Verdade implacável

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

A investida do Leslie, à hora da sua furiosa chegada do Atlântico, apaziguou-se num abraço à Serra da Estrela. Do seu ímpeto inicial calaram-se os ventos e sobejaram chuvas ocasionais.

A abjeta imbecilidade de um motorista

O outono continuou humedecendo e refrescando os seus dias. Aquelas nuvens mais espessas que começam por sombrear o horizonte e acabam por se desfazer em água foram-se ausentando, fortuitamente, fazendo entremear o tempo entre escuro e ensoleirado.
Ora, numa destas tardes pós Leslie, o Céu ofuscou-se subitamente. Pouco depois soltaram-se alguns pingos que, engrossando, se transformaram em enxurrada. Decorrida meia hora, já a chuva perdia o ritmo e a rua oferecia-se como uma ladeira de sentido único, quase desprovida de peões mas percorrida por uma sequência esporádica de carros.
Face ao momento de acalmia reiniciei a minha trivial deambulação. Retomei a descida, fechei o guarda-chuva e pendurei-o do braço esquerdo.
À minha frente seguiam duas jovens em passo travado, tentando superar a inclinação e selecionando o caminho mais enxuto. Alguns paralelos arrancados e a ingremidade do passeio quase lhes obstruíam a marcha.
Cada carro que passava levantava uma névoa parda. A batelada tinha sido caudalosa e, a meio da descida, uma valeta entulhada de lixo originava um enorme charco castanho. Antes de o cruzar os condutores afrouxavam mas, no momento de o transpor, os carros sulcavam o lodaçal, lembrando barcos a motor.
As raparigas conversavam e seguiam distraídas junto à poça. Um carro, bruscamente acelerado, entrou no charco lançando sobre elas uma enorme quantidade de água e lodo. As jovens ficaram desairadas. Molhadas, dos pés à cabeça, sacudiram o cabelo de vários detritos acastanhados.
Após tamanha maldade o jovem condutor riu galhofeiramente e uivou de prazer perverso antes de, cobardemente, desaparecer nos píncaros da subida.
Um policia que descia a rua, na bonança da tempestade extinta, assobiava baixinho batendo a esferográfica no bloco de notificações. Verificava, junto ao passeio, a legalidade dos estacionamentos. Face ao sucedido o agente incomodou-se mas, rendido à impossibilidade de intervir, fez que não viu o que não ajudou a sanear a humilhação das raparigas. Uma delas olhou-o como se, dele, esperasse alguma ajuda mas cedo percebeu que nada havia a fazer e desatou a chorar copiosamente.
Testemunha da abjeta imbecilidade do estapafúrdio motorista, fiquei de hombridade abalada, mais molestado que pelos safanões do furacão e senti-me, simultaneamente, estranho e desolado. Estranho pela crueldade apalermada da patifaria e desolado por constatar que, nos tempos que correm, a estupidez pode não ter limites, a má fé pode ter piada, e o cinismo ainda é uma verdade implacável.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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