Novela na Raia – Episódio 20

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 20).

Novela na Raia - Episódio 20 - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Episódio 20 – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

SEGUNDA PARTE – DEIXAR A ESCOLA

Um dia, quando regressava desse seu habitual fado, o Miguel encontrou a rapaziada com varinhas de salgueiro pintadas com moras trigais, cantando ao som da concertina do Manel Agusto:

O Manel Agusto
Diz que quer, que quer
Casar co’a Faustina,
Deixar a mulher.

Salgueiro do Campo,
Terra do Minho,
Em Castelo Branco
Tens um cantinho.

(quadra de refrão)

Tens toda a valia,
Salgueiro do Campo.
És da freguesia
E concelho de Castelo Branco.

E cantavam de novo o refrão.

Era a rapaziada que se preparava para ir no dia seguinte à inspecção militar ao Sabugal. Vinham do Lameirão da Ribeira, onde se tinham banhado, alguns pela primeira vez na vida. Que diabo! Não podiam ir mostrar o corpo sujo ao sargento que iria decidir entregar-lhes a fita branca de livre, a vermelha de apurado ou a verde de esperado, dando mau nome a Codrazais!

Todos os anos o Manel Agusto trazia uma moda nova, tal como fazia o rancho dos ceifadores que regressavam à terra, vindos do Campo, modas que o povo entoava durante algum tempo, como sendo suas, passando a fazer parte do cancioneiro de Codrazais. No ano anterior, a moda tinha sido:

Há dias passei,
Mas não lhe falei.
Você ‘stá zangada
Comigo, bem o sei!

A graça que tem, (bis)
Que passa na rua
E não fala a ninguém.

Cuidado, cuidado!
Pois foi assim que ficou combinado.
Você não fala comigo na rua,
Nem diga a ninguém que eu sou sua.

Não é por vaidade,
Nem é por ter medo.
É só p’ra guardar um segredo.

Ao Miguel faltavam cinco anos para também ele se apresentar no Sabugal e sentir as mesmas alegrias destes seus conterrâneos. Era a maior festa civil da aldeia. Até as raparigas, familiares, amigos ou simples vizinhos participavam na alegria dos namorados. Passavam alguns dias a fazer na meia uns caturnos às amêndoas que os namorados haviam de calçar no dia da inspecção, pugnando por cada qual apresentar os caturnos mais bonitos. Também ele haveria de calçar um dia uns caturnos feitos pela Palmira.

Assistiu na manhã do dia seguinte à largada dos cavalos para o Sabugal, ao som de um foguete. Cada qual havia escolhido o melhor cavalo da aldeia, fosse próprio ou emprestado por amigos. Este comera das melhores rações durante alguns dias. Para lá iam todos juntos, com o Manel Agusto à frente, também montado num cavalo. Deixados os cavalos no curral do Arlindo Mono, no Sabugal, tocavam e cantavam até à Cambra, onde decorreria a inspecção. Para cá, era ver quem chegava primeiro a anunciar as boas e as más novas. Quem chegasse primeiro seria o herói do dia e todos louvariam o seu cavalo.

O Miguel vira o Tó Gero montado num valente cavalo já ganhador havia três ou quatro anos, pertença do Quim Domingos. Seguramente, seria ele a ganhar a corrida!

Nestes dias de folia o pai, Gero de nome como o filho, seguindo assim a tradição de dar o nome do pai ao primeiro filho e o da mãe à primeira filha, havia-o libertado da lei de ter de estar em casa à hora da ceia, hora do toque a rezar, mais conhecido noutras terras por toque das Trindades, estivesse ele onde estivesse. O pai dava um assobio ou um agazeio que se ouviam em toda a aldeia e o Tó Gero tinha de se apresentar em casa de imediato.

Alinhados estavam também o Tito Salvador, o Génio Sant’André, o Virgílio Forneiro, o Leonel Réqué, o Quim Cidade, o Silvestre, o Simão Pardido, o Quim Padece, o Canaveira, o Simão Carvalha, o Tó Lórenço, o Tonho Amador, o Tó Brocho, o António Campos, o Tó Cidade, o Zé Simão de Malcata, o Tó Ramos, o Dionísio Ruvino, o Tó Ginginha, o Simão Candajo, o Gilberto Bicheiro, o Zé Manel Bedo e o Simão Jaquino, entre outros dos cerca de trinta e seis quintos, todos orgulhosos dos caturnos que calçavam, com as namoradas a gabarem-se do bom trabalho que haviam feito e a arreceberem os parabéns das futuras sogras. O Simão Garrano, um pouco mais novo, presenciava a cena, a aprender como fazer no seu ano.

Durante uma semana haviam dado voltas ao povo, cantando e armando balhos nos terreiros habituais. O povo compartilhava com eles a alegria e, à tardinha, depois do trabalho do campo, era ver as raparigas a arranjar-se para o balho e as mães a preparar-se para mirones. Muitos palpites faziam quando viam algum rapaz mais agarradinho a esta ou aquela rapariga, cochichando-lhes palavras ao ouvido. Ali a lei não valia.

Era, para além da Fonte, o local para encontrar namorada.
– Olha! Olha aquele parzinho! Aposto que dali sai namoro! – dizia uma.
– Atão, e o que dizes daquele otro ali no meio?
– A esse já não lhe dou que chegue ao Natal sem terem corrido os banhos.

E os rapazes continuavam depois com suas borgas na taberna do Candajo, do Manal, do João Moira ou dos Cordeiros, comendo massas de carne de cabrito, morto pelo taberneiro de entre o seu rebanho, e bebendo do melhor e abundante vinho.

Haviam passado muitos trabalhos na serra, muitas carreiras à frente de carabineiros e fachos, longas caminhadas de noite até à Cerdeira ou Covilhã para ganharem uns tostões para essa semana de regabofe.

Cada qual já tinha ido ao barbeiro da sua preferência -o Ferreirinho, o Zé da Cruz, o Zé Chibo ou o Quérmio -para cortar o cabelo. Conheciam barbeiros, sapateiros e alfaiates de poisarem nas suas oficinas, quando gaiatos, e serem mandados pelos profissionais levar a pedra de afiar as agulhas a outro colega. O pedregulho que lhes punham em cima dos ombros fazia-os vergar. A paga de terem entregado a pedra era terem de a carregar de novo para outro colega de profissão, por mando do que a recebera. Às vezes lá recebiam uns preguinhos dos sapateiros -o Tózinho, o Zé Mariê ou o Carrapatinho, para fazerem um carrinho ou um mangual. Dos alfaiates nada recebiam, a não ser a alegria de ver a agulha trabalhar nas mãos do Ratatau, do Zé Vinhas ou do Manel da Trindade, transformando o corte da pana numas calças ou num fato. Iam aprendendo. Quem sabe se não viriam a ser também alfaiates ou sapateiros, únicos ofícios que o quadrazenho abraçava? Pelo menos o Jaquim Ratatau aprendeu com o tio a arte que viria a abraçar e que abandonou para ir para polícia, que também abandonou para emigrar para França. Os fatos novos estavam a aguardar o dia das sortes.

Chegado o primeiro à aldeia, deitaram um foguete a anunciar o feito.

O Tó Gero, triunfante, ostentava na lapela a fita vermelha. Tinha bom corpo para ir à tropa. Mas nem todos mostravam tal contentamento, à medida que iam chegando. Muitos viam na tropa um atraso nas suas vidas e não raro se viam lágrimas nos seus olhos.

Os livres, de fita branca, eram, em geral, os mais contentes. Tinham a vida por sua conta. Mas, para alguns, que tinham bebido durante dias litros de vinagre para emagrecerem, as doenças começavam a surgir.

Os de fita verde, esperados, teriam de lá voltar no ano seguinte, coisa pouco agradável, não só pela indefinição das suas vidas, como ainda pelos gastos que teriam de suportar de novo, o que equivalia a dizer que teriam de suportar o peso dos carregos mais umas tantas vezes. Quem sabe se não ficariam apurados no ano seguinte? Teriam de pedir novamente, por favor, que lhe emprestassem cavalo, as namoradas teriam de esperar pelo casamento e teriam de lhes fazer novos caturnos. A festa já nem saberia tão bem porque os colegas já não seriam quintos com quem frequentaram a escola.

A folia era agradável, mas custava caro!

Notas:
– Agazeio – grito de: Ah! Ghi! Ghi!
– Agusto – Augusto. Manel Agusto, tocador habitual contratado em Salgueiro do Campo, que pertenceu mais tarde à Orquestra Filarmónica de Castelo Branco.
– Arreceber – receber.
– Borga – convívio em geral na taberna com comes e bebes.
– Cambra – Câmara Municipal.
– Gero – Ludgero.
– Quintos – os da mesma idade.

(Continua.)

:: ::
«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

Deixar uma resposta