Casteleiro – Berço industrial de tecidos?

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Em 2012, publiquei no «Capeia» uma crónica sobre esta temática apaixonante: aí defendi uma tese e regresso ao tema mais uma vez. Essa tese é a seguinte: a minha aldeia pode ter sido berço de indústrias ligadas aos tecidos – mas tudo terá acabado em nada por razões de comércio internacional. Se assim não fosse, hoje seríamos uma grande cidade industrializada – quem sabe…

Assim eram os campos de linho - Capeia Arraiana

Assim eram os campos de linho

Na parte final da última crónica, já dedicada à indústria de tecidos falava do mal que a essa indústria fez a concorrência das manufacturas orientais então chegadas à Europa.

Sobre essa hipótese de concorrência, chamei em meu auxílio o ensaio de Jorge Miguel Pedreira «Indústria e negócio: a estamparia da região de Lisboa, 1780-1880», onde afirma: «Na segunda metade do século XVII e principalmente no século XVIII, os panos de algodão estampados da Índia granjearam, pela sua leveza e pelo colorido dos seus padrões, a preferência dos consumidores europeus. Eram tecidos que podiam substituir com vantagem as sedas, tanto em artigos de vestuário como de decoração. A importação das «indiennes» e dos «calicots» cresceu consideravelmente e as Companhias das Índias Orientais começaram a organizar feitorias para reunirem esses produtos.»

Ou seja: foram os produtos das Índias Orientais que acabaram com qualquer hipótese de vingarem indústrias locais em Portugal e no resto da Europa. Mas onde é que eu já vi isto???

Hoje, no Tinte, podia haver ma fábrica destas... - Capeia Arraiana

Hoje, no Tinte, podia haver ma fábrica destas…

O trabalho num «tinte»

Fui procurar saber um pouco mais sobre o que se fazia e como nas tinturarias e depois nas estamparias do Reino. Com o autor citado fiquei a saber coisas como:

– Era elevada a concentração de mão-de-obra no sector.

– Mas mão-de-obra feminina só no século seguinte (a partir de 1800 e tal).

– A indústria de estamparia, o sector em questão, era sem dúvida uma das mais importantes em finais do século XVIII e em 1881 era ainda, de vários pontos de vista,
um dos mais importantes ramos da indústria fabril.

– O trabalho era feito manualmente através da aplicação de tinta em blocos de madeira ou directamente sobre os tecidos.

– A branqueação dos tecidos continuava a ser feita pelo método tradicional da exposição ao sol, e não por processos químicos, obrigando os fabricantes a disporem de prados junto às oficinas, o que, naturalmente, encarecia a instalação e gerava problemas de localização. Este atraso tecnológico — que não é, no entanto, superior ao de outros sectores — seria extremamente duradouro. Só em 1847 é aplicada a primeira máquina de vapor, que permitiria finalmente a introdução das máquinas inglesas de imprimir a quatro cores.

– Em 1852, só duas fábricas usavam a energia do vapor e ainda em 1881 mais de 1/3 das unidades produtivas continuavam a estampar por processos manuais.
No tinte, os tecidos eram antes de mais bem batidos com grandes barras de madeira, de modo a ficarem mais macios e talvez um pouco menos desconfortáveis. Depois eram então embebidos em tintas feitas na base de produtos da Natureza.

Os tecidos da época iriam desde o burel das capas de pastor e outras peças de vestuário e de agasalho (feitas de lã cardada) o bragal, a flanela e a chita até à estopa e ao linho.
E como eram tinturados? Que matéria-prima se usaria? Não sei, pelo que ainda consegui encontrar num estudo publicado na Revista de Ciências Agrárias, versão digital, 2007, não errarei muito se disser que na minha terra esses produtos seriam mais ou menos os seguintes: raízes de várias plantas, bem como as corolas de algumas flores, lírios, giestas (flor amarela) e urzes.

Exemplo de tecelagem manual - Capeia Arraiana

Exemplo de tecelagem manual

Protecção real

Pelo que leio, o Casteleiro – e certamente outras terras por aqui – terá mesmo sido precursor… É que na Covilhã e na região de Lisboa, por exemplo, só na segunda metade do século XVIII é que a indústria vingou, mas com a protecção do Marquês e da Coroa.

Deve ter sido isso que cortou as vasas à industrialização, mesmo que mínima, da minha terra. E assim o «tinte» foi demolido e tudo voltou ao «ram-ram» do costume e as pessoas voltaram a comprar os seus tecidos aos vendedores ambulantes da época, talvez trocando-os por melancias e vinho. Digo eu…

Mas lá que se manteve, isso manteve, a tradição de cultivar linho, proceder à sua fiação e fazer ou mandar fazer a respectiva tecelagem nos teares simples da aldeia…

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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