Novela na Raia – Episódio 16

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 16).

Novela na Raia - Episódio 16 - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Episódio 16 – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

SEGUNDA PARTE – DEIXAR A ESCOLA

Quantas manhãzinhas mal dormidas passara a Janjo pelos fins de Outubro e os Santos a apanhar castanhas, com ruças que pareciam nevões!… Os oriços enregelados, de espinhos retesados a espetarem-se nos dedos que procuravam arrancar-lhes aquelas castanhas teimosas em desprender-se… E as caídas no chão, tão presas a ele pelo códão e o caramelo!… Se não fosse o caldudo bem quentinho, o assadeiro ou o púcaro com elas bem assadinhas ou cozidas a matar-lhes a negra fome, bem se lhe daria a ela que lá ficassem presas aos oriços.

A mãe bem lhe recomendava os luvetes, ainda que já cheios de buracos. Vinha a dar na mesma. Depois de molhados, ainda era pior que, enregelados, traziam frio às mãos em vez de calor.

Que lindas a rir lá em cima nos oriços abertos, a pedir que as deitassem abaixo! Que lindas as longais, sobre a relva em monte, a resvalarem, com uma ou outra flerca pelo meio! – Punhado p’a mim, punhado p’a ti, punhado p’à ti Mariê! – Em dias de vento os oriços vinham todos abaixo e as meças eram à cesta. Chegava-se a levar uma saquinha delas. Nesses dias tinha de vir a mãe.

Nunca entendera aquelas partilhas. Na terra dela tinha a ti Mariê parte nas castanhas. Perguntou à mãe porquê. Nem a mãe sabia. Quem devia saber era a ti Beda. Coisas de parentescos antigos e partilhas assim entre vários herdeiros, sendo pequena a herança, ou alguma terra que foi à praça para pagar tribunais ou livrar alguém da cadeia por ter sido apanhado com o contrabando pelos guardas. Um arrematava a terra, otro os cast’nheiros. Enfim, era assim. A questão é que vão dando alguma coisinha p’à boca.
Um dia havia de fazer a pergunta à ti Beda…

A mãe acabara de acender o lume após, com a ajuda da Janjo, ter empoleirado as pitês, sempre com a pedrês à frente, à voz de: Pilê! Pilê! Estas, obedientes, uma a uma haviam deixado o terreiro, onde um galo mais atrevido as havia galado, fartas já de esgaravatar no curral algum grão da palha do burro. Entraram pelo buraco da porta e foram juntar-se ao burro. A mãe pusera a pedra habitual, um rebolo, a tapar o buraco. No dia seguinte iria ver se tinham posto algum ovo no recanto habitual. Com umas batatinhês já enganariam a fome.
– Que há para a ceia, mãe?
– Hoje temos massa de morcela.

Daí a pouco rechinava na pela em cima do lume.

Nessa noite, de estômago aconchegado, Miguel perdoou não ter sido novamente convidado para a matança. Afinal, não se tinham esquecido dele. E, em sonhos, ouvia o Ungué! Ungué! com que acordara certa manhã.

Nessa noite, a mãe tinha de ir à coroa da ti Mariê Ruvinê, mulher do Nechinha Velho, de avançada idade, já toda dobrada. Ele, depois de executar tantas vezes o seu sapateado com as alpragatas que tantas vezes o levaram a Valverde, ao mesmo tempo que estalava os dedos das mãos e esfregava estas, já tinha partido. Valverde, prisões e tudo o mais tinham acabado para ele.

Coitada! Já lhe tinham dado o Senhor no Domingo. A Janjo tinha ido no acompanhamento. O padre ia debaixo de uma umbela, como um guarda-sol, levando a hóstia, e a campainha sempre a tocar. Um ou outro engrossava o acompanhamento, outros ajoelhavam, mas todos tiravam o chapéu e se benziam à passagem do Senhor.

Morava perto do Eiró. Já nem falava, coitada! Deus acabou por fazer a esmola de a levar.

Sabendo que era a ti Beda quem iria rezar a coroa, a Janjo quis à viva força acompanhar a mãe na coroa.

Que não senhor, que tinha que se ir deitar, que a coroa demorava muito, que ela se deixava dormir e teria frio… Mas a Janjo a tudo argumentava e começou a choramingar. Até que a mãe a teve de levar.

Muita gente no curral e na rua, a casa cheia, que o quadrazenho gosta de acompanhar os da terra até ao fim. Nem entraram. Já a ti Beda, naquela toada monótona, ia no «p’a alma do pai e da mãe da Mari Ruvinê, seu genro e nora, Admariê!»

Uma a uma, nomeava toda a gente da aldeia. A Janjo nem sabia de quem se tratava, pessoas já mortas havia longos anos, quase há séculos. Nem a mãe conhecia a maioria dessas pessoas. E as Admariês sucediam-se. Ao menos, estas não eram pagas, salvo darem alguma saia da morta à ti Beda. Mas os Padre-nossos do abade Correia, nos responsos na igreja, durante quatro Domingos seguidos, valiam cinco tostões cada um. O Padre-nosso era mais valioso…

Ah! Mas a ti Beda tinha mais valor, não precisava dos nomes escritos, nem na coroa, durante nove dias, nem nos orações, quatro Domingos antes da missa, junto da casa da morta.

A quantas Nossas Senhoras ela recorria!… Até que se ouvia: «À Senhora da Sacaparte p’a que nos tenha da só parte», a que se seguia: à Senhora da Boa Morte…

Estava a coroa no fim. Tinha falado nos mortos de todos os familiares, incluindo compadres e comadres, nos presentes e ausentes mas, não fosse esquecer algum, rematava: «P’a alma dos defuntos da rua de baixo e de cima, Admariê.»

Uma memória, a da ti Beda, já de voz a tremelicar pelo peso dos anos! Quem rezaria a coroa dela?

A Janjo, esperta, compreendeu então que a ti Beda havia de saber por que é que os cast’nheiros eram de vários.

O Rambóia tinha o encargo de fazer o caixão à pressa. O ti Barreiro abasteceria as argolas, o tecido branco interior e o preto exterior. O Carrapatinho tinha de trabalhar toda a noite p’a fazer uns sapatos novos à defunta e a Glória do Ganito teria de fazer uma saia e uma blusa novas, conforme o costume da terra. Co’a desgraça duns ganhavam a vida otros.

No dia seguinte era a vez dos Amaros abrirem a cova. Mais uns vinte mil réis p’a um quilotre de carne.

No dia seguinte o Miguel foi ao enterro. Já não lutou por levar a sineta.

Como a defunta morava para cá da igreja, levaram-na directamente para a capela de Santo António, onde rezaram orações, não sem que antes tivessem parado junto ao cruzeiro, onde também rezaram. À frente iam as alanternas e os estandartes da Irmandade das Almas. Pegavam ao caixão quatro rapazes da família. Atrás dele vinham os familiares com choros em alta voz, louvando as virtudes da defunta, que em vida não lhe haviam encontrado.

Porque não tinha dinheiro, não teve direito a Ofícios de corpo presente, com sete ou oito padres, párocos das freguesias vizinhas. Talvez a filha lhos mandasse dizer um dia.

No dia seguinte a mãe não encontrou nenhum ovo na loije. Teria de pensar noutro alimento p’ó jantar. Porém, ia ela a sair da loije, quando a pedrês também ia sair comandando uns seis a oito pitinhos. Aí estava a razão de não haver ovos. Estes haviam sido chocados, sem a mãe se ter dado conta. Eram a promessa de almoços e jantares futuros.

Notas:
– À cabrada – espalhado à mão cheia.

– Admariê – Avé Maria
– Caldudo – sopa de castanhas piladas.
– Corcha – colcha
– Coroa – reza em casa do defunto durante nove noites.
– Flerca – castanha completamente chocha
– Lapacheiro – lamaçal
– Luvetes – luvas
– Molida – objecto redondo, oco no meio, feito de fitas de diversas cores para colocar na cabeça, onde assentará o cântaro; rodilha.
– Orações(os) – subst. masculino para designar as orações junto da casa do morto nos quatro Domingos a seguir à sua morte, antes de começar a missa.
– Ruça – geada.
– Só – sua.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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