1971-74 – Os dias da Tropa (04)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Recruta em Lamego - Capeia Arraiana

Recruta em Lamego

Estou agora em Lamego…

Este segundo ciclo da Instrução Militar destinava-se a uma preparação específica e neste caso em Operações Especiais / Rangers – tudo para me darem os trunfos de sobrevivência.
Ou seja: tratava-se de preparar os jovens para uma infeliz guerra na altura no seu auge (sobretudo na Guiné e Moçambique, mas também em Angola).
Resultado: 11 semanas, 11 operações especiais em crescendo, cada uma mais exigente que a anterior física e psicologicamente.

Consequência inevitável, como já sublinhei antes: nunca mais quis ir a Lamego. Fui uma só vez, mas para mostrar à Família o «local do crime» que o Estado cometeu contra mim naqueles dias.
Desde esses malfadados dias e semanas, Lamego é de sentido proibido para mim.

Repito: Lamego é uma terra muito bonita e as suas gentes não têm qualquer culpa deste asco que nunca mais se apaga, apesar das décadas que já passaram.

Recruta em Lamego - Capeia Arraiana

Recruta em Lamego

Operações Especiais / Rangers

Já ouviu falar de Comandos? O quartel de treino deles era no morro mesmo em frente do nosso.
Os métodos eram muito parecidos. Mas acho que, apesar de tudo, era mais violento o curso dos Comandos do que o nosso.
Mais violento fisicamente, digo eu…
Porque, a violência psicológica em Penude ia ao limite do suportável por qualquer humano.
Mas por falar de Comandos, sempre ouvi os tipos de Operações Especiais contar esta piada que diz tudo o que eles pensavam uns dos outros. No quartel da frente, se calhar, a coisa era contada ao contrário, sei lá…

A história era esta:
– Está uma porta fechada. Querem entrar dois tipos: um de Operações Esteciais e outro dos Comandos. Como é que entram?
– Fácil: o dos Comandos mete um pontapé, rebenta com a porta e entra.
– Então e o de Operações Espeiciais?
– Fácil: roda a chave que está na fechadura e entra.

A brincar, a brincar, mas a verdade é que aqui fica em narrativa a diferença de treinos: acho que a violência física era o apanágio dos Comandos e que a violência psicológica era a regra de Penude (OE).

Resultado de tudo isto: maneiras de ver, ser, estar e agir que me acompanham desde essas semanas de loucura até hoje.
Claro que escondo as reacções automáticas negativas e trago aqui as consequências automáticas mais interessantes.
Leia a seguir…

Recruta em Lamego - Capeia Arraiana

Recruta em Lamego

Vantagens daquele treino doido?

Na realidade, se pensam que tudo naquela tropa foi mau, enganam-se.
Vou dizer quatro ou cinco situações que me têm guiado desde então e que já me ajudaram muitas vezes:

Primeira
Saber coordenar. Aprendi a comandar. Mas isso pode ser transformado em coordenação. Foi o que fiz em toda a minha vida profissional: coordenar. E muita da perfeição com que dizem que o fiz resultou daqueles dias péssimos…

Segunda
Organização: dizem também que sou bom a preparar programas e a organizar actividades de grupo. Isso, talvez a intuição venha de mim. Mas a preparação técnica vem daqueles dias péssimos…

Terceira
Racionamento: quando andamos a caminhar e levamos uma garrafinha de água… sou um chato:
– Não bebas muita. Deixa para mais adiante.
Ou seja: o meu treino naqueles dias péssimos foi de poupar água e mantimentos – ou seja: guardar ao máximo para o final da operação…

Quarta
Prioridades: naqueles péssimos dias treinei até à exaustão a definir e respeitar como prioritário o que é mesmo muito prioritário.
Nunca me arrependi de assim fazer em toda a minha vida e de exigir dos outros a mesma linha de acção.
E tenho-me dado bem.

Quinta
Pensar rápido e agir de imediato: perante qualquer problema, grande ou pequeno, o cérebro vai à frente e encara: qual é a solução? É esta – OK: vamos lá resolver. Ou então: não há solução. – OK. Vamos lá aguentar isto até ao fim – e não se pensa mais no assunto: vamos em frente… Ou seja: para o bem ou para o mal, é assim que funciono, depiois daqueles tantos e enormes dias péssimos.

(Continua.)

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