Carta aberta à senhora Ministra da Cultura

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

Permito-me a ousadia de lhe escrever esta carta aberta, porque a minha relação com a senhora Ministra da Cultura, de cidadão para detentor de um cargo político, passou a ser, desde há alguns dias, uma questão, mais que civilizacional, democrática…

Capeia Arraiana - Património Cultural Imaterial Nacional - Capeia Arraiana

Capeia Arraiana do Sabugal – Património Cultural Imaterial Nacional

«Exma. Senhora Ministra da Cultura

Permito-me a ousadia de lhe escrever esta carta aberta, porque a minha relação com a senhora, de cidadão para detentor de um cargo político, passou a ser, desde há alguns dias, uma questão, mais que civilizacional, democrática.

Declaro, desde já, que sou um aficionado do fenómeno taurino, revista este o aspeto de espetáculo, ou de manifestação de culturas e tradições populares, cujas raízes se perdem no tempo.

Sou natural de uma zona do país, a Raia Sabugalense, que vibra com o confronto leal entre homem e touro, durante um encerro ou, na praça improvisada, numa Capeia.

Não sei se a Senhora alguma vez assistiu a este despique único numa das nossas aldeias raianas, pois acredito que se o tivesse feito, perceberia que pode acontecer, num futuro próximo ou longínquo, que as capeias deixem de se realizar, mas, nessa altura, os sabugalenses raianos terão perdido uma parte da sua identidade e da sua autenticidade.

Foi essa, aliás, a principal razão porque o então Instituto dos Museus e da Conservação, agora, na Direção-Geral do Património Cultural, integrou a Capeia Arraiana no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, tendo em conta o seu valor enquanto manifestação popular e etnográfica.

Por outro lado permita-me, Senhora Ministra, que lhe confesse o meu desapontamento, e agora permito-me falar em nome do touro, por reduzir o animal selvagem e soberbo na sua atitude quer no campo, quer na praça, a um simples animal domesticado, seja um animal de companhia, seja um animal que é criado e engordado para acabar no prato dos portugueses.

Sinceramente lhe digo que esperava outra atitude da Senhora Ministra.

E não me refiro à questão do IVA, pois essa é, no meu entender, secundária, custe o que custar aos empresários e aos organizadores de espetáculos taurinos.

Refiro-me ao desconhecimento que a Senhora demonstrou no que diz respeito á questão do touro, desde a sua criação até ao momento do combate em praça com o homem ou o binómio cavalo/homem.

Refiro-me ao desconhecimento ou, pior ainda, à desconsideração que demonstrou para com práticas culturais tradicionais que se registam em vários pontos do nosso País, e que envolvem o touro.

Mas será que vamos ouvir a Senhora Ministra dizer que comer carne ou peixe é também uma questão civilizacional, logo, que a carne nos talhos e o peixe nas peixarias deve ter o IVA agravado?…

Claro que tudo é uma questão civilizacional, pois resulta do sentir e do querer de uma coletividade de seres humanos, cujos princípios e modos de viver vão evoluindo ao longo dos tempos.

E é claro que a senhora Ministra tem todo o direito de pensar qual o melhor mundo em que gostaria de viver, e de contribuir, pela sua ação, para que tal mundo se torne realidade.

Não pode é, enquanto cidadã, e enquanto ministra, tornar o seu desejo em padrão civilizacional de todo um País.
Porque então a questão civilizacional entra no campo da limitação do direito de pensar diferente, isto é, abre campo ao exercício de um poder discricionário, logo, antidemocrático.

E é por isso que, mais que uma questão civilizacional, as suas posições sobre espetáculos e manifestações culturais em torno do touro são uma questão de limitação de democracia, campo onde não esperava encontrar a senhora…

:: ::
«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

Deixar uma resposta