Casteleiro – Diferente mas igual com o seu encanto

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O território do actual Concelho do Sabugal é muito diversificado. De aldeia para aldeia, de anexa para anexa, para lá e para cá do Côa, semelhanças e diferenças… Somos tão iguais e tão diferentes! Ou melhor: tão diferentes mas tão iguais!

Pôr-do-Sol no Casteleiro - Capeia Arraiana

Pôr-do-Sol no Casteleiro

Um dia, há exactamente nove anos, escrevi pela primeira vez sobre um tema que depois descobri que não é nada pacífico.

Esse assunto é o seguinte: pelo facto de todos pertencermos ao mesmo Concelho hoje, isso fez de cada aldeia uma colectividade igual à do lado?

Eu nunca achei que assim fosse e nunca achei que isso perturbasse a união nem a cooperação de aldeia para aldeia. Certo?

Quem somos e de onde viemos?

Foi no Norte e centro do País que se acomodaram os celtas. E, ao lado, claro, os vetões. É por aí que me sinto: entre o celta e o vetão.

Mas estas coisas não vão lá por sentimentos.

Há leis mais altas que nos trouxeram até aqui, de mistura em mistura, até à mistura actual…

Já tenho dito e escrito que me sinto celta. Aliás, acho que o Casteleiro é filho e herdeiro de ocelenses – um povo que por aqui habitava antes ainda dos lusitanos.

A pergunta que se deve fazer é: não será verdade que cada aldeia tem a sua história, o seu percurso histórico? Hábitos, costumes., linguajares – não serão construções diárias ao longo de séculos e séculos? Isso não terá feito de cada caso um caso?

Hoje a comunicação é muito simples, muito dinâmica e tudo fica muito parecido.

Mas como seria há 400 anos? E há mil, dois mil anos? Era fácil aquela meia dúzia de habitantes de uma aldeia contactar os da outrra a 15 quilómetros? Acho que não.

E acho que vêm daí as diferenças. Que se vão vão esbatendo em cada dia que passa – mas mantendo-se sempre como diferenças. Não será assim?

Mapa das freguesias do concelho do Sabugal - Capeia Arraiana

Mapa das freguesias do concelho do Sabugal

Identidade, sim, mas na diversidade…

Não é fácil haver identidade de uma casa para a outra. Ou seja: um sentimento de pertença a algo comum. Quanto mais de uma rua para a outra. Ou, pior, de uma aldeia para a outra… Isso é um facto, na mais pura das acepções da palavra identidade: sentir-me igual, ou parecido que seja com o vizinho do lado. Mas temos de acrescentar aqui algo fundamental: a aquisição cultural. O ser humano, ao logo dos milénios, foi percebendo que, tão importante como combater os inimigos foi sempre juntar-se aos que o não eram, mesmo que ainda não fossem ou nunca chegassem sequer a ser amigos. É essa uma das vertentes da lei da sobrevivência. Pura e dura.

E aí, nesse geral movimento de aproximação ao que, não sendo igual, é menos diferente do que o inimigo identificado, aí, nesse contexto e nessa caminhada, fabricam-se, constroem-se e aceitam-se outras dimensões do relacionamento humano.

Tudo isso para poder escrever descansado esta síntese:
– Sim, haverá uma identidade regional. Mas ela é mais o fruto da aceitação de factos consumados do que o produto firme de uma caminhada que se quis e foi comum, coesa e «amigável». Pelo contrário: os termos antigos e seus habitantes, acorrentados a duras relações com os poderes (laicos ou religiosos), defenderam-se aceitando unidades com o menos mau, contra o pior. Ou seja: o Casteleiro que passou séculos virado para baixo, para as planícies da Beira Baixa, acasalou ou foi acasalado (passe a expressão desbragada) com as terras mais frias a Norte e a Ocidente, chegando-se mais para o lado da fronteira – de onde sempre tinha fugido a sete pés.

Esta forma de dizer bruta que usei só a usei para terminar assim:
– Onde me tratarem bem é que eu me sinto bem! – E se o meu sentimento de pertença não for tão forte como eu mesmo desejaria, só me resta aperfeiçoar esse sentimento de pertença, de inclusão.

O grupo social não nasce feito: constrói-se.

É isso que eu penso e que me leva a defender a identidade regional (a que existe e a que deve ser desenvolvida e aprofundada), desde que daí posam vir benefícios para a comunidade de proximidade que considero ser a minha mais arreigada e mais íntima. Tudo o resto são artifícios. Que não resistem ao correr da História, acho eu.

Dia de Festa no Largo do Casteleiro - Capeia Arraiana

Dia de Festa no Largo do Casteleiro

Hino da minha terra

Por tudo isto e muito mais, cada vez mais gosto da minha aldeia. E é simbolicamente que aqui deixo mais uma vez ao leitor o nosso hino.

Através dele queremos significar uma coisa muito simples: por muitos defeitos que a terra tivesse, por muito diferente que seja de todas as outras terras, uma coisa é certa: para nós, o Casteleiro é a terra mais encantadora.

Leia esta coisa simples mas forte, foi nosso Hino de antigamente, ao que sei cantado em visitas de entidades oficiais… É assim:

Ó Casteleiro, terra de encanto,
Terra tão linda não há, não há.
É por ser bela que a amo tanto.
Nem que me paguem não vou de cá.

Quanto te deixo, ai que saudade…
Sinto os meus olhos brilhar de pranto,
Mas ao voltar que felicidade:
Sinto-me presa ao teu encanto

Em toda a Beira não há igual
Por isso a amo com amor profundo.
É a mais bela de Portugal,
Mais pitoresca de todo o mundo.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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