1971-74 – Os dias da Tropa (03)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Ficar com a cara na lama... literalmente - Capeia Arraiana

Ficar com a cara na lama… literalmente

Lamego é uma terra bonita de visitar. Pois bem: durante 18 anos não consegui ir lá. Um dia fui para mostrar aos meus familiares tudo e até o quartel. 18 anos, repito: tal era o trauma.
Passaram muitos mais anos e hoje, felizmente, já não: encaro a coisa de forma tão dramática: são memórias, tão somente…

O que é Lamego, a cidade, para mim, depois daquilo?

Fiquei a conhecer Lamego (cidade e arredores), rua a rua, campo a campo. Sobretudo: lamaçal a lamaçal.

E tenho memórias (péssimas, digo já) de tudo o que ali atrai pessoas… sobretudo do Santuário.

Tudo tem memórias para mim.

E uma dessas memórias tem a ver de facto com a enorme e tão apreciada escadaria do Santuário magnífico de Nossa Senhora dos Remédios – por causa da porrada que o nosso corpo e o nosso espírito ali levaram tantas vezes, ao obrigarem-nos a rebolar por aquela escadaria abaixo, contando com os ombros degrau a degrau… Não sei se estão a imaginar a coisa agradável e macia que aquilo era…

Lama, lama, lamaçal

Entrámos a doer, como já contei, com a Operação Largada. Logo dois ou três dias depois, começou o pesadelo matinal:
– Granada para acordar («Sai granada!!»);
«Têm dois minutos para tomar banho e vestir a farda n.º 3 e formar na parada. Dois minutos. Tá a andar!» – isto, aos berros, claro;
– Seguia-se o pequeno-almoço (4 minutos no refeitório);
– Logo depois: alinhar para instrução de combate – e era assim o dia todo, todos os dias…

Outras memórias desses dias péssimos referem-se ao Inverno em Lamego, à lama, aos ribeiros, aos riachos e até aos esgotos. Mas sobretudo a lama… basta dizer que Lamego é terra de lameiros, terra alagadiça etc.. Ora a tropa ia lá deixar escapar essa mina de cenários naturais tão bons para treinar tropa especial… Agora imaginem as memórias magníficas dessa chafurdagem que ficaram aqui dentro até hoje…

Foram noites inteiras e dias seguidos sempre na lama ou na iminência dela.

E lembro-me bem que uma das operações especiais foi dentro dos túneis dos esgotos – e de noite, ainda por cima…

Oh! Tristes dias, aqueles!

Sai granada!

A malta toda num actividade qualquer, fosse na parada ou fosse nos campos de treino e de repente um dos instrutores saca de uma granada e zás:
– Sai granada!

Só nos restava uma opção: mergulhar, rastejar, rebolar para trás de alguma montezito de terra… É que a granada, depois de descavilhada, só dá uns segundo e… zás! – uma barulheira dos diabos (só barulho se for ofensiva; mas milhares de estilhaços de aço se for defensiva).

Imaginam o susto permanente e o permanente «stress».

Quem se admirará se nós todos tivermos o tal sintoma de «stress» pós-traumático? Milagre era se não tivéssemos, não seria???

Helicóptero Allouette 3 da Força Aérea Portuguesa - Capeia Arraiana

Helicóptero Allouette 3 da Força Aérea Portuguesa (Foto: D.R.)

Bons reflexos, pancas e paranóias, quanto baste…

Desses péssimos dias da tropa ficaram-me imensas pancas e paranóias.

Escolho dois exemplos ligados a dois sentidos: a visão e a audição.

Acontece-me seja o que for, bom ou mau. De imediato, o cérebro analisa, vê o que posso ou devo fazer… e vamos em frente: nada de desesperos nem de pessimismos, como tanta gente: o que se puder fazer, faz-se – e pronto. Siga!

Outro bom costume que lá ganhei: se uma tarefa (uma operação) está a decorrer, devo manter sempre o contacto até ao fim… E a disciplina horária? Se uma reunião é para as 15, não é às 15.05!!!! A maior parte dos meus parceiros sempre achou isso um exagero. Eu, não.

Adopto procedimentos automáticos e encadeados sempre que posso: aumenta a eficiência, sai tudo bem, não esqueço nada – e não faço esforço nenhum: é só vantagens… Exemplo simples: se vou sair e preciso de levar os óculos de sol e os documentos, é simples: ponho a chave do carro junto do que preciso de levar: sem esforço, e não esqueço nada… Sai sempre bem.

Oiço um qualquer ruído metálico – pequeno que seja – e cá dentro é… granada a descavilhar. Levo dois segundos a perceber: «Alto que aquilo já acabou, pá»…

Oiço cada helicóptero que aqui passa – e passam tantos – e a minha imediata fixação é descobrir se é Alouette 3 ou Puma (já nem há disso…, mas o cérebro não se importa…). Nota: o heli era sempre socorro que chegava, atenção. Com tudo o que isso implica: houve coisa séria, mas o problema «já passou»: vem aí o heli…

A visão rápida e eficaz também entra nisto. Por exemplo: os pormenores: olho para as matrículas todas e o que vejo? As letras. Registo as dos conhecidos. Registo de imediato qual o país… e imaginam a diversidade, aqui na zona onde resido, com as férias, a beira-mar, etc.

São apenas exemplos dos condicionamentos para toda a vida.

Ver onde pisamos

Termino com esta para se rirem: quando caminho, sobretudo no meio do «mato», não tiro os olhos do chão e vejo bem onde vai pisar cada pé. Assim, não caio nem escorrego. É um vício da tropa: para não pisar nenhuma granada, estão a ver??? Conheço quem nem olhe para o chão – e muitas vezes sai-se mal.

Por hoje, chega! Para a semana há mais.

Ufa! Que cansaço, só de recordar tudo isto! Boa semana.

(Continua.)

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