Novela na Raia – Episódio 18

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 18).

Novela na Raia - Episódio 18 - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Episódio 18 – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

SEGUNDA PARTE – DEIXAR A ESCOLA

Em treze de Março era o Aniversário da Irmandade das Almas. Não sei em que ano, no dia treze de Março, foi criada a Irmandade das Almas. Foi, certamente, nos meados do século XVIII, por sugestão dos frades Agonizantes da Sacaparte.

Dias antes já o Miguel ouvira tocar muitas vezes o sino a chamar os associados da Irmandade das Almas a pagar as suas quotas.

Nesse dia o juíz e o secretário da Irmandade tinham lugar especial reservado na igreja. O Miguel assistiu à missê por alma de todos os associados já falecidos e, portanto, também pela de seu pai. Oito padres da região rezaram os Ofícios pelas mesmas almas. Quem não tivera dinheiro para os mandar rezar aos seus familiares, como fora o caso da Mari Ruvinê, tivera agora a sua parte neles. No fim da cerimónia religiosa, os padres tinham direito a almoço pago pelo juíz. A este saía caro o lugar que lhe havia sido reservado na igreja!

Chegara a Coresma e ouviu algumas vezes tocar os sinos ao rezarem a Encomendação das Almas na torre do sino, onde acendiam fogueiras para se aquecerem. Ainda não percebia muito bem aquilo. Na dotrinê não lhe falaram dessas coisas.

No dia de Páscoa pegou no andor dum santo na p’cissão à volta do povo, sem lhe ter sentido o peso. Começavam a considerá-lo já um rapaz.

Nesse dia, à tarde, acompanhou a primeira p’cissão ao Esprito Santo. A rebeira ainda ia alta e teve medo ao salvar as poldres. Ainda molhou os pés.

À Praça lá estava o Tonho Zé Rato com o seu tabuleiro das amêndoas. Teve ganas de oferecer um pacote delas à Palmira. Um pacote seria muito. Resolveu comprar meia dúzia delas e enviou-lhas pela Lucinda. A Palmira deu uma à Lucinda e mandou-lhe agradecer ao irmão. Ela ia tomando nota que ele não se esquecia dela nas ocasiões mais próprias dos namorados.

Vira chegar as andorinhas, que esvoaçavam rasteiras junto da sua porta e haviam feito ninho no beiral da casa ao lado. Era um corropio a apanhar com o bico lodo para fabricar os ninhos e insectos que voavam à noite, com a concorrência de morcegos Os pardais e outras avezinhas faziam seus ninhos nas árvores. Também as çarangonhas poisavam nos charcos, lameiros e lavradas à procura de minhocas. Nas lavradas concorriam com as lavandeiras. Levavam no bico galhinhos para refazerem o ancestral ninho na torre do sino. As rolas de colar branco arrulhavam nas árvores. Teve desejo de procurar um ninho de rola, tanto gostava delas. Nunca teve a sorte de encontrar um. Já se ouviam cantar os cucos, a anunciar as ceifas.

O Miguel, ao ouvi-los, gritou:

Cucu d’além do rebeiro,
Cantos anos me dás de solteiro?

E contava as vezes que o cuco cantava. Eram esses os anos que teria ainda de ficar solteiro. A Palmira teria de esperar todos esses anos.
Algumas mulheres casadas imitavam-no, gritando:

Cucu d’além da levada,
Cantos anos me dás de casada?

E contavam também o canto do cuco, desejosas de se manterem casadas por muitos anos.

Dos passarinhos, o que mais apreciava era o pintassilgo, de colar vermelho, igual ao que o Silvestre tinha numa gaiola dependurada no comércio do ti Barreiro. Cada vez que lá ia mirava-o com prazer e desejava ter um. Mas nunca encontrou um ninho deles.

Os gados começaram a dormir no campo rodeados de cancelas, com a choça do dono vigilante junto deles e o cão de guarda com sua coleira de ferros afiados ao pescoço, não fosse o lobo atacá-los.
Era preciso pagar a erva que comeram com estercadas no campo dos donos da erva.

Os lameiros tinham sido abandonados pelos gados para a erva poder crescer e dar feno. Mas havia erva com fartura nos campos e ainda muitos arbustos floridos apreciados pelas cabras.

Era o tempo de fazer bons queijos nas francelas, apertados pelos acinchos, dada a quantidade de leite.

Nos campos cortavam-se as silvas e outro mato, lavravam-se e agradeavam-se para as sementeiras das batatas, feijões e milho. As geadas tinham acabado.

Em breve começariam as regas com burros ou vacas de olhos tapados a tirar a áugua dos poços ou com a força braçal do homem agarrado aos cambos, quando os chões não ficavam no caminho de ribeiros, em que a áugua era repartida por dias ou noites, sendo muitas vezes motivo de barulhos. As mulheres, descalças, encaminhavam a áugua pelos tornadoiros até às batateiras. E recomeçaria o ciclo: tirar os bichos das batatas para um caldeiro e depois deitar-lhes fogo, ou abachucar as ramas com água, a que se misturara Gamixane, por meio de uma vassoira, ou, mais modernamente, deitar o Gamixane com um pulverizador. O diabo dos bichos depressa passavam de piulha a bichos vermelhos e destes a bichos com capote amarelo às riscas. Nessa fase era muito difícil acabar com eles, pois voavam dum lado para outro e até se metiam debaixo da terra, concorrendo com as escava-terreiras.

Junto dos rebeiros eram muitos os cavalinhos de Sant’Antonho, as rãs e um ou outro sapo. Tinha de ter cuidado com estes, não lhe mijassem em cima e criasse sapos. Tinha de os atalhar com palha de alhos ardida, a que se juntava pólvora. Mas era preciso muito cuidado, não fosse acontecer-lhe o mesmo que à t’Intioneta quando os atalhava ao filho Tó. Explodiu a pólvora e ela ficou toda a arder. Tiveram de lhe acudir e untá-la com azeite.

As lagartixas cruzavam os caminhos. De vez em quando, com uma pedrada, cortava o rabo duma, rabo que continuava a mexer, como se ainda tivesse vida. Dizia-lhe então:
– Dá penas ó diabo, no as dês a Nosso Senhor!

Já assomava um ou outro lagarto à roda dos caminhos e uma ou outra bordugueira nos matos, aguardando galfanhotos e as maçadoras moscas, que perseguiam o Miguel por todo o lado, atraídas pelo suor. Felizmente estas eram menos mordazes que as que picavam burros, cavalos ou vacas, que os punham desvairados, a correr por todo o lado.

Do que tinha medo o Miguel era dos bicho-machos. Vira um na regueira dum lameiro, quando se baixara para beber água. Jurou não mais beber água nas regueiras. Medo tinha ele também que algum colega lhe metesse dentro da camisa alguma cantarinha. Escozia muito.

Nos carreiros já se encontravam escaravelhos rolando suas bolas de excrementos, bichocleros amarelados e, no ar, zuniam as garrochas. Tinha de apanhar uma para lhe tirar os cornos e com eles se proteger das bruxas. Lembrou-se, a propósito, do que dizia às moçoilas, quando se zangava com elas:

Esta noite sonhei eu
C’os cornos da vaca-loira.
Os homens comem à mesa,
As mulheres à majadoira.

Das salamandras negras que se encontravam debaixo das pedras tinha um certo receio. Mas dos alacrários, eles também debaixo de pedras, é que tinha muito medo. Uma picadela dele e tinha de ir ao médico e gemer um dia inteiro.

Galfanhotos satitavam e esvoaçavam pelos pães. Felizmente já não eram os magotes de que falavam os antigos, que viram cearas ser devastadas por tais bichos, contra os quais pediam a intercessão do Divino Esprito Santo.

As abelhas já zumbiam de flor em flor e já podia ir ao mel. Mas, cuidado com as ferroadas. Aí tinha de espremer o local da pica com a navalhinha e tirar o ferrão. Enquanto não fizesse isso, era inchaço por todo o lado.

As papalosas de diversas cores esvoaçavam às dúzias de gesta p’a gesta. Tentou apanhar uma de um azul muito bonito, mas escapou-se-lhe.

Era tempo de ir ós grilos nas relvinhas. Pelo cri! cri! era fácil saber onde estavam, apesar de se calarem, mal pressentiam alguém. Com uma palhinha metida no buraco, era só picar e o grilo vinha cá p’a fora. Conseguia distinguir os grilos das grilas pelas antenas. Metia-os numa caixinha de palitos com um furo para respirarem e com folhas de trevo para comerem. Nem sempre conseguia que cantassem na caixa.

E junto dos rebeiros cresciam as vardiscas de salgueiro prontas a serem pintadas com moras trigais.

Notas:
– Abachucar – salpicar com água.
– Alacrário – lacrau.
– Cambos – picota.
– Çarangonhas – cegonhas.
– Cavalinho de Sant’Antonho – louva a Deus.
– Escava-terreira – toupeira.
– Escozer – arder.
– Gamixane – marca de químico para matar os bichos das batatas.
– Garrocha – vaca-loira.
– Majadoira – mangedoira.
– Mora – amora.
– Papalosa – borboleta.
– Salvar – saltar por cima.
– Sapos – borbulhagem.
– Tornadoiro – desvio da água do rego principal.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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