Novela na Raia – Episódio 19

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 19).

Novela na Raia - Episódio 19 - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Episódio 19 – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

SEGUNDA PARTE – DEIXAR A ESCOLA

Na fráugua do Magildro começava a azáfama de fabricar e consertar instrumentos agrícolas para o trabalho do campo que recomeçava. Até os burros precisavam de novas ferraduras para passar carreiros e caminhos que as chuvadas do Inverno haviam destruído. Com a Primavera, o cio aumentava nas burras, vacas, porcas e cadelas. Começavam a andar cachondas. Viam-se nas ruas cães encangados com cadelas. Era a lei da natureza que atraia machos para as fêmeas, desejosas de terem crias. Era preciso levar as vacas ao boi da Torre para terem mais tarde uma bezerrinha e os donos poderem comer e oferecer os crostos.

Não tardaria que os pães ondulassem e mostrassem os cornachos nas espigas. Iria ver se apanhava um quilo deles que venderia por bom preço a certos homens de fora que visitavam a aldeia e os compravam juntamente com ferro velho e peles de coelhos. Com isso esperava obter bom dinheiro. Era mais uma fonte de rendimento.

Já se viam bandos de perdigotos correr a atravessar caminhos. O pursor Evaristo comprava cada cascarão de ovo de perdiz a cinco tostões.
– P’a que os quereria ele?

Como era caçador, se calhar queria ter a certeza que havia muitas perdizes a quem não haviam tirado os ovos do ninho. Ou será que os entregava a algum organismo ligado à agricultura e recebia dinheiro por eles?!

Com o bom tempo, chegaram os comediantes. Foi ver as comédias à Fonte e foi escolhido, com vários outros para, de mãos atadas atrás das costas, saltar, de olhos vendados, a ver se apanhava com os dentes uma das bolachas dependuradas de um fio. Foi nesse dia que os comediantes alcunharam de Zé Broas um dos concorrentes, alcunha que manteve por toda a vida. Os palhaços foram os que mais apreciou. No dia seguinte tentaria fazer as mesmas comédias nuns laços dependurados na loije do burro. Ou até dependurado dalgum cast’nheiro.

O cinema ambulante também passou pela aldeia. O Zé do Telhado era o filme a apresentar numa casa caiada, cuja parede serviria de écran. O Miguel quis ir vê-lo mas, sempre o pouco dinheiro que tinha a impedi-lo… Contentou-se em ouvir da Palmira a história do filme no dia seguinte.

Também chegavam os latoeiros, os capadores, os que deitavam pingos nos caldeiros ou pratos de alumínio ou punham gatos nos pratos de loiça partidos com uma maquineta a girar para fazer os furos, os gadanheiros para ceifar os fenos, os tosquiadores da lã das ovelhas com grandes tesoirês, que retiravam a lã das ovelhas em pouco tempo, fazendo velos com ela.

E até os ciganos voltavam para o seu negócio de venda de burros, a que abriam a boca para contarem a idade pelos dentes.

Instalados debaixo dos cast’nheiros, dormiam ao relento. De vez em quando havia casamentos entre eles. Deitavam uma panela de barro ao ar. Se se partia, era mau agoiro. Se ficava inteira, era sinal de felicidade. Comiam, cantavam e dançavam pela noite fora. Alguns mirones assistiam ao espectáculo, como mais um divertimento na aldeia, que vinha amenizar o duro trabalho do campo.

O Miguel passara uma ou duas noites a magicar o que compraria em Valverde e para quem. Satisfaria todas as encomendas, custasse o que custasse. Achava que duas idas a Valverde nos dias de semana e outra ao Sábado seriam suficientes. O Domingo seria para descansar, ir à missa e ver a Palmira. Era preciso programar a sua vida.

Logo passados dois dias de ter abandonado a escola, lá foi ele com o grupo habitual a caminho da raia. Muitas outras vezes seguiu o mesmo caminho. Desta vez tencionava trazer cheia a saca transformada em carrego. Aventurar-se-ia a trazer novos produtos, como: cortes de pana preta, castanha e amarelada, dois ou três pares de sandálias, uma ou outra borracha, uns dois quilos de cravos para o Sr. Mateus e outros tantos para o Magildro. Contas feitas, ganharia uns 7$50. Já podia dar-se ao luxo de comprar um chocolate para a Palmira e umas laranjas para casa.

Grão a grão, encheria a carteira. Com quatro ou cinco idas destas a Valverde teria os seus primeiros sapatos novos. A este ganho haveria que juntar o da venda do café e do tabaco. Aumentaria para seis pacotes.
– Dês queirê que nunca mai veja os carabeneiros ou os fachos! Cruzes, canhotos!

Nos outros dias ajudaria a mãe nos trabalhos do campo, trataria da erva para o burro, da comida para o marrano e de lenha para o lume, que iria cortar ao Alcambar e traria numas cangalhas em cima do burro. Agora gastavam menos porque era Verão. Mas era precisa para fazer de comer para eles e p’ à vienda do marrano, que acabaram de comprar pequenino e que teria de engordar durante uns seis meses. Teria de ganhar uma arroba por mês. Era preciso ir à abrótea, às leituguês, às sarrilhês, às boldregas, ós tassóis e outras ervas que ele comia, para além das boletas dos carvalhos, trabalho em que seria ajudado pelas irmãs.

Um milhano que sobrevoava o bairro do Cimo alarmou a vizinhança. Era preciso guardar os pitinhos, presas fáceis do milhano. E não eram só os milhanos a sobressaltar a vizinhança. De vez em quando cruzava a rua uma doninhê. Cuidado c’os pitos e c’os coelhos! E, às vezes, lá aparecia um pito ó um coelhito morto ou desaparecido nas garras do milhano.

Chegaria entretanto, novamente, a Sant’ Ofêmia e ele, com o seu fato do ano anterior ainda quase novo, e de sapatos novos, pegaria no guião vermelho, mais pequeno. O verde ficaria para mais tarde. Era muito pesado. Ufano, procurava os olhos da Palmira que, certamente, repararia nos seus sapatos novos. Balhariam logo à noite.

Por essa altura apareciam na aldeia os retratistas. Resolveu tirar um retrato para se lembrar um dia dos sapatos novos que estreara. Quem sabe se não o ofereceria à Palmira!

Nos restolhos pastavam ovelhas, apanhando algumas espigas que ficaram caídas no campo, disputadas por bandos de pardais. No céu voavam, por vezes, grandes grupos de centenas de aves, a que chamavam um casamento. O Miguel não percebia donde vinham tantos pássaros, nem para onde iam.

Pelos caminhos continuavam os burros a carregar com taleigas para os munhos, que transformariam o grão em farinhê.

Assistiu à vindima do tio ao Escaravelho e provou um ou outro gacho. Mais tarde também provou o doce mosto, sumo dos bastardinhos, ferrais e outras castas que ajudara a colher e a esmagar. Haveria de voltar lá mais tarde ao rebusco.
No tempo de nevoeiro do Outono apanharia tartulhos e míscaros e depois seria o rebusco das castanhas. Vira uma lebre na cama. Quis aproximar-se dela de mansinho. A lebre é que não esperou por ele.

Até parece que se aplicava em cheio o que Cristo dissera: Não vos preocupeis com o que haveis de comer!

Vivia como as avezinhas do céu, procurando sustento na terra, nas árvores e na água. O mesmo já não poderia dizer do vestir e do calçar.

Chegara novamente o Natal, sempre desejado na esperança de algum presente, o Ano Novo e as Janeiras, fonte de alguma choricê ou morcela, sem outras novidades que a morte de algum velhote e de crianças dizimadas em barda pelo tifo, pneumonias, ou bexigas, ou sarampo, ou sei lá que mais doenças. Pobres anjinhos! Que falta fazia a penicilina!

Passou o Entrudo, a Coresma e a Páscoa mais que uma vez, com os seus momentos de alegria e de tristeza, conforme se encontrava ou não com a amada Palmira.

Não comer carne nas Sextas Feiras da Coresma não era problema de maior. Nem precisava de pagar a bula. Pouca tinham para comer, salvo algum pezito de porco ou uma talhada de carne gorda.

Vira semear os campos de pão e vira-o crescer. Assistiu às festas, cada vez com mais entusiasmo. Brincou outras tantas vezes às mentiras do primeiro de Maio. Viu chegar de novo as andorinhas, o cuco e a çarangonha e viu-os partir novamente. Assistiu às acarreijas e às malhas e deitou outras tantas vezes os nagalhos. Os cast’nheiros ofereceram outras tantas vezes as apreciadas castanhas. Viu crescer cast’nheirinhos nos pães, que arrancou, comendo a castanha agarrada às raízes. E outras tantas vezes pensou na Palmira e lhe mandou recados pela irmã.

Soube que os fachos tinham apanhado o Zé Lareia e o haviam levado preso p’à cadeia do Sabugal. Coitado! Era certo e sabido que iria ter de vender algum chão p’a pagar advogados, se queria sair da cadeia. A mulher, MardaCruz, lá ia visitá-lo todos os dias, fizesse sol ou chuva, calcorreando a pé o caminho empoeirado ou enlameado, conforme a estação.

O Miguel receou ser apanhado. Que seria da mãe se o apanhassem?! Mas… Tinha de arriscar.

Quantas vezes mais não trilhou os caminhos da raia, carregando cada vez mais peso sobre os ombros, na esperança de melhorar a vida e não carregar miséria sobre eles!

Uma réstia de sol ia brilhando nos seus olhos com a perspectiva de ter consigo a Palmira, a quem dedicaria todo o seu amor. E era essa perspectiva de felicidade futura que o impelia para a raia, ciente dos trabalhos que passaria, aligeirados pelo sonho dessa felicidade longínqua.

Notas:
– Boldregas – beldroegas.
– Boletas – bolotas.
– Borracha – gudra espanhola de coiro para beber o vinho à catalona.
– Cascarão – coscorão.
– Cornacho – excrecência preta das espigas.
– Crostos – colostros.
– Dês – Deus.
– Gacho – cacho.
– Gatos – agrafos.
– MardaCruz – Maria da Cruz.
– Pingo – pequena quantidade de estanho deitada no buraco do prato.
– Vienda – vianda.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

4 Responses to Novela na Raia – Episódio 19

  1. Maria Rosa Afonso diz:

    Adoro as suas descrições, a minúcia com que o faz, dando todos os ângulos de um quotidiano que por esses anos era difícil.

  2. José Antunes Fino diz:

    Texto bastante expressivo com pormenores alusivos à vida quotidiana na década de cinquenta e sessenta do século passado. Ressalta à vista que o autor passou por todas estas dificuldades, pois, só assim, lhe é possível descrever com tanto realismo estas suas crónicas. Certamente que os seus conterrâneos saberão apreciar este seu trabalho literário o qual passará para a posteridade como um testemunho vivo dos seus antepassados. Parabenizo o autor por esta riqueza artística.

    • Franklim Costa Braga diz:

      Obrigado pelo comentário. Pretendo, de facto, deixar um testemunho aois mais novos do que foi a vida em Quadrazais nos anos cinquenta e sessenta. Apesar de não ter trilhado os caminhos de Espanha, onde fui apenas uma vez à festa de S. Brás, sentia a miséria por que passavam muitos miúdos e graúdos e também senti muuitas das dificuldades descritas.

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