da Serra da Pena (Foto: D.R.)

A Serra da Pena

Como nasce a Serra da Pena?
1.º O Hotel foi construído no início dos anos 20 do século XX e inaugurado em 1926.
2.º O seu investidor foi um conde espanhol, Don Rodrigo.
3.º Tratava-se afinal de umas termas à base de água e lamas radioactivas.

Fazendo as comparações certas, conclui-se…

Puxei sempre a brasa à minha sardinha. Imagine a seguinte conversa entre Don Rodrigo, o espanhol comprador do Chão da Pena e o seu amigo arquitecto, provavelmente também ele espanhol (imagine que se chamava Pedro)… Seria algo que posso facilmente imaginar:
– Don Pedro, o hotel que vamos construir tem de ser uma coisa muito bonita e rica.
– Pues, sin duda, Don Rodrigo. Vou estudar aqui a zona e ver a melhor forma de fazer uma construção imponente a meio da serra.
– Quero uma espécie de castelo, uma catedral da saúde, em honra da minha filha que aqui se curou com estas águas milagrosas.
– Assim será, Don Rodrigo.

E assim foi: Don Pedro percorreu as redondezas, viu bem o Castelo de Sortelha mas achou que era demais. Um dia passou na estrada de terra batida ali para os lados de Belmonte e viu ao longe… o Centum Cellas. Viu e desenhou-o, se calhar, para se inspirar sem dar demais nas vistas… Mas deu!
Ficaram quase iguaizinhos os dois «templos».

Para começar: diga-me lá se não têm ambas as construções um ar entre o misterioso e o tétrico – mas diga se não são ambas fatalmente atraentes?
Eu acho que sim.

Comparando as duas construções

Saliento de seguida as comparações que desde há algum tempo me têm vidrado nesta tese de se tratar de uma cópia. São oito argumentos imbatíveis – o que me parece:

1.º Aspecto geral: as fotos demonstram como as duas peças arquitectónicas têm traços semelhantes;

2.º A implantação em local amplo: de longe, parecem construções siamesas que se impõem na paisagem em que cada uma se incrusta – em descampado num caso; em meia encosta no outro, mas ambas isoladas e dominadoras;

3.º O padrão militar. A Serra da Pena tem algo de arquitectura militar, não tem? Não sente isso? A torre de Centum Cellas tinha essa finalidade, de certeza absoluta;

4.º A torre e torreão principal: segundo leio, o Monumento do Colmeal é a parte que resta de um conjunto mais amplo e seria a torre de vigia e de defesa; pois bem: a «torre» principal da Serra da Pena parece mesmo dela copiada;

5.º Aspectos interiores: quando se entra numa e na outra, é impossível resistir à tentação de comparar o granito, as linhas esguias e altas, as janelas em série a meia parede e até as ameias, bem lá em cima nos dois casos:

6.º Ar imponente de ambas as construções, relativamente ao ambiente rural em que cada uma delas se insere;

7.º Ambas as construções aparecem ligadas a exploração de produtos da Natureza de carácter excepcionalmente valioso: por um lado, os metais valiosos como o estanho, no caso de Centum Cellas; por outro, as águas radioactivas cujo poder curativo começava a ser descoberto na altura da construção do Hotel da Serra da Pena (anos 20 do século passado);

8.º Aspecto exterior geral de castelo. O Povo da minha terra até falava do «castelo da Serra da Pena». Quando se chega perto e se entra nas ruínas do Colmeal tem-se essa mesmíssima impressão de estar a entrar num castelo semi-destruído.

Ou seja: fazendo as comparações certas, há aqui muita coisa em comum entre as duas construções. Tantas semelhanças que até parece impossível que nunca ninguém que eu saiba o tenha escrito. E tão óbvias que, ainda estando eu a meio desta escrita, já estava a dar por mal empregue o esforço… pois o que é claro não precisa de aclaração – não é?

Oxalá, para meu descanso intelectual, que um dia algum grupo de especialistas destas áreas da arquitectura se dedique a este tema e me retire esta certeza ou então que me conveça do contrário de uma vez por todas e então eu calo-me de vez…

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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