A chuva cai

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

A chuva cai, A chuva molha, A chuva é desagradável e fria, principalmente se não podermos proteger-nos dela. A chuva é parte da vida das terras e por isso todos a desejam. Os rios alimentam-se dela, nós também.

Homem com guarda chuva

Naquele dia de Dezembro, a chuva caía cada vez com mais força puxada pelo vento batendo na cara do homem que se dirigia para casa, depois de ter guardado os animais no seu estábulo que, ao contrário de outros, ficava na entrada da povoação.
O guarda chuva de casa tinha sido levado pela companheira que se tinha deslocado a pé a uma das aldeias próximas para comprar petróleo para permitir que à noite existisse mais alguma luz que a dos cavacos a arder na lareira.
Por mais que instintivamente baixasse o olhar e rodasse a cabeça em torno do nó do pescoço, colocando o chapéu de feltro que sempre usava, como escudo para tentar proteger a cara não havia forma de ter sucesso.
A agressão das gotas de chuva puxadas pelo vento vindo de norte, precisamente para o lado onde ficava a sua casa, cada vez era maior pois a força do vento fazia o ângulo das gotas com o chão cada vez menor e por isso a chuva batia em tudo lateralmente.
O caminho, junto da aldeia e dentro dela tinha sido empedrado e por isso, as botas de cabedal grosseiro e com rasto de pneu, que regularmente ensebava para as proteger, procuravam mesmo assim as pedras que mais sobressaiam do chão para que não desempenhassem o papel de botes na corrente que começava a fazer subir as partes mais baixas do caminho, por norma o local dos rodados dos carros de vacas.
A incessante e regular trajectória que as gotas de chuva iam descrevendo no ar, assemelhavam-se a um bombardeamento continuo cada vez mais denso e que respingavam quando batiam nas pedras do chão, despedaçando-se em estilhaços de água que, como numa explosão faziam ricochete e saltavam para cima.
Quando o vento afrouxava, entre duas rabanadas, ouvia-se não muito longe o troar do Ribeiro da Fonte e do Ribeiro da Cancela que mesmo individualmente tinham já um volume de água que ao saltar sobre as rochas provocava aquele melodioso e ensurdecedor barulho, acompanhado e interrompido pelo vento nos ramos das carrasqueiras que eram das poucas árvores que naquela altura tinham folhas.
Agora que o vento parou, e a chuva fez uma pausa, o barulho das águas daqueles ribeiros tornou-se mais intenso o que fazia supor que as águas da parte superior da montanha já ali tinham chegado e com elas eram arrastados os ramos e alguns troncos secos que no seu caminho foram aparecendo.
Ao longe, para os lados do Noémi, vê-se já o lameiro da lage transformado num lago com água em movimento depois do ribeiro ter transbordado para fora do seu curto leito.
Antes de entrar em casa e quando se encontrava entre o postigo e a porta entreaberta, e sem tirar o chapéu, inclinou-a para trás, olhou o céu e comentou para si próprio: Se isto continuar assim, amanhã o Noemi salta para as veigas.
Agora, com o postigo no trinco, entrou em casa, encostou a porta tirou o capote e o chapéu que pendurou na entrada e ato continuo dirigiu-se à lareira que na chaminé ainda não estava apagada, puxou duma giesta, colocou alguma lenha miúda e soprou nas poucas brasas para a acender.
As calças iam deitando “fumo” a medida que o ambiente ficava mais morno provocado pelas labaredas que a giesta e chamiços iam produzindo. Colocados dois ou três cavacos de carvalho ou mesmo carrasco para que o lume pudesse prolongar-se por mais tempo.
O dia estava a terminar, a sua companheira acabava de chegar, protegida pelo guarda chuva que acabava de arrumar num balde na entrada da casa ao mesmo tempo que pendurava o xaile num cabide atrás da porta.
Já à lareira, era altura de aquecer o “caldo” que serviria de alicerce a qualquer coisa que se comesse a seguir acompanhada dumas batatas cozidas. A ceia estava na mesa.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

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