Os Clérigos Agonizantes da Sacaparte (03)

Jesué Pinharanda Gomes - Carta Dominical - © Capeia Arraiana

A Congregação dos Clérigos Agonizantes fixou-se na Sacaparte (Alfaiates) motivando os poderes para a renovação da ermida, cujo edifício é um harmónico conjunto de formas que se entregou à pastoral dos doentes e dos moribundos. Foi neste contexto que surgiu a Confraria de Nossa Senhora do Carmo da Sacaparte. Os cultos funerários, como as Alminhas, as Encomendações, os Sufrágios, o serviço aos doentes, foram aspectos que os Clérigos Agonizantes procuraram consciencializar nos fiéis. Junto da ermida havia alojamentos para as peregrinações de toda a Raia com albergaria, hospício para doentes e estábulo para animais de tiro e gado. (Parte 3 de 3.)

Santuário da Sacaparte em Alfaiates - Pinharanda Gomes - Capeia Arraiana

Santuário da Sacaparte em Alfaiates

Os Clérigos procuraram melhorar as expressões de piedade popular. Entre estas contava-se a Procissão dos Nus, ou dos Encoirados, que se fazia na segunda oitava da Páscoa. A Procissão resultara de um voto ou promessa a Nossa Senhora, por causa de pessoas que desapareciam, ou levavam sumiço. Depois em procissão, com varas e pendões, cada freguesia trazendo um círio, ou cortejo, cujos participantes masculinos se apresentavam de tronco nu. Temos notícia no cancioneiro popular:
«Senhora da Sacaparte / Vinde à porta pequenina / Vereis dezóito em coiro / da Cintura para cima»

Consta que depois da primeira procissão, nunca mais ninguém levou sumiço, mas, criado o bispado de Pinhel, o bispo D. Bernardino Beltrão (1797-1828) achou necessário regularizar certos costumes populares que não se enquadravam nas exigências da liturgia sagrada. E determinou o fim do costume, não sem os protestos das povoações. Era já a modernidade do século XIX a entrar numa região que, durante séculos integrada na diocese de Lamego, pouca assistência de lá recebia, dada a lonjura…

Verificou-se, ainda em tempo de D. João V, que os Clérigos Agonizantes, afastados dos grandes centros, começaram a não motivar vocações e, por outro lado, ocorria que a Congregação dos Padres Camilos, mais modernizada, tinha praticamente os mesmos fins. Decidiu-se então, por alvará de 8 de Maio de 1750, que a Congregação de São Camilo de Léllis absorvesse os Agonizantes. Quando os Camilos chegaram pela primeira vez a Tomina, em 1750, ainda lá encontraram 25 frades vivendo uns em covas e outros em casebres ou choças, tal como os habitantes da Serra. Houve uma reordenação comunitária e, em 5 de Setembro de 1750, na presença do Padre Geral, Frei Baltazar Olivier, francês, e do governador da praça de Alfaiates (João Xavier Teles, Conde de Unhão) procedeu-se à profissão solene nos Camilos de alguns frades, incluíndo uns que eram de Tomina. (Cláudio da Conceição, Gabinete Histórico, vol.12, 1829, p.68).

Renovada, a Congregação prosseguiu a vida pastoral. Os cultos funerários, como as Alminhas, as Encomendações, os Sufrágios, o serviço aos doentes, foram aspectos que eles procuraram consciencializar nos fiéis. A Congregação era simpática aos olhos de muita gente, tendo recebido, em testamento, bens de pessoas viúvas sem herdeiros, ou em cumprimento de promessas. Quando, em Maio de 1834, veio o Decreto de extinção dos Institutos religiosos, o Convento tinha algum património: para além do construído (prestavam serviço no Hospital do Santuário e no da Misericórdia) incluíndo o seminário, dispunha de algumas propriedades rústicas. Face à lei, a Confraria de Nossa Senhora do Carmo candidatou-se a receber todo o património (pois as Confrarias não eram proibidas), mas o Governo tinha a sua: a Confraria só recebia a ermida, nem mais um metro.

Nas admiráveis páginas que em três compactos volumes dedicou à sua terra, o Padre Francisco Vaz deixou recados, visando a recuperação do património construído. A protecção total do Rossio (onde deve ser interdita qualquer construção particular) e a animação do complexo.

Ignoramos se o seu recado chegou ao destino, pois há muito que de Alfaiates nada sabemos. Oxalá este artigo consiga trazer a público qualquer boa notícia sobre o que está a ser feito.

Para mais informações:
Joaquim de Azevedo, Breve Notícia das Ordens Religiosas, Lisba, 1790; P. Gomes, História da Diocese da Guarda, Braga, 1981; Francisco Vaz, Alfaiates na Órbita da Sacaparte, vol.3, Colégio Pio XII, Lisboa, 1989, obra fundamental.

(Fim.)

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«Carta Dominical», Pinharanda Gomes

3 Responses to Os Clérigos Agonizantes da Sacaparte (03)

  1. Franklim Costa Braga diz:

    Olá, Jesué. Li o teu artigo, que está bem documentado. Deste-me uma ideia: Foram estes frades que instigaram a criação da Irmandade das Almas em Quadrazais, pelo seu fervor pelas Alminhas?
    Franklim

  2. Giovanni Bonaldi diz:

    Caro Signor Jesué Pinharanda Gomes,
    grazie delle sue notizie su Sacaparte, che ho letto con piacere anche se non intendo bene il portoghese.
    Sono un sacerdote dell’Ordine di San Camillo e da tanto tempo faccio ricerche sulla Congregazione della Tomina.
    Però, però…
    A me risulta che i sacerdoti della Tomina (una decina) il 25-05-1744 chiesero ufficialmente di essere incorporati nell’Ordine di San Camillo, ciò che avvenne nel 1750, per mezzo di un Commissario Generale che fu P. Baldassarre Olivieri e poi suo fratello P. Gennaro Olivieri. Anzi P. Gennaro fu anche il primo Maestro dei Novizi, e nel 1752 era Maestro dei Novizi proprio ad Alfaiates, dove i sacerdoti della Tomina abitavano già da tempo.
    Spero che lei mi capisca e la saluto.

  3. Giovanni Bonaldi diz:

    Aggiungo una cosa: trova ora che lei è un celebre pensatore e ha scritto diversi libri. E proprio ieri ha ricevuto un’altra laurea honoris causa. Mi complimento con lei e perdoni il mio appunto.

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