Cores outonais

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

O ciclo das estações existentes na natureza tem o seu encanto e beleza. A maioria escolhe a Primavera. Sem deixar de a admirar, não posso esquecer o Outono, vestindo as árvores, antes da hibernação, com as suas múltiplas cores na folhagem.

Outono na Serra da Gardunha

A Serra da Gardunha apresenta-nos nesta quadra do ano um dos melhores cartazes de promoção da Região da Cova da Beira.
Se recorrermos à História de Portugal, verificamos o quão importante eram as encostas da Serra da Gardunha.
Em 1214 já o Rei D. Afonso II, de cognome “o Gordo”, dirigia uma carta ao Alcaide da Covilhã, a recomendar a protecção de casas e vinhas.
D. Dinis recomendou aos povoadores que substituíssem as vinhas por castanheiros, aconselhando o cultivo daquelas nas courelas.
Em 1883, o Jornalista do “Diário de Notícias”, José Eduardo Coelho, num dos seus textos – “Visita ao Fundão” – escrevia: “as encostas da Gardunha têm uma das mais belas florestas do país, bosques densíssimos de castanheiros e carvalhos”. Hoje, certamente escreveria sobre a existência de diversos pomares com primazia para as cerejeiras, com um microclima acima dos seiscentos metros de altitude.
Há anos, fazendo viagens diárias do Fundão para Castelo Branco e vice-versa, na companhia do Dr. Lopes Dias, este companheiro de viagem despertou e avivou os meus olhares para as cores do Outono. Dizia-me que nem o melhor pintor do mundo conseguia transmitir para a tela a miscigenação cromática da diversidade de cores. No regresso, e em dias de acalmia, fazíamos diversas paragens para observar as parreiras com folhas. Junto aos castanheiros era admirável observar o verde misturado com o amarelecido, os ouriços suspensos nos seus ramos. Era e é obrigatório observar o Outono, celebrar as suas cores neste ciclo de mutação.
Minutos atrás de minutos observando cerejeiras, ameixoeiras, pereiras, marmeleiros vestidos de amarelo, de castanhos, freixos a despirem-se para a seguir ao inverno se vestirem de novas folhagem e flores.
Também descobrimos a única planta que só existe aqui – asphodelus bento rainha – conhecida com a designação de “rainhão,” espécie privilegiada e protegida.
Nas aldeias, aquelas que têm árvores nos passeios públicos, nos jardins, como é belo ver a cor das tílias…aconselho uma visita a Aldeia de Joanes para observar as tonalidades espantosas das folhas dos liquidâmbares (o nome original é “styraciflua”).
O fotógrafo fundanense Diamantino Gonçalves tem uma enorme colecção destes quadros outonais. Também o pintor José Amaro, na Rua da Cale no Fundão, não só regista as cores do outono, como pinta belíssimos quadros com esta temática.
Ali perto, na montra do Turismo Fundão, os passeantes também são sensibilizados para as belezas outonais da região.
Outono é o tempo das cores mágicas…fantásticas. Convido os meus leitores a visitarem a Serra da Gardunha multicolorida, se possível ao som de Vivaldi.
No final do ciclo, tapetes de folhagens cobrem caminhos e terrenos, aguardando o desgaste do inverno, com árvores nuas.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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