As alucinações do general Ramires

Na altura da Segunda Guerra Mundial o governo de Portugal temeu que houvesse uma invasão dos Açores, atendendo à localização estratégica do arquipélago, no Atlântico, a meio caminho entre a Europa e a América do Norte. Face a isso, reforçou o dispositivo militar que estava a cargo do general Ramires, então comandante em chefe das forças que guarneciam as ilhas.

Açores

O general vivia obcecado com a hipótese de um eventual desembarque aliado nos Açores, pelo que mandou colocar os poucos canhões que dispunha em locais estratégicos e reforçou os pontos de vigilância da costa. As sentinelas eram permanentemente alertadas para os sinais de uma eventual chegada de meios de desembarque hostis e o general mandava os oficiais e sargentos fazerem constantes rondas, sobretudo durante a noite, para fiscalizarem a atenção das vigias.
O sobressalto do comandante passou facilmente para os seus subordinados e cada noite era de um extremo nervosismo, pensando todos que a invasão estava por um fio.
Numa dessas noites de desassossego, uma sentinela ouviu um ruído de passos e, no negrume, pareceu-lhe distinguir um vulto que se aproximava. Seguindo as regras da praxe bradou «alto», seguido de um expressivo «quem vem lá?». Não recebendo resposta e notando que o vulto continuava a avançar, abriu fogo. O ecoar dos tiros e os alertas do soldado puseram em agitação toda a guarnição, que pegou em armas e desatou numa fuzilaria infernal.
O general Ramires e o seu estado-maior deslocaram-se para o abrigo previsto no plano de contingência, para dali fazerem face à invasão, que começara naquele instante. O general distribuir ordens por toda a parte para que se mantivessem as posições disparando sobre os invasores, sem recuar e sem rendição perante o eventual avanço do inimigo.
Passados as primeiras horas de alvoroço, a noite decorreu sem mais sinais de invasão e só ao nascer do sol se descobriu o que acontecera no local do incidente: o invasor era afinal uma pobre vaca que jazia no solo atingida pelos disparos com que o soldado a fulminara.
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Por Paulo Leitão Batista

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