Casteleiro – Filosofias populares

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Depois da justa homenagem à nossa Lucindinha, chegou a altura de me virar novamente para as vivências populares e outros temas. Mesmo que em repetição é apenas um sublinhado, como quem dissesse: «Olhem que isto é importante.»

Festa no largo do Casteleiro - Capeia Arraiana

Festa no largo do Casteleiro

Reponho na crónica de hoje algumas coisas muito interessantes, em meu entender, e que já divulguei nesta e noutras plataformas há mais de meia dúzia de anos – e de que já ninguém se lembra, portanto, claro…

Mas começo por uma curiosidade curiosa – passe a redundância propositada. Logo de seguida, a meteorologia. Não são só as cidades capitais de distrito que merecem esse destaque… Certo?

Curiosidade

Dei-me agora ao trabalhao de procurar no Dicionário Priberam o nome da minha aldeia. Gostei porque pensava eu que castaleiro era o pedreiro que construía os castelos, mas afinal é algo diferente, segundo este manual. Veja:
– O termo: casteleiro | s. m. | adj.;
– As sílabas: cas·te·lei·ro;
– Classificação: 1. substantivo masculino: Senhor de castelo; 2. adjectivo: relativo a castelo.

Meteorologia

Num site intitulado «Free Meteo», encontrei a seguinte previsão para esta semana: as tempeturas máximas vão andar entre os 8 e os 16º C; as mínimas entre os 3 e os 6. Vai estar sempre nublado e na segunda e na terça até vai chover…

Noite das Bruxas - Capeia Arraiana

As feridas graves eram tratadas com mézinhas

Mézinhas

Vamos agora recordar duas ou três mézinhas simples que eram muito usadas no Casteleiro.

Infecções graves por golpes profundos
Lavagem com borato (de sódio) – um pó branco como o bicarbonato, diz a minha fonte – e depois punha-se mel como se fosse uma pomada.

Dores de intestinos e dores menstruais
Chá de malvas e bredos mercuriais (parece erva cidreira e dá-se nas paredes. Tinha muitíssima fama há 50 anos)

Constipações e dores de garganta
Chá de sabugueiro misturado com leite. Era difícil de tomar. Tinha um sabor esquisito, diz a minha mãe.
Ou então: aguardente queimada, mel e chá de alecrim.

E, não, não: tirem daí o sentido: ao contrário do que eu queria escrever, há três ervas que não servem para nada de útil nesta campo: nem os cocilhos, nem urtigas, nem as azedas. Se não sabe do que se trata, pergunte aos mais velhos.

Mercado na rua principal do Casteleiro - Capeia Arraiana

Mercado na rua principal do Casteleiro

Vocábulos engraçados

Recordo agora alguns vocábulos típicos do Casteleiro:
Irvais (por ervagem, penso) – lameiro, pasto para os animais.
Lapatchêro (por lapacheiro,acho, seja lá o que for: não encontro no dicionário) – lamaçal, água entornada no chão.
Gatcho – cacho de uvas (trata-se apenas de uma corruptela na pronúncia: o abrandamento de consoantes, de c para g neste caso, é muito frequente na linguagem popular).
Pintcho – fechadura.
Cortelho – pocilga, local onde permanecem os animais (chamo a atenção para o seguinte: no Minho, pelo menos, chamam «corte» – leia-se côrte – às pocilgas. Ora, pela proximidade de Castela, a nossa palavra «cortelho» pode resultar de um diminutivo de corte – o que em castelhano se escreveria, hipoteticamente, «cortello»… Sei lá…).
Sampa – tampa de uma panela (esta é muito boa…).
Azado, azadinho – jeitoso (leia o primeiro «a» aberto, como se tivesse um acento: «ázado».
Cotear – usar muito.
Frintcha – abertura estreita.
Cote – uso. Mas há duas expressões antigas com piada: o fato dos domingos era o fato domingueiro, o da semana era o «da cote». Leia «dà cóte» e faça sorrir os seus mais velhos lá de casa.
Limbelha – metidiça, que quer saber tudo (ponho no feminino porque era mesmo usado só para as raparigas e para as mulheres).
Atchaque – maleita, doença
Assêqui (esta é muito bem apanhada) – dizem que, parece que, consta (de: «Eu sei que», acho).
Pantchana – enrascado.
Delido – desfeito (por exemplo, um peixe quase podre está mesmo «delido»).

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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