Novela na Raia – Episódio 14

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 14).

Novela na Raia - Episódio 14 - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Episódio 14 – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

SEGUNDA PARTE – DEIXAR A ESCOLA

Os alçudes também tinham de ser reparados de vez em quando. Aproveitavam o tempo seco, com pouca água na levada, para os reparar. O Miguel soube que iam esvaziar o alçude do Burranco e lá foi ele a ver se apanhava umas trutas ou barbos. Sempre seria mais fácil e menos perigoso apanhar peixes à mão do que envenenar a rebeirê com travisco ou deitar bombas que, além de matarem grandes e pequenos, podiam levar algum dedo. Não teve muita sorte, mas ainda apanhou peixe que chegou para a ceia. Um ou outro foi mais feliz. Houve um que apanhou uma truta de quatro quilos debaixo dum barroco. Os olhos do Miguel esgargalaram-se ao vê-la. O diabo da sorte não lhe ter calhado a ele!

Era o tempo das colheitas das batatas, feijões e milho. Foi algumas noites para casa da tia, ao lado, ajudá-la a tirar as camisas às maçarocas e depois desgraná-las. Até cantavam, sobretudo se saia uma de milho-rei, avermelhada. Tudo se aproveitava. O folhelho servia para encher os colchões. Os casulos, já libertos do grão, eram deitados ao burro, que aproveitava alguns. Com os outros a miudagem entretinha-se em batalhas campais. Acabavam por ir para estrume. Nos dias seguintes iria ver o grão na rua, em cima de cobejões, a secar ao sol. Era a tentação dos burros que iam beber à fonte. Contrariados por não os deixarem comer, muitas vezes auguavam.

Dias depois recebeu um convite para ir à boda da prima Olinda com as irmãs e a mãe.

Já podia ir porque tinha ainda as calças quase novas.

O casamento seria daí a três semanas. Tempo suficiente para ganhar uns tostões para a mãe dar uma oferta à sobrinha.

A mãe começou a pensar no que lhe havia de dar. Por quatro pessoas, teria de ser uma boa oferta. O Miguel sugeriu uma coberta. Havia de a trazer de Valverde.
– Bô ideia, Meguel. É carita, mas tem de se arranjar o dinheiro. – Ele e a Lucinda juraram ir mais vezes a Espanha para arranjar o dinheiro necessário.

Corriam os banhos na igreja. A tia Albertina andava numa azáfama, mandando moer sacos e sacos de trigo para a boda. Esta seria lá em casa. Era preciso contar os convidados para ver quantos pratos havia de pedir aos amigos. A Antioneta, que fora sua vizinha até há pouco, emprestar-lhe-ia uma boa dúzia de pratos e o talher com facas de cabo de corno, que ela bem conhecia. Eram precisos, pelo menos, três dúzias. Puseram-se a pensar quem emprestaria os restantes.

Também havia que fragar a casa e fazer uns cascoréis. No dia da boda eram precisas panelas de ferro grandes para o caldo de grabanços e ainda uma caldeira de cobre para o arroz-doce e a aletria. Não podiam esquecer as fofas nem matar um galo. Tinham de encomendar um cabrito. Enfim, mil preocupações lhe ocupavam o espírito. Contava com a ajuda das duas filhas, com a irmã e teria de convidar a Finota para cozinheira.

Chegado o dia, os convidados do noivo foram a casa dele, onde comeram uns doces e beberam vinho do Porto e anis escarchado, e acompanharam-no até à casa da noiva. Os convidados da noiva haviam petiscado também. Antes de sair, a Olinda ajoelhou-se diante dos pais a pedir a bênção. A mãe ficara lavada em lágrimas.

Saíram para a igreja com os padrinhos, ela de vestido branco, com um ramo de flor de laranjeira e chuva de prata nos braços, e o acompanhamento a segui-los. Acabada a cerimónia, regressaram a casa da ti Albertina, já os recém-casados de braço dado. Crianças munidas de pratinhos pediam a quem entrava que lhes dessem uns tostões. Comeram e beberam à descrição. Desejaram felicidades aos recém-casados, erguendo mais um copo.

Houve balho na casa do Piroco, que alugaram. À noite vieram cear os mais chegados. No dia seguinte vieram jantar os pais do agora marido. E assim terminou a festa, com os agora casados a viver em casa própria.

A Sant’Ofêmia estava à porta. Era preciso mandar fazer o primeiro fato que ele iria ter. Tinha de ir, pelo menos, umas cinco vezes a Valverde para conseguir ganhar o dinheiro para o fato e mandá-lo fazer ao Manel da Trindade. Fatos eram com este. O Zé Vinhas era só p’a calças e botar cuedas, como o Carrapatinho que era bom para tombas e o Tozinho melhor para sapatos novos. Queria mostrar-se no arraial à Palmira, com quem esperava balhar, nem que fosse apenas desagarrado, embora não soubesse bem trocar os pés. Sempre estaria em frente dela, sem que o povo pudesse falar. Quanto a pegar no andor… Seria melhor esperar mais um ano, pois era muito pesado. Mas, ao menos, iria pegar no estandarte mais pequeno, o vermelho. Mesmo com vento, ele aguantaria. Lá estariam os tabuleiros das amêndoas e as grandes melancias. O pai costumava comprar uma grande lá para casa. Ele iria comprar uma, nem que fosse mais pequena.

Felizmente que a rapaziada ainda não o forçaria a contribuir para o tocador -o Chico dos Forcalhos, e para a tourada. Seriam vinte mil réis para cada e esse dinheiro ele não tinha. Felizmente, só pagava quem já tivesse dezoito ou vinte anos. Já presenciara barulhos entre os cobradores, que davam volta ao povo com um grande lenço vermelho e os rapazes apanhados na rua e que não queriam pagar. Viu algumas vezes o Regedor, o Tonho Zé Rabeco, descer da Ladeira, de espingarda na mão, a impor a ordem. Às vezes socorria-se do cabo, o Sobrino.

Chegado o dia quinze de Setembro, a Burraca encheu-se de vacas, alguns cavalos, burros, cabras e ovelhas, à sombra dos castanheiros seculares. A Ladeira encheu-se de porcos e pocilgas. Havia quem colocasse palha nas pocilgas para fazerem estrume.
Era a única feira de Quadrazais. Mercados havia alguns em certos Domingos, onde pontuava à Praça o Campaínhas do Sabugal, que vendia mantas felpudas, que os pastores usavam como capa no tempo frio e chuvoso e que eram companhia aos ombros dos contrabandistas nesse mesmo tempo.

Pelo cair da tarde começava a p’cissão. Iam buscar a Santa à capela e levá-la para a igreja, com a música, que chegara por volta das três horas e dera volta ao povo, sempre acompanhada de muitos rapazotes e, à frente, os mordomos, que passariam a chamar-se parceiros, ladeados do Naco, todo ufano. Paravam na casa de cada um dos quatro mordomos, que lhes ofereciam cascoréis, vinho e bebidas finas. O Miguel acompanhou a música e bebeu o seu copito oferecido pelos mordomos. A p’cissão seguiu pelas ruas todas enfeitadas e iluminadas por petromax e velas às janelas e nas mãos das pessoas. Nela seguiam algumas mulheres amortalhadas, isto é, vestidas de branco, nem que fosse em combinação, segurando velas compridas, cumprindo promessas. A Santa ia toda rodeada de flores e iluminada por lâmpadas alimentadas por uma bateria colocada sobre o andor. Lindos brincos antigos de oiro e um grosso cordão também de oiro e antigo ornavam-lhe as orelhas, o pescoço e o peito. Duas fitas brancas cruzadas sobre o peito ostentavam inúmeras notas de vinte, cinquenta e cem escudos, produto de promessas. Admirou o fogo, desde os foguetes de resposta aos morteiros mas, o que mais o encantou foram os foguetes de lágrimas. Que maravilha! Também gostou dos balões que subiam iluminados, bem como do retrato da santa enquadrado por foguetes sem cana a arder no arraial.

A entrada da Santa foi demorada, com a arrematação das pernas dianteiras e depois das traseiras, muito disputadas por quem tinha feito promessa de as arrematar. Até que se ouvia o: dá-se-lhe uma, dá-se-lhe duas, duas e meia… três. O foguetório atroava os ares. Quem arrematara as pernas, metia a santa na igreja, iluminada pelo candeeiro com várias velas, pendurado do tecto, preso por uma corda. Até assistiu à missa no sobradinho, que a igreja estava à cunha.

Acabada esta, foi comer uma bucha a casa e ei-lo direito ao arraial p’ó balho e fogo preso, na esperança de ver a Palmira.

Lá estava ela com a mãe a ver o balho, mas não balhou. Estava tentado a ir buscá-la, mas receava que a mãe não a deixasse. E, se viessem a tirar-lha, não poderia opor-se. Era o costume. Bastava dizer:
– Com licença!

E lá ia ela p’ós braços d’otro.

No dia seguinte combinaria com a Lucinda para que a arrastasse p’ó balho. Num intervalo assistiu à arrematação do bazar. Botelhas enormes p’ós marranos, cestas de batatas, grandes réstias de enormes cebolas, alguns pratos e garrafas de vinho do Porto e anis escarchado eram os presentes mais usuais. Um ó otro do Ozendo ainda oferecia umas meadas de linho. Mas, já não havia quem as fiasse. O tempo das rocas, dos ergadilhos e das maças de espadar já tinha passado. Vontade tinha ele de arrematar uma garrafita. O pior era que não tinha dinheiro. Veria no dia seguinte se ainda tinha para a melancia e para uma garrafita.
Pela meia-noite começou o foguetório. Já não ia atrás das canas. Os foguetes de lágrimas eram uma maravilha. Os morteiros tudo atroavam durante uma meia hora. Quando deitavam fogo ao castelo, parecia que o mundo ia abaixo.

Pena que um foguete tenha pegado fogo à casa do Calote. Toda a gente acudiu com cântaros de água mas, em vão. Ouviu o estrondo da culmieira a ir abaixo.

Nem todos teriam festa!

Notas:
– Alçude – açude.
– Aguantar – aguentar.
– Antioneta – Antonieta.
– Botelha – abóbora.
– Culmeeira – cumeeira.
– Fofas – farófias.
– Fragar – esfregar.
– Levada – desvio que leva a água do rio para o moinho.
– Parceiro – tratamento entre os mordomos que serviam ao mesmo santo ou o que fizera par na 1ª comunhão.
– Sant’Ófêmia – Santa Eufêmia, a maior festa de Quadrazais.
– Sobrino – Severino.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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