Um professor nas minas

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

O nosso Homem nasceu a 22 de Junho de 1935 na Aldeia da Ponte (Sabugal), filho de pais bismulenses: Manuel Mendes e Luísa Alves Vaz. A mãe era doméstica e o pai guarda-fiscal, colocado no Posto fronteiriço em Aldeia da Ponte, onde nasceram também as irmãs Maria Adelaide, Faustina, Trindade e Inês Alves Mendes. O seu Irmão, Joaquim Alves Mendes, nasceu na Freineda (Almeida), aldeia bem conhecida nacional e internacionalmente, onde se acantonaram as tropas luso-inglesas contra os invasores franceses.

António Mendes foi professor nas Minas da Panasqueira

Apesar das enormes dificuldades económicas, a irmã Maria Adelaide deu total apoio aos irmãos, nascendo uma família de professores.
O Professor António Mendes viu o seu apelido “Alves” apagado por caprichos do registo civil do Sabugal, o que lhe causou mágoa para sempre.
Por motivos religiosos e económicos, seguiu o caminho do Ensino no Seminário Menor do Fundão, onde estudou cinco anos. Saiu para frequentar a Escola do Magistério da Guarda, de onde saiu como Professor Agregado em 1956.
Com este estatuto, passaram-lhe a guia de marcha para dar aulas nas Minas da Panasqueira, numa Escola Primária, onde a maioria dos alunos eram filhos de mineiros.
Ali chegado, foi confrontado com os pais, trabalhadores mineiros, que não queriam deixar os filhos fazer exame da 4ª classe na Covilhã. Justificavam-se, dizendo que muitos eram repetentes e já tinham idade para fazer recados ou “pequenos trabalhos” ao serviço dos senhores das minas.
O Professor Mendes, apesar de compreender os anseios dos pais, pois também ele vinha de meios pobres e desfavorecidos, manteve a sua ética profissional e levou os alunos a exame.
No primeiro ano de professorado, conduziu à Covilhã vinte e quatro alunos, transportados numa camioneta de passageiros com passagem obrigatória pelo Fundão. Não havia outros caminhos e aquele ainda era de macadame e cheio de ziguezagues. Nesse grupo constavam dois futuros amigos meus: o Higino Serra da Cruz, o guardião do Templo de Aldeia de Joanes, e o Professor José Gil, um destacado sportinguista do Fundão. Todos foram aprovados com altas notas, perante a presença física do Director Escolar de Castelo Branco e um Inspector escolar, que elogiou o nosso Homem pelo brilhante trabalho desenvolvido.
O seu trabalho escolar foi reconhecido e premiado, e o Professor António Mendes mudou de estatuto, entrando para o Quadro de Pessoal Efectivo.
A Administração da Beralt, conhecedora das suas qualidades profissionais, acenou-lhe com uma proposta para entrar no quadro superior da empresa.
Mas o Professor Mendes não foi na música da sereia económica e disse-lhes: “tirei o Curso do Magistério para ensinar, é esta a minha vocação. Apesar de outra actividade profissional ser melhor remunerada, nada é mais nobre do que ensinar”.
Das Minas da Panasqueira foi para a Escola Primária do Paul e daqui para S. Miguel de Acha. Aqui recebeu o convite da Santa Casa da Misericórdia, mas recusou porque não quis abandonar as crianças do interior do País.
Durante muitos anos, fez parte do júri dos exames nos Concelhos de Idanha-a-Nova e de Penamacor. Também durante cinco anos, além do exercício de professor, desempenhou as funções de Coordenador Concelhio do Programa Interministerial de Promoção do Sucesso Educativo, integrando uma equipa que abrangia aqueles dois concelhos.
Trinta e seis anos a dar aulas, passaram-lhe pelas salas mais de mil alunos, a quem abriu as portas do futuro.
Este Professor António Mendes, com raízes bismulenses, é totalmente desconhecido na sua terra, mas estimado e reconhecido em outras paragens por onde ensinou.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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