Passam os anos fica a saudade… (14)

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

O mês de Outubro era o mês das vindimas…

Vindima no Sabugal - Capeia Arraiana

Vindima no Sabugal

Embora o Sabugal não fosse grande produtor de vinho, sempre havia algumas vinhas que eram, normalmente, vindimadas durante o mês de Outubro.

O meu pai tinha duas vinhas à saída (na altura) do Sabugal para Quadrazais.

A vindima começava alguns dias antes, com a lavagem dos pipos, dornas, lagar e demais utensílios, guardando-se sempre algum resto de vinho para vinagre e para curtir os pimentos.

A casa onde vivíamos tinha uma adega e era ali que o meu pai fazia esses trabalhos, Dia da vindima, lá chegava o carro de bois que o meu pai alugava (mais tarde quando o Grémio adquiriu o primeiro trator, passou-se a alugar este), onde se carregavam as dornas, os cestos, a merenda, etc., e para onde eu saltava, pois era um dos momentos mais aguardados, poder andar no carro de bois ou no trator!

Começávamos, quase sempre, pela vinha de cima, que era maior, e todos, família, amigos e contratados, se deitavam ao trabalho de colher os «gachos», sem deixar nenhum, os quais iam para as cestas, destas para os cestos maiores e daqui para a dorna.

Quando as dornas estavam cheias, lá ia o carro levar as uvas ao lagar, onde eram de imediato esmagadas com a esmagadeira manual que o meu pai tinha.

A labuta não parava, pois os dias já eram curtos, e continuava-se a vindimar.

Passado pouco tempo, já me cansara da novidade de cortar uvas e lá ia provar as primeiras castanhas, as mais saborosas, ainda com sabor a leite adocicado, ou a brincar com pedras, galhos, formigas e outros animais pequenos que por ali andavam.

Hora de almoço e daquele cesto de vime saiam verdadeiras pérolas de comer, para mais com a fome que já tinha. Desde o frango assado, às pataniscas, ao coelho guisado, às sardinhas fritas, ao arroz de «tomatas», ele era tudo um pitéu que ali comia sem parar, como se fora a melhor refeição da vida.

Conversava-se, cantava-se, todos à volta do que mais sagrado havia, a comida e a bebida.

A vinha mais pequena ficava para a tarde, após o que voltávamos a casa, onde ainda faltava esmagar as últimas uvas, e começar a mexer o mosto que ameaçava começar já a ferver.

Este era um trabalho duro, o de mexer o mosto com o engaço ainda, mas que gostava de fazer.

A vindima terminara, mas era tempo de preparar tudo, pois quando baixasse a fervura o vinho, ainda quente, tinha de ser mudado para os pipos, onde ficaria ainda algum tempo até assentar.

Entretanto já o meu avô «roubara» algum mosto para fazer a sua célebre jeropiga!

O engaço ainda iria passar por uma máquina espantosa (para mim garoto) onde lhe era retirado o resto de líquido, o «pé», que era deitado igualmente nos pipos, pois o vinho era pouco e não se podia estragar…

Por fim era altura de juntar um pouco de aguardente, queimar uma «mecha» e fechar os pipos, esperando que o vinho ficasse bom…

Mas faltava ainda uma parte essencial, o fazer da aguardente!

Madrugada já o meu avô preparava tudo. A alquitarra tinha vindo no dia anterior para a palheira. Com a chegada do meu pai e do meu tio, colocava-se o primeiro engaço, fechava-se com a parte superior que se enchia de água e deitava-se fogo à lenha.

Quando começava a pingar era o meu avô que provava e, enquanto não desse ordens, o líquido que saia era para o chão.

Só com o seu assentimento se colocava o garrafão e era às suas ordens que se retirava.

No braseiro já se assavam as batatas para um bacalhau com batatas a murro que eu devorava só com o olhar.

E assim terminava a época das vindimas lá em casa…

ps. Domingo é a segunda volta das eleições presidenciais no Brasil. Tudo indica que o candidato da extrema-direita vai ganhar. Adivinho dias maus para o povo brasileiro. É altura de todo o democrata pensar se está a fazer tudo para que uma nova onda ditatorial não invada o resto do mundo.

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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