Casteleiro – Mudámos de concelho há 163 anos

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Hoje, reponho uma nota histórica que não me canso de repetir. A minha aldeia, Casteleiro, até 1855 (Reforma Administrativa de Mouzinho da Silveira), pertencia ao concelho de Sortelha, distrito de Castelo Branco.

Casteleiro no Mapa da Cova da Beira - Capeia Arraiana

Casteleiro no Mapa da Cova da Beira

Vamos então aos factos. Foram mais de seis séculos em que tudo se fazia para aqueles lados. E os hábitos ficaram: comboio, farmácias, compras… era tudo para as bandas de Caria e Belmonte.
Só Finanças e Notariado é que era para o Sabugal. Hábitos criados em centenas de anos, claro!
Ah! E as feiras e mercados, vá lá…

De repente, em 1855, Sortelha deixou de ser concelho, o Casteleiro foi integrado no concelho do Sabugal e pronto: de uma penada, passou-se, pelo menos nos papéis oficiais, da Beira Baixa para a Beira Alta, da Cova da Beira para a Raia.

Rua principal do Casteleiro - Capeia Arraiana

Rua principal do Casteleiro

A vivência do Povo

Mas o Povo e a sua vivência, tanto quanto isso foi possível, continuaram a pender para baixo, para Caria, para Belmonte, para a Covilhã.
Muito mais do que para o Sabugal ou para a Guarda.
O Concelho de Sortelha existia desde 1288.
E há muitas semelhanças destas duas terras, Sortelha e Casteleiro, com as de baixo (Belmonte e Caria, sobretudo).
E a verdade é que em muitas situações, são mais as parecenças da nossa terra com o Sul do que com o Norte.
Leia e diga se concorda, por favor…

O clima

O clima é muito mais ameno no Casteleiro do que no Sabugal.
As frutas que temos são as da Cova da Beira e não as das terras frias.
As cegonhas são uma boa prova: elas nunca dispensaram na minha meninice de passarem a Pimavera na nossa aldeia…

A orografia

É sabido que os montes e vales, a orografia, determinam muito numa região, a começar pelas culturas. Pois bem: a orografia do Casteleiro tem tudo a ver com a Cova da Beira, com o Sul, e nada com a zona a Norte, com o resto do concelho do Sabugal. Os montes à nossa volta desenham quase uma concha, que começa na descida do Terreiro das Bruxas, passa no Casteleiro e se espraia até Caria e por aí abaixo. A Natureza assim o desenhou, mas o poder mudou essa lógica há 150 anos.

Saúde

Não deixando de referir o Dr. Manso, do Sabugal, a verdade é que havia um médico muito recorrido em Caria: o Dr. Salgueiro. E outro em Belmonte, o Dr. Vieira. Era para aí que escorria a maioria do pessoal quando havia problemas com a miudagem ou com os adultos. Ainda hoje, quem precisa de Hospital vai ou faz tudo para ir para a Covilhã.

Farmácia

Muita gente só ia a Caria. Outras pessoas, tanto iam a Caria como ao Sabugal e, sem dúvida, na minha juventude ouvia falar mais da Farmácia «da Ilda» (Sabugal) do que de qualquer outra. Mas podia ser talvez mais na minha família. Não sei explicar.

Procissão no Casteleiro - Capeia Arraiana

Procissão no Casteleiro

As romarias

Até as romarias a que se ia ficavam quase todas a Sul: a Senhora da Póvoa (no Vale de Lobo da época), a Senhora da Quebrada e o São Bartolomeu (ambas nos Três Povos), a Senhora do Carmo (a seguir a Caria). Havia ainda o Santo Antão, em Sortelha (na imagem), antiga sede do Concelho a que pertencera o Casteleiro e lá se ia.
Só a Santa Eufémia (em Quadrazais) e a Senhora do Bom Parto é que eram para Norte: uma para lá do Sabugal e a outra logo ali, no Terreiro das Bruxas…

Autocarro da Carreira que passava no Casteleiro - Capeia Arraiana

Autocarro da Carreira que passava no Casteleiro

Os transportes

Primeiro, o comboio. Essa é a grande via de ligação às grandes cidades: Covilhã, Castelo Branco, Lisboa. Ninguém vai apanhar o comboio ao Barracão, a estação do Sabugal. Depois, a «carreira». Este era o único transporte público que passava na minha terra. E, claro, havia o táxi (o meu pai foi dono da praça por mais de 20 anos). Mas a carreira, essa, condicionava uma série de coisas. E facilitava a ida ao Sabugal e não a Belmonte: a viagem era concebida de modo a que as pessoas fossem de manhã e viessem à tarde – era um dia consumido nessa simples deslocação de 15 quilómetros.

A economia e a vida escolar

A economia da Freguesia e a nossa vida escolar marcam aqui um contraponto: enquanto o Grémio estava no Sabugal, os abastecimentos e escoamentos escorriam para Sul; por sua vez, o facto de termos de ir estudar para o Sabugal determinou o futuro de muita gente. Mas a maioria da malta, entre ir para a Guarda e depois Coimbra ou para Lisboa, foi para Lisboa estudar. Mas nada disto é estanque nem pacífico: é muito grande o peso da Administração durante 150 anos. O abastecimento (batata, adubos, farinhas, sei lá) era tudo recebido por comboio. E depois, o grosso dos produtos era também escoado para Sul: ou de camião ou de comboio – mas os grandes escoamentos iam sempre para os lados de Lisboa, via Castelo Branco, também.

O emprego

Aparte os emprego de tipo administrativo – e, para malta do Casteleiro, isso significaria uma curta meia dúzia de pessoas – pouco emprego era encontrado no Sabugal, Guarda ou raia. Pelo contrário, era para Sul, sobretudo para a Covilhã, Castelo Branco ou, mais ainda, Lisboa, que corriam as hipóteses de ter um emprego mais bem remunerado do que no Casteleiro. Até o emprego agrícola estava a Sul e não a Norte: logo ali, em Santo Amaro ou, mais longe, no Ribatejo e no Alentejo.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

3 Responses to Casteleiro – Mudámos de concelho há 163 anos

  1. antonio barreiros diz:

    tenho 80 anos… é sempre com prazer que recordo com VOCES os tempos antigos.
    cotinuen por favor

  2. Manuel Luís Nunes diz:

    Quando se fala tanto de regionalização e outros assuntos de somenos importância por que não pensar e reflectir sobre uma nova reorganização administrativa mais coadunada com as”realidades” naturais.
    Deixo um alerta, contudo, com esta opinião e, disso não passa, “fragmentar o concelho”.

  3. José Carlos Mendes diz:

    Os meus agradecimentos aos leitores Barreiros e Nunes.

    Hoje é tão raro ver alguém interessados nestas temáticas que registo sempre com apreço quando alguém vem a terreiro…

    Um abraço, meus caros – e apareçam sempre, por favor

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