1971-74 – Os dias da Tropa (07)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Tropa portuguesa em África - Capeia Arraiana

Tropa portuguesa em África (Foto: D.R.)

Recordo para quem ainda não tenha acompanhado estas crónicas que que um dia dou comigo de farda verde em Mafra. Primeiro choque: deixo de ser dono de mim. Frente-marche-esquerdo-direito (e mais tarde, em Santarém, apenas um dia horrível, ou em Lamego – três meses do fim do mundo da vida… aí é que a coisa aqueceu…).

Foi em 1971, era o mês de Julho: Mafra, Lamego, Amadora, Luanda, Cabinda (Buco Zau, Bata Sano… 26 meses no meio do Maiombe: nunca mais vou poder esquecer: nunca!).

Antes de mais, uma nota sobre os quase 47 anos que passaram desde o Bata Sano, Buco Zau, etc. Não há dia nenhum em que não me passem pela cabeça imagens e situações, pessoas e problemas com os quais vivemos ali meses a fio.

Subterrâneos e escadarias

Nesta narrativa e na crónica de hoje, ainda estou em Lamego, cidade que fiquei a conhecer rua a rua, bairro a bairro, café a café – apesar de serem muitos os tempos livres para comer e beber e tomar café com os companheiros de aventuras…

Fiquei a conhecer a cidade e os subterrâneos também… já que algumas operações mais enlameadas metiam riachos, águas correntes e até esgotos… Assim como fiquei a conhecer a célebre escadaria do Santuário, pois alguns treinos incluíam contar os degraus um a um… rebolando por eles abaixo.

Dois minutos e meio?

Aquelas vozes de comando do tipo «Sééééééééééét’UP», com um grito medonho na última sílaba ficam sempre nos ouvidos. Exemplos:
– Apresentáááááááááá… ÁR!

Não é armas: é apenas «ÁR!», com este «ÁR!» em tom repentino e bem gritado.
– Descaaaan… ÁR!

O «s» não é para ali chamado! Etc.

Muito gente sabe como aquilo era…

Mas em Lamego havia coisas bem mais marcantes e que ficam para toda a vida.
Por exemplo: às 5 e tal da manhã entra pela caserna dentro um instrutor que berra assim:
– Levantar! Acordar e tê dois minutos e meio para estar na parada bem fardados e de camuflado. Dois minutos e meio! Bem lavados e de barba bem feita. Tá no ir! Dois minutos e meio.

Da primeira vez que isto me aconteceu pensei:
– Está tudo maluco???? Como é que eu faço isso tudo em dois minutos e meio?????

Mas faz-se e a brincar.

É uma questão de treino e de método.

Para escrever isto com rigor, ainda esta manhã o fiz e nem cheguei aos dois minutos e meio!!!!!!

Lamego – o material de treino

As armas que me colocaram à frente para os treinos foram:
– a famosa e sempre pronta G3, espingarda de combate super bem concebida e sempre operacional para qualquer situação, por mais complexa;

– a pistola-metralhadora, que não servia para nada a não ser para os oficiais se exibirem, mas que julgo que nenhum nunca terá querido levar para a mata em situação de guerra real;

– as duas granadas-tipo da altura: a defensiva e a ofensiva (a primeira, com estilhaços a sério).

Havia depois a mochila com todos os apetrechos e as rações de combate lá dentro.

As viaturas dos Rangers e os meios aéreos da FAP que vinham ali para nós treinarmos algumas situações mais complicadas e como sair delas.
Eram os meios de apoio:
– viaturas: jeep, Unimog, Berliet;
– meios aéreos: helicópteros Allouete 3 e Puma (o bom gigante, grande e sempre operacional).

Deixem-me apenas recontar como é que o nosso cérebro fica marcado para sempre. No caso, eis o efeito diabólico que faz ainda hoje o ruído de um helicóptero que eu oiça a aproximar-se… Leia:

Um animal horroroso chamado helicóptero

Só quem fez Lamego (Operações Especiais / Rangers), como já disse várias vezes, só quem por lá esteve em treinos é que pode avaliar o horror que sinto pelos helicópteros da tropa. Sim, bem sei que o heli era a safa para um ferido. Mas este barulho daqueles motores ficou-me gravado no mais fundo do cérebro até que morra. Meus amigos, não estou a brincar. Às vezes estou em casa ou na praia, nesta zona de Sesimbra onde passo os fins-de-semana e… muito antes de mais alguém os ouvir, já eu estou a dizer: – Vem aí um Puma! – Então aquele motor do Puma é horrível. Mas o do Alouette 3 também tem que chegue.

Interessante é que se forem helicópteros civis não me dizem nada: passam em paz… Nem sei se hoje a Força Aérea e a Marinha já têm também outras marcas – e essas não me dirão nada. Mas os motores e o barulho especialíssimo das pás destas duas marcas, mas sobretudo, repito, as do Puma – isso nunca mais me passa… – É um trauma, Miguel? – O Dr. Nuno Silva Miguel é um grande psiquiatra do nosso País, especialmente na área da toxicodependência, sabiam?

Tudo bem: será um trauma. E quem se lixa mais é a família e amigos que têm de gramar isto: – Eh pá, vem aí um Puma! – (E vem: dois minutos depois, eles também ouvem…). Vem aí um Puma.. Como se eu hoje ainda tivesse alguma coisa a ver com isso!!! Que diabo!

Quando é que vou deixar os helis passarem aqui por cima em direcção ao (ou vindos do) Montijo, sem que eles se metam comigo e sem eu me meter na vida deles?

– Mas porquê este horror aos helis? – Por uma razão muito simples: por causa do treino desumano e perigoso que neles sofri em Lamego.

Helicóptero Puma da Força Aérea Portuguesa com as tropas portuguesas em África - Capeia Arraiana

Helicóptero Puma da Força Aérea Portuguesa com as tropas portuguesas em África

(Continua.)

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