Novela na Raia – Episódio 17

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 17).

Novela na Raia - Episódio 17 - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Episódio 17 – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

SEGUNDA PARTE – DEIXAR A ESCOLA

A Janjo revelava ser esperta. Já sabia contar até dez, tendo aprendido com os meninos no jogo de “uma na mula”, quando saltavam sobre um deles, dizendo:
Uma: na mula; dois: trelós; três: pita landês; quatro: mais alto; cinco: catafinco; seis: vai o burro a boer áugua à fonte; sete: malagassete; oito: vai ó Soito; nove: canhões de ferro; dez: alerta.

A mãe iria ensinar-lhe esses números através doutra lenga-lenga:

Um-pirum; dois-bois; três-Inês; quatro-sapato; cinco-brinco; seis-reis; sete-magarefe; oito-biscoito; nove-tabefe; dez-(dava-se-lhe um estalo): toma lá, que burra já o és.

E assim ia desenvolvendo o cérebro. Era o que podia fazer por ela. Porque não sabia ler, também não poderia ensinar a Janjo. Por isso, ela iria à escola, pois revelava ser esperta p’ós livros.
Já bastava a Lucinda não ter ido à escola para poder ajudar a mãe em casa e ir a Valverde. Agora, com dois a ir a Valverde e com o Miguel a ganhar mais com maiores carregos, já conseguia equilibrar as contas da casa.

A natureza despira os carvalhos e castanheiros das suas folhas. Sem trabalho no campo, era o tempo de se limparem as malhadas e juntar a folhada para estrumar os campos. Com o Inverno em cima, quem tinha malhadas cortava alguns carvalhos e arrancava as cepas com grandes enxadões para se aquecer na lareira. O Miguel, de regresso de Espanha, encontrara carros de vacas com estadulhos, carregados de cepas para casa, ou com cetos, carregados de folhada para os campos. Era parecido ao trabalho da formiga: juntar comida no Verão para comer no Inverno.

A mãe já tinha mandado moer a última fanega de centeio colhido no Verão. Agora teriam de comer o trigo espanhol que o Miguel ou a Lucinda iam trazendo ou comprar um pão centeio à Padeça. Trigo era comida de ricos mas, neste caso, servia bem aos pobres.

Passara novo Natal. Janeiro voltara e, com ele, as matanças, que davam comida para alguns meses, se bem regrada. De vez em quando caía um nevão. Os pardais aproveitavam alguma palha sem neve à entrada dos cabanais para se aquecerem ao sol. Eram tantos que até apetecia apanhá-los todos e fazer uma arrozada. Um ou outro mais descuidado caía, por vezes, sob as unhas de algum gato manhoso na caça.

O ciclo da natureza continuava como em anos anteriores. Os pães já estavam novamente amarfolhados. Os nevões haviam-nos feito crescer. Até já alguns tinham sido renteados pelos gados para não se adiantarem demais. Ia ser um bom ano de pão. Lá dizia o ditado: Ano de nevão, ano de pão.

O Miguel havia acabado de prender o burro. Nesse dia não era preciso levá-lo a dar-lhe de beber no pio, à Fonte, não fossem espantar-lho outra vez…

Não. Já tinha bebido no rebeiro a Vila Ferreira. Com o papo cheio, deitou-lhe apenas alguma palha centeia que este costumava espalhar na cama. Para evitar esse desperdício, o Miguel começara a serrá-la no foção espetado na parede. Também, pouco se lhe dava que ele a deitasse na cama. Mais estrume fazia, que bem preciso era para estrumar a horta que lhes daria algumas batatas.

Lembrou-se então das muitas vezes que a mãe o mandara mais a irmã por esses caminhos fora a apanhar os cagalhões dos burros até encher as cestas para deitar no cebolo. Bem lhe custava mexer naqueles cagalhões e bostas, mas… o cebolo também era preciso. E havia concorrência neste trabalho da apanha.

Quantas vezes o jantar não tinha sido umas batatas rachadas com uma cebolita cozida ou um caldo escoado, em que também entrava uma!…

Teve, pois, ganas de obrigar o burro a fazer mais estrume. Deixá-lo, pois, deitar a palha na cama. A erva da regada chegava-lhe.

Não seria propriamente comer à rica. Mas nesse dia havia com que enganar o estômago.

A irmã Lucinda já tinha chegado com o cântaro da Fonte. Franzina, de molida à cabeça, assentara sobre ela o cântaro de barro. Mal podia manter o pescoço direito. Os rapazes sentados nos poiais já se metiam com ela. Não fossem aqueles andrajos e, certamente, seria já desejada. Mas, ropas novas apresentáveis era algo a que não podia chegar. Talvez pela Páscoa estreasse algum vestido de chita barata, nem que tivesse de ir mais umas vezes a Valverde. Mesmo assim, ela não perdia esse prazer de ir à Fonte com as amigas mostrar que já era uma mulherzinha. De vez em quando ia mesmo fazer o jeito a alguma vizinha. Sempre recebia algum bocado de pão.

Para o Miguel a vida continuava. Valverde esperava-o uma vez mais. Ele e Palmira cada vez mais se viam a caminho de Valverde e a afeição entre eles crescia a olhos vistos.

Dois dias depois estava ele a caminho da raia. As compras seriam as habituais. Havia, porém, pensado no que poderia ainda trazer para ganhar mais uns tostões. E fez-se luz na sua mente.
Por que não levar para lá uns três quilos de café do Nabeiro de Campo Maior, que se vendia no comércio do ti Barreiro?

Meu dito, meu feito. Comprou na véspera três pacotes de café de quilo, que os espanhóis tanto apreciavam, meteu-os na saca que transformara em carrego, pronto p’ó dia seguinte.

Para cá haveria de trazer novidades. Falara com alguns fumadores e encomendaram-lhe uns mecheiros e algumas pedras e torcidas para os acender. E também uns baralhos de cartas para os taberneiros, pois os fregueses gostavam de se sentar a jogar para ver quem pagava a rodada, e p’ó Tonho Zé Rato, pois os rapazes gostavam de, na Páscoa, jogar ao sete e meio em cima do seu tabuleiro das amêndoas, para as oferecerem às namoradas, se ganhassem. Eram levezinhos e sempre deixariam uns tostões. Era preciso ter imaginação.

Não tardaria a arriscar trazer uma corcha ó um corte de seda.

No dia seguinte, ei-lo novamente a caminho do habitual destino, de manhãzinha, com um frio de rachar, hora a que só o Sr. Zezinho também se levantava para ir caçar alguma lebre deitada na geada no seu terreno do Burcheiro.

Mal chegou à ti Tomásia, propôs-lhe a compra do café. Ela aceitou de imediato e pediu-lhe que trouxesse mais na próxima. Com a venda do café conseguiu o dinheiro que precisava para as suas compras. A ti Tomásia, como prémio, ofereceu-lhe um caramelo para «dulcificar la boca de su nôvia», palavras pronunciadas com certo sorriso malicioso. Mas o Miguel tomou essas palavras à letra e prometeu que o daria à Palmira. Até se deu ao luxo de ir à taberna ao lado comer um churro acompanhado de uma copa de aguardente. Já tinha saudades destes petiscos.

Apesar de os três quilos de café lhe terem pesado nas costas, prometeu a si mesmo que na próxima levaria quatro pacotes de café. Estava a transformar-se num verdadeiro contrabandista. Já ia nos treze anos e meio! Não pensava ele já em namorar?

Até ao Natal conseguiu chegar aos cinco pacotes. Pouco a pouco fora adestrando os músculos a suportar o peso. Ai! Jasus se lhe saltavam carabineiros ou fachos. Como haveria de correr com aquele peso? Só tinha uma safa: esconder o carrego num gestal e voltar lá a buscá-lo mais tarde. Isto se os fachos não dessem com ele.

Tinha que dar tempo ó tempo. Nada de querer enriquecer tão depressa. Quem tudo quer, tudo perde -dizia o ditado. Não iria, pois, passar dos cinco pacotes. Poderia era levar, além de café, uns pacotes de maços de cigarros portugueses. Quem sabe se os espanhóis não gostariam?!

Com a aproximação do Natal, tinha de comprar, desta vez, dois caramelos à Palmira e um para cada irmã, nem que deixasse de comprar a habitual laranja para o Menino Jesus. Elas também mereciam, sobretudo a Lucinda, sua confidente e correio dos recados para a Palmira. Com tanto frio, sem ropa adequada, ela deixara de ir a Valverde.

Teria o prazer de, no dia de Natal, lhos poder entregar, como no ano anterior, ouvindo da parte dela um: Muito obrigada!, ao mesmo tempo que lhe desejava bôs festas, a que ela retribuiria com iguais bôs festas.

O coração saltitava-lhe no peito com estas lembranças.

Notas:
– Cetos – cebe de vime.
– Estadulhos – fueiros.
– Fanega – medida equivalente a dois alqueires.
– Foção – foice sem cabo.
– Malhada – moita de carvalhos.
– Pirum – perú.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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