Peregrinar…

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Saio do Fundão integrado num Grupo de Aldeia de Joanes, para a 46ª Peregrinação da Família Franciscana a Fátima, sob o lema, «FRANCISCO – Arauto do Grande Rei».

É-nos entregue pelo responsável um guia informativo do Programa-Horário, dos Avisos, das Orações no início, na chegada e na partida, acompanhadas com Cânticos Franciscanos.
A primeira paragem da Peregrinação é no Sítio – Nazaré. Ali avistam-se paisagens de beleza ímpar, de Monumentos com História, de Museus, na data, fechados em homenagem à fundação da república, não muito longe um território de surfistas portugueses e estrangeiros, mundialmente conhecido.
Peregrino pelo W.C. público e uma senhora de bata e com o dedo em riste aponta-me o dedo do preço de uma mijadela. Até as necessidades fisiológicas de um simples cidadão são taxadas sem recibo.
Peregrino pela Rua Marginal da Praia da Nazaré e lembrei-me das referências do Prof. Miguel Sousa, sobre o Carlos de Freitas, “O Carlão”. Nascido em Angola, oriundo de uma família de agricultores afortunados de café. Sabia diversas línguas e tinha sido militar com o posto de major e piloto dos helicópteros M8. Por vicissitudes da vida abandonou a carreira militar e estabeleceu-se na Nazaré, como um extraordinário artesão de cabedais. Transportava um saco vazio, enquanto muitos transporta-nos cheios de preocupações, de ambições e corrupções.
Ainda há gentes na Nazaré que recordam o Carlão, pessoa simples e artesão de diversos objetos de cabedal.
Peregrino pelo Museu a Céu Aberto da Seca de Peixe, por quadros fotográficos identificando barcos, lanchas, e barcas salva-vidas. Em frente uma tenda “Pula-Pula”, onde um brasileiro coadjuvado por um português, pinta azulejos com os dedos. Ele pinta, anima os diversos mirones, conta umas anedotas, e não para de pintar e vender. Nem os da banha da cobra nas feiras lhe ganham.
Segue-se a viagem de peregrino até Fátima, território onde “chegam de todos os lugares gentes que se reconhecem como num lugar de Epifânia. Chegam de todas as paragens, porque ali colhem a experiência do encontro. Vestidos de todas as cores, aqui erguem a chama da Fé e ali levantam a brancura que lhes preenche as mãos. Falam todas as línguas, – irmanam-se num renovado Pentecostes.”
Peregrino pelo recinto do Santuário, pela Capelinha das Aparições, ouço uma homilia sem o mínimo de interesse, sem mensagem, sem sal. O tema do Evangelho é complexo, como são todos. Não é fácil falar de amor conjugal, quando não se vive a missão de marido e de pai.
Quem encomendou o sermão ao pregador, não escolheu a pessoa mais indicada para falar desta matéria. O pregador…aos costumes disse nada, zero.
Peregrino pela Casa do Escuteiro, espaço de formação, de reuniões, de apoio logístico escutista a nível nacional. Percorri-o com a amabilidade e a simpatia da Chefe Célia de Mangualde.
Peregrino pelo Seminário do Verbo Divino e encontro o José Amaro, o missionário, jornalista, beirão, sempre com as suas crónicas de uma Igreja viva e ressuscitada.
Peregrino pela Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima e paro uns instantes nos túmulos dos Pastorinhos.
Peregrino por meio de ciprestes, talvez com os anos das Aparições e descanso em bancos de pedra, enquanto trabalhadores limpam o recinto da Peregrinação.
Peregrino pelo Monumento Comemorativo do Centenário das Aparições de Fátima, evocando a visita do Papa Francisco, um coração ardente e em cada ventrículo um ser humano.
Peregrino pela Capela da Ressurreição, pela Via Lucis e pela Exposição “As Cores do Sol – A Luz de Fátima no Mundo Contemporâneo.”
Neste peregrinar interrogo-me: quais as motivações de Nossa Senhora aparecer na localidade de Fátima (filha de Maomé), de origem árabe, quando tinha ali á sua volta tantos locais de origem cristã? Já estaria a pensar nos diálogos inter-religiosos? No respeito pelas diferenças? Em que estaria a pensar a Divina Senhora, vestida de branco?
Assim é bom peregrinar…caminhar pelos caminhos. A vida é um constante caminhar para o Encontro com Deus, que nos chama continuamente à Sua Presença.
Quando peregrinamos deslocamo-nos fisicamente, mas também realizamos uma viagem espiritual, uma viagem de alma. O mais importante não é chegar ao destino, mas atingi-lo vivendo intensamente esse caminho física e espiritualmente.
No final da Peregrinação da Família Franciscana, o organizador Higino da Serra Cruz, realçou o sentido religioso, fraterno, amigo, de partilha por parte de todos os peregrinos.
Assim, vale a pena peregrinar… caminhar.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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