Moura! Uma viagem ao passado

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Alguns de vós sabem que passei uma parte da minha vida em Moura, Baixo Alentejo. Normalmente era o Natal e o Carnaval e, nas férias grandes, a minha família alentejana acorria para Setúbal. No início o hábito não era a praia mas sim o campo. Iam para o Casal da Ajuda, mesmo junto à Quintada Comenda. Tudo girava na amizade extraordinária da minha Avó Esperança com a sua Irmã Maria da Luz. Uma ligação mais unida que gémeas. Não podiam passar uma sem a outra. Durante gerações e gerações este laço ficou… até um dia. Mesmo assim, depois do sucesso de 2011 em que se juntou a família, a Ana Vidal da Gama, uma das descendentes da minha Tia-avó Maria da Luz, organizou um mega-almoço com mais de 100 primos. Revi pessoas que não via dos tempos da ditadura. Afinal sempre valeu a pena tanta amizade. Invulgar por sinal, mas que ainda continua a dar os seus frutos.

A infância em Moura - António José Alçada - Capeia Arraiana

A infância em Moura

Tal como em garoto pouco consegui dormir. Não havia meio de chegar a Moura. Voltar a ver os meus primos-padrinhos, os meus primos, filhos, netos, primos de primos, amigos de primos enfim, memórias que nunca se apagaram desde tenra idade. Nas férias de verão ate chegava a fazer dieta, antes da chegada. Adorava ouvir das minhas primas: «O Toninho está mais magro!»

Era um mês de grande alegria em que passávamos tardes a conversar. Um deles era com o meu falecido Tio Fernando Sá e Sousa, um ilustre Engenheiro de estradas que era surdo e conversávamos através do «labear». Esta relação marcou-me tanto que me empurrou, mais tarde, para a Engenharia Civil.

Mas as férias em Moura eram sempre o máximo. Mal chegava, a Tia Maria Ana tinha para o seu menino (eu!), açordinha de coentros com o ovo escalfado. E a sobremesa o arroz doce, única iguaria que ainda hoje sinto o travo, feito com o leite das vacas do monte. Era mesmo tratado como um «príncipe» por ser o mais novo e por adorar aquele cheiro das casas caiadas e do calor das brasas do azinho. A pobre da minha Mãe não tinha qualquer possibilidade de contrariar. As vontadinhas eram todas a jeito do menino. A palavra «não» era desconhecida do léxico alentejano.

Por isso hoje ainda sinto uma ternura especial quando vou a Moura. Não foi só a mera amizade entre irmãs e primas. Era o ambiente familiar que compunha a pura amizade. E ainda havia outra componente: «O campo!» Adorava ir com o meu Padrinho Mário ver a planície cheia de trigo, no «carocha» que raramente ficava atascado. O Padrinho ensinou-me se queremos gerir e decidir temos de andar no terreno e falar com quem por lá anda.

Ainda me recordo numa fria tarde de dezembro, pouco antes do Natal, em que foi ver um feitor perdido num mar de campo cultivado. Nunca tinha visto uma casa sem luz elétrica. Só se via o estrelado da noite e o latido dos cães. Da conversa pouco me lembro, mas a casa com teto em olmo, e uma lareia enorme com um pote preto assente em quatro pés, para ter sempre água quente. Outro aspeto era a limpeza. O chão de tijoleira de barro, embora baço, brilhava do esforço do asseio. Com a minha samarra e as botas de couro com salto de prateleira quase me sentia um lavrador como os meus primos. E olhava a ouvir, sem perceber quase nada. Mas não deixava de imaginar que também fazia parte da conversa.

Hoje, 27 de outubro, voltei a saborear estes múltiplos momentos que passei. A infância sem dúvida que nos marca e estou a comprova-lo. Adoro este cheiro de Moura!

Foi um dia inesquecível, em rever velhas amizades, primos, calor, e conversa, muita conversa. Mas o engraçado de tudo isto é que se ainda existe esta cumplicidade, tudo se deve à amizade de duas irmãs, que souberam fazer dos filhos irmãos também.

Obrigado Esperança e Luz. Que os vossos nomes perdurem no resto dos tempos em iluminar na esperança de nos voltarmos a reencontrar!

Moura (Baixo Alentejo), 27 de outubro de 2018

Os primos, Soeiro de Almeida, Vidal da Gama, Garcia e Barros.

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to Moura! Uma viagem ao passado

  1. Eduardo Cavaco diz:

    Fantástico! Família Alentejo e boa gastronomia são ingredientes mais que suficientes para ser feliz.

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