Caminhadas…

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Caminha-se… Caminha-se por vários espaços, onde se aprende sociologia, psicologia, temáticas urbanas rurais e patrimoniais. Cruza-se com pessoas com passos lentos, mais acelerados, com velocidades não controláveis, na labuta diária do pão de cada dia, de pequenos empresários e agriculturas familiares.

Ponte de Sequeiros


Já não se cruza com o Joaquim Salvado Rodrigues, e não se bebe um tinto no meio de dois dedos de conversa. Já não se vislumbra o António Fonseca, O António “Miau”, o Fernando Diogo Veríssimo e o António “Portugal”, com utensílios agrícolas às costas, na bicicleta ou em tratores.
Cruza-se com pessoas talvez com medo de pagar impostos, não correspondem às saudações. Olhares de indiferença, de soslaio, com desconfiança, no pensamento, um ex-recluso, um marginal, um vagabundo, um pobre, um doente. Passam como raposas por vinhas vindimadas.
Um ou outro condutor oferece uma boleia, outros vão tão distraídos, que batem nos muros da estrada ou em caminhos vicinais. Antes nos muros, que nos peregrinos das caminhadas.
Cruza-se com pessoas, que em demoradas conversas desabafam, choram as suas doenças, as velhices, os abandonos.
Cruza-se com um doente, encostada a dois apoios de madeira, a lembrar a figura bíblica de um Job, repleto de sofrimento. Apesar das dificuldades, caminha, caminha sempre.
Passa-se junto a árvores centenárias, oliveiras com frutos em maturação, pedindo chuva que tarda. Um castanheiro da Época dos Descobrimentos, que resiste ao tempo e às condições climatéricas. Carvalhos com abundantes bolotas, um forte condimento para a vianda de porcos caseiros, para as matanças familiares. Videiras com bagos de uvas decapitados por chuvas ácidas, estão “descolhados,” como escreveria o Dr. Leal Freire.
As árvores são sentinelas sempre vigilantes, onde a passarada se abriga, faz os ninhos, algumas aves em vias de extinção, popas, gaios, mochos…
Cruza-se com ribeiros secos, fios de água, com fontes onde se bebe água fresca, que ainda é aproveitada para regar leiras.
Passa-se por quintas, com letreiros, “propriedade privado – proibido entrar”. Em caso de urgência médica, da chegada do carteiro também estarão proibidos de entrar?
Cruza-se com muros, elementos importantes com significados profundos, junto a caminhos, a ribeiros, a um fio de água seguram terras. Demarcam propriedades, delimitam territórios, freguesias. À entrada de Aldeia de Joanes, lado nascente cravada nas pedras de um gigantesco muro, lá está cravada uma cruz, a indicar os limites da freguesia. De igual modo a poente uma outra, indicava o limite com Aldeia Nova do Cabo, junto à Capela do Espírito Santo, que em nome desta figura da Santíssima Trindade desapareceu, segundo consta. Questão com muita celeuma à mistura, mas “resolvida”, com a excomungada “união”.
Os muros são obras de construtores com muita paciência, com arte, com suor e lágrimas, mas com muita História.
Atravessa-se campos com blocos graníticos, conjuntos exemplares geomorfólogos com interesse científico e de uma rara beleza. Estamos perante patrimónios geológicos despercebidos.
Passa-se por quintas, por freguesias, e em Aldeia de Joanes é obrigatório fazer uma paragem no Museu de Mário Salvado e no Museu do Benfica, propriedade de José Marques. Aqui tem a oportunidade de apreciar aves cantoras. Como desconhece o canto da águia, não consta no seu aviário.
Tantos territórios, onde aqui e ali ainda se ouve o balir dos rebanhos, se vê crescer produtos biológicos, de pastores e agricultores resistentes. Ainda se apanham amores, frutos silvestres ervas aromáticas.
Como caminhantes, como peregrinos esta simples frase, “ineuntes, exeuntes, peregrinamur in terris” (entramos, saímos, somos peregrinos na terra).
O Caminho, faz-se CAMINHANDO… com tanto património esquecido.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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