Certificados de beleza e afeto

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Há tempos e tempos. Há tempos de memoria, tempos de mudança e sítios que sobrelevam a passagem e a transmutação dos tempos.

Muitas aldeias são santuários dinâmicos ainda que minguados de gente

Há lugares remotos, habitados por octogenários, merecedores dos relatos de quem calcorreia zonas do Interior Beirão, atentos aos locais e personagens, subindo e descendo ruas e ruelas, escalando e desmontando montes, percorrendo vales, verificando as alterações que o tempo vai produzindo, esbarrando, nessa força de procura, com lugarejos que já fervelharam de gente mas desertificaram, com casas que já transbordaram de moradores e se fizeram velhas e vazias.

Constata-se, nessas repetidas buscas, que a corrente do tempo nunca ousou suprimir encantos mantendo cenários de beleza antiga, rude e contraditória, desorganizada, quase caótica que nos apaixona emanando saudades, nostalgias e sentimentos.

Vivenciam-se, por esses sítios pouco habitados, momentos de um tempo estranho, receoso de abandonos. Em todo o caso, esses momentos são povoados de ensejos, de vontades e de desejos de presença ou de visita. Enfim subsistem ainda anseios de algumas perspetivas e perseveranças.

As estadas nestes sítios nunca poderão ser lamentadas ou consideradas desperdício porque, para além da deslealdade, tal lamúria poderia indiciar uma penosa parceria com impedimentos futuros.

Bom seria que esses sítios pudessem ser, simultaneamente, de memória e de esperança.

Relembrá-los pode ser uma forma de nos juntarmos à gente nossa amiga e companheira que, tal como nós, dorme sonos inquietos e sonhados, em noites de recordações e acordados em manhãs de confiança. A memoria que admite a possibilidade de mudança atenua, resiste melhor ao esquecimento.

Não nos largam, portanto, as memórias nem rejeitaremos mutações neste célere passar do tempo.

Tudo é lembrado ao acordar dos nossos sonos e tudo acaba por ser definido em traços que tentamos decifrar desesperadamente porque tudo nos parece fazer falta para integrar eventuais mudanças salvaguardando memórias e favorecendo o futuro.

Aceitamos, então, genuinamente, a força e o carisma das imagens destes sítios, verdadeiros catálogos que nos atraem olhares e afiançam a existência de autênticos altares de recordações que, tendo resistido décadas, ganharam direito à preservação e à entrega a tempos vindouro.

Na verdade, esses sítios, ainda que minguados de gente, constituem santuários dinâmicos, ponteados de inúmeras pequenas relíquias que, projetadas em contextos de memória, logram o direito à perpetuação.

E, sim, estas sucessivas e sentidas narrativas não são mais que modestos certificados de beleza e afeto. Apenas desejaríamos que eles atestassem o acervo das realidades que espargimos.

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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

2 Responses to Certificados de beleza e afeto

  1. António Emídio diz:

    Amigo Capelo:
    As nossas aldeias são recordações vivas e fortes, são beleza, são oásis de paz e sossego num Mundo deveras agitado. Alguém um dia as habitará, quem ? Não sei, mas sei que voltarão a ter vida.

    António Emídio

    • fernando capelo diz:

      Caro Nabais
      Eu diria que já se reconstroem hoje mais casas nas nossas aldeias que há alguns anos atrás. Pode ser ilusão minha mas julgo que há muita gente que adora a sua terra. Não regressa porque a vida não permite. Mas se houvesse ou se houver uma razão forte voltará. Portanto, enquanto há vida há esperança . Deixem-me sonhar… porque o sonho, como diz o poeta, comanda a vida mas também a alimenta.
      Aquele abraço.

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