Casteleiro – Antiga indústria dos tecidos

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Há seis anos, publiquei aqui uma linhas exactamente sobre estes assuntos: fiação, tecelagem e tinturaria. Hoje, recordando tudo isso com saudade a propósito do Tinte… por onde se passava para ir para Cantargalo… senti necessidade de voltar aos mesmos temas – e desafiar o leitor a saber se na sua terra também havia estas «indústrias» antigas…

Tear de linho - Capeia Arraiana

Tear de linho

Quando eu era pequeno, muita gente ainda plantava linho e procedia à sua fiação. E havia na aldeia alguns teares, que, imagino, seriam como o da imagem. Quanto mais leio coisas de antigamente, mais me convenço de que, há 270 anos ou mais, havia aqui uma espécie de indústria artesanal nascente que foi vencida pelos tecidos indianos que entravam de roldão no País por essa altura. E a Coroa deve ter ajudado à festa.

Mas vamos lá dedicar-nos à lembrança do que foram estas actividades lá pelos lados da minha aldeia nos últimos quase três séculos.

Fiação, tecelagem, tinturaria

Há na nossa zona uma tradição de fabrico ligada à fiação, tecelagem e tinturaria? Só pode ser. De outro modo, por que raio havia o Marquês de criar com pompa e circunstância bem perto de nós, na Covilhã, as tinturarias da Real Fábrica de Panos, uma manufactura do Estado, fundada pelo Marquês de Pombal em 1764?

Mas isso, reparem, é 16 anos depois da data daquilo que hoje aqui me traz.

De facto, em 1758, segundo o Padre da Paróquia do Casteleiro, o «tinte» já tinha sido demolido.

Dois pisões e um tinte

Fiação, tecelagem, pisoaria, tinturaria – uma fileira de produção essencial nas aldeias da era pré-industrialização.

Sabe-se hoje que o Casteleiro chegou a ter isto tudo.

Leia-se a propósito o que escreve o Padre, quando responde ao tal «Censo» do Marquês.

À pergunta 16 do capítulo III do questionário «O que se procura saber do rio dessa terra he o seguinte», o Cura Manuel Leal Pires responde: «Tem dentro do limite desta freguesia esta ribeira sete moinhos e três lagares de azeite, dois pizoins e algum dia teve também um tinte, porém hoje se acha demolido».

No que ora me interessa, atento nos «dois pizões» e «um tinte».

Pisão: espécie de moinho onde os tecidos eram batidos para ficarem muito compactados e por isso mais maleáveis dentro do possível, com estes processos artesanais da época.

Tinte: palavra espanhola para pintura artificial (por exemplo, ainda hoje, «el tinte del cabello»). Era a palavra usada para as tinturarias artesanais que havia lá em muitas aldeias. E aqui também.

Concluímos que em 1758 a construção que tinha abrigado o tinte já não existia. Mas existia bem viva a memória dessa unidade de «fabricação» local.

Por que terão acabado com a industriazinha da época? Proibição da Coroa?

Isso aconteceu muito nos arredores de Lisboa, por exemplo, sob o pretexto de que já se produzia de mais e que o consumo nacional já não escoaria a produção… balelas para dizer antes que se protegiam os interesses ingleses – cuido eu.

Para mim fica claro que estava tudo contra estas «artes» aldeãs e que o nascimento e desenvolvimento da indústria nacional de estamparia acabou por arrasar estas fabriquetas isoladas como o tinte do Casteleiro.

Hoje, deixou de haver o tal tinte. Mas a palavra ficou lá.

Tinte é o nome que ainda hoje damos àquele local. Fica próximo da Ribeira, ao pé de Cantargalo, a caminho de Gralhais.

>> Voltarei aos mesmos temas proximamente.

:: ::
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Deixar uma resposta