Sortelha no Almanach de Lembranças de 1877

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

A páginas tantas do Novo Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro, referente ao ano de 1877, há uma curiosa entrada sobre a histórica vila de Sortelha e a sua monumentalidade, com referências quanto à índole do povo e às suas actividades. Curiosa é ainda a ampla referência ao «notável» cabeço de S. Cornélio, a «eminência mais próxima à Serra da Estrela».

O castelo de Sortelha

Na pesquisa que temos feito a almanaques e revistas antigas, na senda de procurar matéria para a coluna «Histórias de Almanaque», encontrámos um texto referente a Sortelha, assinado por José Gonçalves da Conceição e Almeida, residente em Cavadas de Cucujães, aldeia do concelho de Oliveira de Azeméis, inserido no Novo Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro.
Esse almanaque foi fundado em 1851 pelo Visconde de Castilho e teve larga repercussão em Portugal e no Brasil, sendo muitíssimos os seus assinantes em ambos os países.
Reproduzimos o texto sobre Sortelha, que veio publicado na edição do ano de 1877 do referido almanaque:

Sortelha é uma pequena vila situada a mais de 60 quilómetros a NNE de Castelo Branco, 25 quilómetros a ESE da Covilhã, e a 25 quilómetros ao SO da Guarda, defendida por grossas muralhas, e um castelo inexpugnável por natureza.
É a mais elevada das povoações sitas ao S e SE da Serra da Estrela, de onde dista 30 quilómetros. Foi um dos julgados extintos em 1851, e anexo à comarca de Sabugal. Pela sua posição alcança descobrir muito terreno, vendo-se em claro a cidade de Castelo Branco. No limite desta freguesia, à distância de 3 quilómetros, está situado o notável cabeço de S. Cornélio, notável porque é a eminência mais próxima à Serra da Estrela, independente dela. No alto do cabeço está a capela daquele santo e sobre ela um ponto de observação que, segundo o engenheiro que dirigiu a sua construção em 1868, é apenas inferior a 4 ou 5 metros ao nível do daquela serra. O cabeço não é mais que um monte de brutos penedos, sobrepostos talvez por alguma revolução na superfície do globo, mas o panorama que daqui se desfruta, e que só pode gozar-se nalguns dos dias do calmoso agosto, é surpreendente.
Além de dezenas de povoações, quintas, arvoredos, hortas e pomares, avistam-se daqui diferentes castelos, uns habitados e reparados, outros e completo abandono e desmoronamento (estes em maior parte), e são os de: Castelo Branco, Alcaide, Covilhã, Belmonte, Sortelha, Sabugal, Alfaiates, Vilar Maior e Guarda.
O terreno é em geral pedregoso e abundante em caça. Pelas imediações correm algumas ribeiras as quais produziriam bastante peixe se não fosse a indolência dos habitantes, que só os pescam amortecendo-os com barbasco e coca, o que, como é sabido, mata muita criação.
Colhe-se bastante castanha, centeio, feijão, algum trigo, milho, azeite, vinho e frutas, sendo estas mui saborosas; bem como há fartura de lenhas e bastante água, e de boa qualidade.
As muralhas da vila acham-se bastante deterioradas, já pela acção do tempo, já pela negligência dos moradores, que para se pouparem ao trabalho e despesa do corte e parelho de outras pedras, que a natureza daquele sítio lhes prodigalizou com mão liberal, as ali vão buscar. A sua espessura é aproximadamente de 2,50 metros, e a altura, segundo os vestígios, era quase de 30 metros.
Tem quatro portas, a que chamam: de cima a NO, falsa a N, de baixo a O, e da traição ao S. o castelo é edificado ao S sobre íngreme colina, impraticável por todos os lados excepto pelo da vila.
As armas da extinta câmara, eram simplesmente um anel. Os seus habitantes, apesar de pobres, são em geral asseados, pacíficos, religiosos e francos; hospitaleiros para com os estranhos que se abrigam nos seus lares. Tem alguns templos, mas só a igreja matriz se acha em melhor estado e é espaçosa; o orago é Nossa Senhora das Neves, cuja imagem é de pedra jaspe e de sofrível escultura, havendo também nesta igreja, como na da Misericórdia e capelas da freguesia, muitas imagens antigas de madeira, todas de boa escultura. A freguesia compõe-se da vila, arrabalde, aldeia da Quarta Feira, Dirão da Rua, sendo esta última situada junto ao cabeço de S. Cornélio, e várias quintas, o que tudo não excede a 200 fogos. A vila é bastante desabrigada de S, SO e SE, e por isso são ali quase sempre insuportáveis os invernos.

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Paulo Leitão Batista

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