Passam os anos fica a saudade… (16)

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

A «rapaziada» que se juntava aos fins de tarde na tasca do Ti Emídio Campainhas, realizava «sessões especiais» no dia de São Martinho, bebendo, mais que comendo, e «ferroando« em todos. Estes versos que, suponho, são do meu pai, referem-se ao São Martinho de 1970.

Foto tirada na Tasca do Campainhas no dia 10 de Novembro de 1971 - Ramiro Matos - Capeia Arraiana

Foto tirada na Tasca do Campainhas no dia 10 de Novembro de 1971

Atenção, muita atenção
Atenção, rapaziada
Oiçam velhos e carecas
Esta nossa desgarrada

Dá-me licença senhor Presidente
Que eu bote faladura
e comece a descrever?
Que no meio desta Pampulha
Eu enfie e pegue na agulha
E se comece a coser?

Então aí vai
E aquele que se ofender
De coisas que nunca ouviu
Vá-se queixar ao seu pai
Ou então vá-se a… correr
E não diga que fugiu

Tomem todos atenção
A roda vai pois andar
Não tenham ilusão
Que de todos há que falar

Bons irmãos, assim é que é
Correspondesteis este ano
Aguentai-vos sempre em pé
P’ra que corra pelo mesmo cano

Diz-me lá oh Coleguinha
Mas fala-me sem rebuço
Porque é que depois da pinguinha
Te vem quase sempre o soluço

Alberto vai-me dizer
O que faz você às peles
Isto não é para se ofender
Se lhe chamarem cão reles

Oh Alfredo, oh Alfredo
Tu até me metes dó
De te verem tu tens medo
E curti-las no dominó

Depois do bandulho cheio
E teso que nem um mono
Deixando o copo no meio
O Mário dorme o primeiro sono

Emídio, está bem disposto
Diz-lhe alguém a brincar
Vai ele entesa-lhe o rosto
Não estou para o aturar

O Ruizinho sem querer
Mal nos faz, mas sem maqua
Não põe os copos a escorrer
E em vez de vinho, dá-nos água

O Zé Guerra Amiginho
O homem cá dos pincéis
Que amigo é ele do vinho
E dos seus grossos marmeis

Manuel Augusto tu és
Do vinho uma pileca
Às vezes trocas os pés
Quando a jogares a sueca

Arnaldo, luz e som
Copos grandes? Isso não
O papo seco está tão bom
Que até se come sem pão

O Mário Póvoas a comer
É pior que um pisco morto
E quando toca a beber
Com dois copitos está torto

O nosso Vitor Professor
Ia estando quase seco
Tu não bebes por favor
Que agora estás no defeso

Fausto Louro p’ra estragar
A colite é lá contigo
Não bebas p’ra engrossar
E digas que foi comigo

O rio Côa vai seco
De água que já levou
O Alcino está rouco
Do vinho que o constipou

Manel Martins com qu’então
Segundo dizem, já tens suor
Que vais expandir a paixão
Para as mesas da Sacor

O Germano sem recato
Julgando-se na escola
Foi tirar a medida ao fato
Levando aberta a parchanola

O Toneco, já não há ninguém que o veja
Despiu-se, já tem a roupa no roupeiro
Passou a beber cerveja
E faz agora de leiteiro

O ZéZé está chateado
Do calor já está moreno
Tanto vai simples como misturado
Tanto faz grande como pequeno

O Manel Chapeira à rasca
Com o vinho por colher
Se lhe falam dá à casca
Mas como hei-de tanto beber

Atenção meu sargento
O Fausto Baltazar já entrou
E com grande descaramento
Logo um copo despejou.

O Tavares bom rapaz
Mas um grande estupor
Sabe bem o mal que faz
Bebe um copo por favor

Chamaram ao Zé Oliveira Maluquinho
E de razão têm carradas
Pois ele só quer chazinho
Mas chazinho com torradas

O Professor Fernandes é novo
Entrou para aqui aos ais
Apanhou-a de vinho novo
Lá p’rás bandas de Quadrazais

O embrulho do Zé Padilha
Põe-lhe a barriga num pote
Quanto a vinho só quer
Em vez de simples um lote

Joaquim Bogas que maçada
Você já está p’rábalar
Cedo estará de caminhada
Amanhã nos vai deixar.

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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