1971-74 – Os dias da Tropa (14)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Mata do Maiombe na zona de Buco Zau - Capeia Arraiana

Mata do Maiombe na zona de Buco Zau

Vem de trás a relação de todos os meios em serviço na guerra em que estive na região de Cabinda, de Agosto de 72 até meados de 74.

Falámos na semana passada de transportes e meios terrestres. Hoje, seguimos para os meios aéreos.

MEIOS DE TRANSPORTE E DE COMBATE

II – Os transportes e meios aéreosterrestres

Não usávamos muito estes transportes nem na nossa zona apareciam muito os meios aéreos.

Mas de vez em quando, lá se dava uma volta de sobrevoo. Ou, mais frequentemente, lá aparecia a Força Aérea a reforçar a nossa vigilância no solo. E isso era muito importante, pela segurança acrescida que trazia a quem tinha de calcorrear aquele Maiombe passo após passo…

Mas os helis, esses, apareciam muito frequentemente a apoiar-nos. Aí, os rádios de cá e de lá de cima, não paravam… Ter helis a sobrevoar-nos nunca concordei muito pois denunciava a nossa posição. E isso era muito perigoso, sobretudo depois de o MPLA dispor de lança-rockets, o que possibilitava ataques a partir de locais até 10 quilómetros de distância…

Eis então os meios aéreos em acção:

Os hélis Alouette III da Força Aérea Portuguesa tinham versões «canhão», «evacuação médica», «transporte de operacionais» e «busca e salvamento» - Capeia Arraiana

Os hélis Alouette III da Força Aérea Portuguesa tinham versões «canhão», «evacuação médica», «transporte de operacionais» e «busca e salvamento» (Foto: F.A.P.)

1 – Alouette III
Helicóptero muito rápido e maleável. É aliás de justiça referir aqui e elogiar francamente o treino e a habilidade dos pilotos de todos estes meios para lidarem com eles, connosco e com o MPLA naquele medonho meio natural: Floresta Virgem do Maiombe. Impenetrável. E nós lá em baixo, por baixo das árvores. Não fora a perícia deles e poderia ter havido muitos «acidentes» de guerra. Mas não houve.

Helicóptero Puma da Força Aérea Portuguesa em África - Capeia Arraiana

Helicóptero Puma da Força Aérea Portuguesa em em zona de combate

2 – PUMA
Som inesquecível, o deste motor. Mesmo passados tantos anos, se estiver em zona onde um Puma apareça, é uma emoção sempre renovada. Hoje já não, mas até há poucos anos era assim (agora já não estão em serviço, segundo leio). Mas um Puma é sempre um Puma!

Noratlas «Barriga de Ginguba» - Capeia Arraiana

Noratlas «Barriga de Ginguba»

3 – Barriga de Ginguba
De seu nome verdadeiro Noratlas, esta aeronave mete respeito ainda hoje (penso que já só em demonstrações ou até nem isso). Impossível esquecer três coisas: o ruído exacto que faz e o desconforto do transporte que proporciona, mas sempre em grande segurança. Inesqucível a viagem de «férias» Luanda-Carmona a casa de familiares onde passámos uns dias e volta a Luanda. Maravilha…

North American T-6 é um avião monomotor para instrução e treino - Capeia Arraiana

North American T-6 é um avião monomotor para instrução e treino

4 – Avioneta T6
Meio de transporte aéreo ligeiro. Pouco usado nos nossos sítios. Mas muito útil e deslocações de descanso, por exemplo: ir a Luanda e voltar, como muitos faziam.

Chipmunk era um avião de  instrução - Capeia Arraiana

Chipmunk era um avião de instrução

5 – Chipmunk
O Chipmunk é um avião Monomotor de trem de aterragem fixo, monoplano de asa baixa, com revestimento metálico. A frota de 76 aviões, 10 vindo de Inglaterra e 66 construídos nas OGMA fez parte da história da aviação Portuguesa desde 1951.

Caça Fiat G91 da FAP - Capeia Arraiana

Caça Fiat G91 da FAP

6 – Fiat G91
Muito raramente, e se a situação se tornasse de facto incomportável para as Nossas Tropas – então, e só então, lá era requisitada uma varridela feita pelos Fiats (G91). E aí era limpeza certa e sabida: adeus guerrilheiros: eles tinham mesmo de se abrigar e desaparcer por uns dias.

Operadores de Comunicações - Capeia Arraiana

Operadores de Comunicações com o TR-28 às costas

Homenagem às Transmissões

Devemos quase tudo ao pessoal das Transmissões. Nos quartéis, estava sempre alguém de atalaia. Na mata, estava sempre connosco alguém das Transmissões com o rádio às costas ou não (tinham de ser ajudados em certas circunstâncias de muito esforço físico…). Dependíamos todos do trabalho destes camaradas sempre simples, sempre tranquilos.

Por isso, fica aqui a minha homenagem real com o TR-28 o rádio mais usado no meu tempo, embora houvesse outros.

Só quem não está atento à vida real é que não entenderá o porquê destas linhas.

Se estávamos no quartel e havia um ataque ao quartel do lado, era através das Transmissões que o sabíamos.

Se se aproximavam aeronaves, sabíamos por eles também, pois as aeronaves comunicavam connosco através das Transmissões.

(Continua.)

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