1971-74 – Os anos da Tropa (11)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Camião de madeireiro com troncos gigantescos - Capeia Arraiana

Camião de madeireiro com troncos gigantescos

Chegámos ao Bata Sano

O quartel fica num morro alto a 3 km do vila (Buco Zau). A picada que liga a vila ao quartel é só curvas. E, claro, floresta cerrada de ambos os lados.

A propósito: no caminho entre Cabinda e o Buco Zau encontrámos alguns camiões enormes carregados de troncos de madeira gigantescos. Soubemos que eram os célebres madeireiros a quem a tropa protegia… para eles desbastarem a maior floresta virgem do Mundo…

Visto à distância de anos e anos, parece-me que foi um crime, mas enfim…

Estrada Cabinda – Buco Zau

Mas antes de prosseguirmos, eis uma nota sobre a estrada Cabinda/Buco Zau: quem não soubesse que ali havia guerra, sobretudo nos últimos quilómetros, acharia que estávamos a fazer turismo na Natureza pura: arvoredo, curvas e contra-curvas, muitas águias, um ou outro macaco, uma águia com uma serpente no bico… parece um filme do National Geographic… e saberemos mais tarde que aqui há muitos gorilas (que vivem na floresta em famílias encantadoras… não fossem as Kalashnikov que se escondem por ali em todo o lado, e o filma do NG estava completíssimo)…

Ah! E os elefantes – animal que (ao que nos contaram mais tarde) vêm de muitos quilómetros de distância em direcção ao cemitério dos elefantes, em pleno Maiombe.

Mas esta primeira viagem, calma aí: vai tudo cheio de medo, tudo super-atento às bermas, sobetudo nos muitos locais em que as ribanceiras ao lado da faixa de rodagem são bem mais altas do que a estrada, que foi escavada para atravessar os morros. Essas ribanceiras são dos locais mais perigosos, como se entende.

Mas nada aconteceu e estamos a chegar ao quartel do Bata Sano.

Vila de Buco Zau - Capeia Arraiana

Vila de Buco Zau

Buco Zau

Última povoação antes do quartel: Buco Zau.

É vila. É concelho. Tem Administração e tem Administrador. Aqui se vão passar alguns episódios que mais tarde contarei.

Aqui mesmo pertinho é a célebre Fazenda Alzira, latifúndio de produção de café. O Administrador da fazenda é alguém de próximo das nossas terras: é o Sr. Viriato, de Penamacor.

Buco Zau tem o Rio Luáli, o das pepitas de ouro incrustadas em pedrinhas do rio – o que dará uma história que também contarei.

Aqui serão construídas casas de madeira para alguns de nós (e as nossas companheiras de vida aqui se juntarão a nós dentro de poucos meses, coitadas…). Vão sofrer connosco os ataques das osgas, das formigas e do clima louco em que vamos passar a viver. Vão ter os nossos medos e muitos mais, penso.

Tudo isto numa espécie de bairro da tropa no acesso ao Rio Luáli – de muitas destas coisas falarei mais tarde, em episódios dignos de registo…

Quartel sede do Batalhão: Bata Sano - Capeia Arraiana

Bata Sano – Quartel sede do Batalhão

Bata Sano

Porta de armas. Chegámos pois à Sede do Batalhão.

Acesso ao largo central, a Parada, onde tudo pára e começa o reconhecimneto do terreno, como se dizia na altura: onde são as casernas, o Bar, o refeitório.

Onde ficam as duas companhias, onde é a messe. O edifício das Transmissões. O Comando. A Mecânica. A Manutenção. Os armazéns de mantimentos, os paióis, etc.

Depois de tudo identificado, vai de instalar a tropa toda. Duas companhias, mais de 230 homens.

Mas não só. Já sabíamos que para a rendição ficaram no Bata Sano muitos militares do Batalhão que estamos a render.

Mas mais: temos por companhia no mesmo Quartel uma Companhia de Artilharia e noutro próximo, em plena zona operacional 100%, uma Companhia de Engenharia, que está encarregada de abrir e conservar as estradas de acesso aos quartéis mais endiabrados da zona – o Chimbete e o Sangamongo.

Foram os homens e máquinas de Engenharia que construíram também esses dois quartéis.

Reconhecimento e Informação

O papel que me cabe a mim pessoalmente é duplo:
1 – Adjunto do Oficial de Operações: tenho de ajudar no planeamento e controlo de execução de todas as operações, sejam as de progressão em zona operacional (Maiombe dentro), sejam as de segurança ao MVL, que é a coluna de viaturas (camiões) civis que nos abastecem de mantimentos de toda a espécie: alimentação, bebidas, rações de combate, etc.

2 – Comandante do Grupo de Reconhecimento e Informação, nome que agora é dado ao meu pelotão (agora um grupo de combate). Nessa qualidade, sou o responsável pela segurança do Comandante e do Segundo Comandante em qualquer deslocação que façam em zona operacional em meio terrestre. Se for de helicóptero, compete-me a mim fazer segurança terrestre do percurso do heli. Se o Oficial de Operações assim o entender, vou com outros grupos de combate da Companhia Operacional que está sediada no Bata Sano, na medida do considerado necessário para que haja segurança total dos Comandantes em deslocação.

Estas são as regras.

E a partir de agora é tudo muito a sério: nada pode falhar.

(Continua.)

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