Novela na Raia – Episódio 15

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 15).

Novela na Raia - Episódio 15 - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Episódio 15 – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

SEGUNDA PARTE – DEIXAR A ESCOLA

E o dia seguinte surgiu ao som do foguetório da alvorada, com o qual ninguém conseguiria continuar a dormir, seguido do toque da música. O harmónio começou em breve a ouvir-se na sua volta ao povo. Inda bem não começaria a p’cissão que levaria a Santa p’à capela, não sem que antes um ó otro foguete a anunciasse.

Tal como na p’cissão da noite anterior, o andor parava constantemente para substituir os que lhe pegavam, deitando uma moeda no çafate de uma mordoma, que acompanhava o andor. Deu volta ao povo e seguiu-se a missa. Teve de dar uma moeda a quem lhe pregou uma florinha de papel no casaco. Era p’à Santa.

O sermão feito por um padre de fora foi demorado. Já houvera nova arrematação das pernas do andor antes de a Santa entrar na capela e seguir-se-ia outra quando a Santa, após uma volta ao arraial, entrasse definitivamente na sua capela. A festa religiosa terminaria então, já cerca das quatro horas. Antes, porém, ouviu nomear os novos mordomos para os dois anos seguintes.
Seriam horas de ir jantar. No dia da festa era costume convidar a família para jantar. Os filhos ofereciam uma grande melancia aos pais e sogros que, antes, provavam a dos filhos que os convidaram.

O Miguel também foi jantar, que a fome já apertava. Felizmente ainda havia uns pés de porco que a mãe cozera com feijões, acompanhados do pão espanhol que o Miguel trouxera de Valverde. Deram umas flaitadas na melancia que o Miguel comprara. Era muito boa. Pudera! Ele tinha-a mandado capar antes para ver se era vermelhinha.

E aí vai ele com as irmãs p’ó arraial, que se fazia tarde. Já passara o luto pelo pai e já podiam balhar.

Mas antes foi dar uma olhadela às ofertas à Santa. Nunca percebera por que ofereciam braços, pés e cabeças em cera. A mãe teve de lhe explicar que eram promessas por cura de males nos braços, nos pés, na cara, nos olhos ou na cabeça.

Rapazes e raparigas e até os casados balhavam agarrados e desagarrados, balho que se prolongaria até alta noite, parando apenas para as habituais arrematações do bazar.

A Lucinda conseguiu levar a Palmira p’ó balho. O Miguel saudou-a e dançou desagarrado em frente dela. Assim não lha podiam roubar. Estavam os dois muito contentes.

Seguiu-se a ceia. À noite voltou ao balho, cada vez mais animado, mas a Palmira não aparecera. O pai tinha partido a salto p’à França.

Ainda assistiu a novo fogo-preso, mas com certa tristeza por não ter visto a Palmira.

Já não iria às canas dos foguetes e já tinha assistido à alvorada logo de manhãzinha. Mirava as raparigas já com olhos de homem que as desejava. Olhava sobretudo Palmira, em quem via despontar sinais femininos muito atraentes. Cada vez lhe mandava mais recados pela Lucinda, que ela retribuía pela mesma via.

Cresciam ambos a olhos vistos e crescia o afecto entre eles conjuntamente. Ela entrava-lhe pelo coração adentro, como diria Bernardim Ribeiro. E ele entrava-lhe pelos olhos dentro.

No dia 17 era a tourada, que ele iria ver. Talvez até picasse o boi com a aguilhada comprida com que pensou em picar o lobesome, mas empoleirado num carro de vacas carregado de toros, de entre os vários que tapavam o largo do Vale. Nem se atreveu a ir para uma calampreia, não fosse o boi pegar-lhe pelas calças.
– Já lá vêm! Já lá vêm!

Aí vinham os bois do Zé Marrão ou da Ginestosa em corrida atrás dos cavalos para o curro montado à entrada do Vale, em frente da ti MariTorrinhê. Toda a gente se refugiou nos carros ou nas calampreias.

E a tourada começou. Aguardaram cada um dos bois agarrados ao forcão, à voz de:
– Ó forcão, rapazes, ó forcão!

O rabeador manejava-o como quem sabia do ofício. O boi marrava de uma ponta e de outra e tentava levantar o forcão para penetrar por baixo dele. Mas a rapaziada era valente e não lho permitiu. Em seguida picaram os bois bem picados e foram todos agarrados, como sempre haviam feito no tempo do Jaquim de Rendo, do Sr. Frederico e do Jaquim Caseiro, seguidos de muitos outros. Um ou outro capinha espanhol vinha aqui treinar a sua arte.

No intervalo alguns rapazes com o habitual lenço vermelho pediam mais alguns trocos p’ó boi. Os homes bebiam vinho à catalona pelas borrachas ou alguma cerveja. Nesse dia o Miguel aguentou sem beber.

Novo boi saiu do curro em correrias loucas e escarvando a terra. Dava urros, parecendo querer matar tudo e todos. O Miguel lembrou-se da morte do Manal, apanhado pelo boi ao subir as escaleiras do Preto Meirinha. Teve receio que o boi saltasse e o apanhasse pelas pernas ou lhe desse alguma escornadela. Por isso, encolheu-as.

Quando acabou a tourada, foi para casa e bebeu áugua. Soube-lhe como vinho.

Chegara Outubro, que ele ignorou, por já não ter de ir à escola. Vira semear nabos após o arranque das batatas. Os terrenos secadais estavam a ser lavrados para semear pão. Ao regressar da raia, vira o Manhonho deitar o grão à cabrada nas suas terras à Escaleira. Começava a gostar do trabalho do campo. A mãe teria de semear a leba ao Alcambar e pagar a alguém que a lavrasse e semeasse. Ele ainda não sabia fazer esses serviços, mas ia vendo como se faziam p’a mai tarde ser ele a fazer a sementeira. Agora tinha de ganhar dinheiro para a mãe mandar fazer esse serviço.

Chegou o primeiro de Novembro. Nesse dia recebeu a rosca da madrinha. Soube-lhe a pouco, por ser boa, mas também porque teve de a repartir pela mãe e irmãs. Elas nada receberam. A madrinha delas devia ter-se esquecido. Lembrou-se depois que ela havia ido a Lisboa. Estava desculpada. E ninguém se lembrara de lhes vir dar meio pão como esmola. Isso era só para quem não tinha nada e andava a pedir, como a ceguinha Mardos Anjos que, além de cega e velhinha, ainda por cima tinha em casa um doido acamado, o Jão Tonto.

Pelo meio da tarde os rapazes faziam os magustos com carumba ou palha, voltando as castanhas uma a uma, para de novo lhe colocarem uma camada de palha a que deitavam fogo. Comiam-nas acompanhadas de aguardente ou anis. Desta vez os magustos tiveram de ser debaixo de telheiros, que o chão estava molhado da neve. Enquanto as castanhas se assavam, os rapazes jogavam com os palitos ao contras ó cabeças ou ao par ó pernão.

Seguia-se a p’cissão ao cemitério, com as campas todas enfeitadas e encimadas de velas acesas.

A Janjo tinha ido procurar uns galhos e ainda não voltara. A mãe estava, por isso, em cuidados, desejosa que ela chegasse para ir ao cemitério.

Estivera toda a manhã remendando o cobejão com um bocado de outro mais velho, cosendo um cobertor já sem compostura, metendo uma cueda nas calças do Miguel sobre a anterior, toda delida. O cobejão ainda haveria de ser rasgado em tiras, juntamente com outras roupas velhas, para fazer outro cobejão. Era preciso reciclar tudo.

E a Janjo sem aparecer… Aquele nevão já durava há oito dias. Nem se lembravam dum tão forte. Aquela alminha teria podido romper até à Burraca?

Inda bem não, ei-la que chega, embrulhada num pedaço do que fora um manto, com um braçadito de lenha, cheia de oriços enregelados. Nem sentia as mãos. Deixou cair a lenha num alívio de quem cumpriu uma missão interminável. E desatou a choramingar.
– Anda cá, m’nha filhê! – E a mãe meteu-lhe as mãos nas suas e aqueceu-lhas com o bafo quente.

Com um pouco de palha da cama do burro acendeu o Miguel o lume nalguma brasinha que ficara nas cinzas da pilheira. A Janjo caíu sobre ele instintivamente. Mas as dores eram insuportáveis. O sangue enregelado começara a dilatar, provocando aquelas dores.
– Não, filhê, assim, não. Metam o caldeiro com áugua ao lume.

Desta vez nem era preciso ir à Fonte buscar água. Bastou enchê-lo de neve.
– Primeiro metem-se as mãos na áugua e depois já t’aqueces.

Farta de saber isso estava a Janjo. Já tinha passado por tantas situações iguais… Mas o instinto impelia-a para o lume.

À tardinha o Miguel enganou o estômago com uma côdea molhada para amolecer. Coitada da mãe! Não tinha que comer.

A Lucinda chegara a casa enregelada, vinda do cemitério, da campa do pai, acompanhada da mãe banhada em lágrimas. As mulheres gritavam, cada qual, pelos seus mortos.

A Lucinda ia ter de abandonar a escola para poder ajudar a mãe e ir mais vezes a Valverde para o sustento da casa.

Uns restos dum toco e uns galhitos era tudo o que restava de lenha.

Notas:
– À cabrada – espalhado à mão cheia.
– À catalona – forma de beber com o recipiente afastado da boca.
– Boguelhas – bogalhas.
– Borracha – a gudra espanhola.
– Cacheina – glande.
– Çafate – açafate.
– Calampreias – refúgios à volta do terreiro da corrida.
– Carumba – caruma.
– Cueda – remendo na parte de trás das calças.
– Delida – já como peneira.
– Fanega – medida equivalente a dois alqueires.
– Foção – foice sem cabo.
– Inda bem não – de repente (subentendido: ainda bem não tinha acabado de falar).
– Leba – Gleba, terra que lhes havia sido dada em partilha de baldios.
– MardosAnjos – Maria dos Anjos.
– MariTorrinhê – Maria Torra.
– Oriço – ouriço.
– Palitos – fósforos.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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