O café da minha juventude

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Todos guardamos, da nossa juventude, recordações de sítios especiais. Há cafés que, por preservarem vivências próprias dessa idade, constituem lugares de referência privilegiada.

O café Madrilena no topo do jardim José de Lemos (foto colhida do blog Sol da Guarda)

Na Guarda, o café Madrilena, acomodou alguns dos momentos mais significativos dos meus últimos tempos de Liceu.
Aos quinze anos, terminado o 5º ano (agora 9º), a mudança do Outeiro de S. Miguel para o Liceu Nacional da Guarda implicou um sofrido corte com a maioria dos colegas do Colégio. Iniciei, então, uma vida de hábitos e amigos novos. O dia a dia comedido que me havia sido imposto no Outeiro rebentava agora de forma, talvez, algo excessiva. Entre outras práticas, as saídas à noite, sempre iniciadas com a toma de café, passaram, rapidamente, de costume recente a rotina.
A Madrilena, no topo do Jardim José de Lemos, facultava, quotidianamente, muito mais do que o acto de ingurgitar café. No inverno oferecia o seu aconchego interior. No verão cedia a serenidade da esplanada. Outorgava, em todo o tempo, as peculiares maneiras de um empregado de mesa que ajudava a criar preferência. Recordo-me da sua dedicada coadjuvância utilizando a bandeja de lata que lançava ao chão num barulho azucrinante, para que servisse de lembrete geral à hora do encerramento ou de qualquer outro enfático momento. O ambiente propiciava, per si, grande empatia e era ali que ocorriam os principais encontros da malta.
Hospedaram-me, por essa altura, no terceiro andar de uma casa pertencente a um funcionário público aposentado, o Sr Coelho Evangelista, ali no Largo dos Correios. O edifício avultava-se mais em altura que em largura e, não sendo excessivamente amplo, transbordava de estudantes. Ainda hoje se mantém, de aspeto mais ou menos conservado, tendo, no entanto, mudado de funcionalidade. Já conteve uma ourivesaria entretanto encerrada. Agora, de portas e janelas trancadas, anuncia, na fachada, que está para arrendar.
Os aposentos das meninas eram no rés do chão. No primeiro andar dormiam os locadores. No segundo ficavam a cozinha, a sala de refeições e a casa de banho. Os rapazes permaneciam exilados no terceiro piso, livres de qualquer promiscuidade. Em dois anos coabitámos as assoalhadas cimeiras quatro mancebos: o Carlos Jerónimo, o Gata, o Borges e eu.
Em frente era a Escola do Magistério Primário, agora Escola do 1º Ciclo – Augusto Gil.
O meu quarto tinha uma sacada corrida a toda a largura do prédio. Na prática a varanda era uma área comum de onde a rapaziada obtinha uma vista privilegiada sobre as entradas e as saídas das meninas do Magistério.
Depois de jantar, ir à Madrilena para uma bica ou para um encontro de grupo era uma quase fatalidade que podia, ou não, iniciar um qualquer programa noturno. Havia quem, de caminho, passasse pelo Géninho dos jornais e se apresentasse de periódico de baixo do braço. O jornal passava, então, de mão em mão, filantropicamente, enquanto nos acanhávamos em redor de uma mesa de tampo branco, pequena e redonda. Na altura lia-se mais do que se via televisão.
Quando se conversava era veementemente e no calor do debate cabia tudo: habilidades e picardias do Liceu, banalidades futebolísticas, namoros de ocasião ou, até, conteúdos mais profundos de cariz politico/social. Ali, bebericando, lendo, tertuliando, enfim, consumindo momentos de delicioso estar, cimentavam-se grandes amizades.
Passaram anos e, ainda hoje, não dispenso uma “italiana” na Madrilena. Devo, no entanto, confessar que, mais do que para uma bica, regresso ao café da minha juventude na expetativa, amiudamente gorada, de encontrar algum velho companheiro.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

One Response to O café da minha juventude

  1. Palha diz:

    Como sempre, contínuas inspirado.
    Grande abraço.

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