Novela na Raia – Episódio 13

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 13).

Novela na Raia - Episódio 13 - Capeia ArraianaNovela na Raia - Episódio 13 - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Frequentando a Escola – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

Primeira Parte – Frequentando a escola

Episódio 13

No dia um de Maio fartou-se de pregar partidas aos colegas da escola, com mentiras. Quando os colegas ficavam intrigados, acabava por clamar: é Maio! E todos riam. Nesse mês comiam castanhas pisadas para não lhes amontar o burro, que eram preparadas em caniços por cima do lume e depois pisadas com tamancos numa cesta grande. As gestas estavam floridas de branco ou amarelo -as maias.

No dia três era o dia da Sta Cruz ou Vera Cruz. Nesse mês ia-se em procissão aos campos e, no regresso, rezavam-se na igreja as ladainhas de Maio. O Miguel acompanhava a procissão.
Chegara a festa de Sant’Antonho, com foguetes e labardas, como no Esprito Santo. O Miguel tentou a labarda mais pequena. Saiu-se mal, pois não conseguiu dar duas voltas. Ficaria para o próximo ano. De tarde passou pela taberna da Fonte. Lá estava o Samião com as suas cantigas numa voz inigualável. Viu os jogadores de cartas e de raioilê, mas não se envolveu em nada. Ainda não estava preparado para estes passatempos e não podia gastar dinheiro. Na Praça estavam os vendedores de Malcata com suas abêboras, figos lambazes, peras e pexêgos, cercados de abelhas. Que bem cheiravam! Teve ganas de comprar uns figos lambazes. Mas, e o fato?! Era preciso guardar todos os tostões para ele.

O Miguel havia crescido. Fizera treze anos em Maio e, em finais de Junho, já tinha feito a 4.ª classe e não voltaria à escola. Sentia-se cada vez mais o homem da casa. Desde essa altura dispunha de tempo livre para tudo. Para tratar do burro, ir à erva, à lenha, tratar da leba do Alcambar com a mãe e ir a Valverde quando lhe apetecesse, sem estar sujeito a ter de ir só aos Sábados e Domingos. Iria muitas mais vezes. Precisava de ganhar dinheiro para um fato a estrear na Sant’Ófêmia. Seria o primeiro que teria. Adeus jaqueta velha a cair de podre e sandálias de borracha. Iria comprar uns sapatos, os primeiros que calçaria. Ainda não tinha pé para os que deixara seu pai. Mas chegaria o tempo. Em vez de sandálias, compraria umas alpragatas com corda por baixo, como usavam os contrabandistas. As sandálias faziam suar muito os pés.

Era preciso avisar os seus clientes desta disponibilidade e procurar outros novos.

A vida iria ser melhor. Haveriam de comer melhor e em mais quantidade. Bastava de miséria!

A vida renovava-se também nos campos e nos gados. As ovelhas haviam sido tosquiadas e apresentavam-se mais magras, sem a lã que as cobria. Parecia que as tinham lavado, libertas que estavam das caganitas que se lhes pegavam à lã. Já passavam as noites nos terrenos dentro dos bardos, guardadas pelo pastor e por um Serra da Estrela de pescoço protegido dos lobos por um colar em ferro, cheio de aguçados picos.

O Boxaxê havia-lhe ensinado coisas sobre ser homem.
– Se queres que te cresça o bicho, deita-lhe leite de figos.

Pensou nisso. Rondou a figueira da Perricha ali bem perto de sua casa, colheu um pequeno figo ainda verde, escondeu-o e foi à loije do burro, ao lado da casa. Baixou as calças, pegou no bicho, espremeu o leite do figo que caiu sobre a cacheina daquele e lhe provocou ardor.

– O que arde, cura – disse para consigo – Espero que produza o efeito desejado.

Por vezes, de noite, sentia que o bicho inchava. Um dia até acordou molhado.
– Que é isto?! – clamou, alarmado. Levantou-se e foi perguntar ao Boxaxê.
– Eu não te dizia?! Estás um home. Agora é só encontrares uma gaijita e usá-lo.

Pensou no que dissera o Boxaxê e desejou encontrar a Palmira para fazer a experiência. Mas lembrou-se que ela tinha pai e, se não se portasse bem com ela, era certo que aquele lhe untaria as fúcias. Ademais, ela não iria permitir sequer que se encostasse a ela. Iria perdê-la para sempre, se fizesse isso.

Era melhor seguir o que lhe ensinaram na dótrinê -a castidade é um mandamento. É pecado praticar actos contra ela, mesmo por pensamentos.

Como fariam os outros? Remexendo na memória, lembrou-se como tinha feito o Horácio com sua prima Olinda. Ele tinha ido a casa de sua tia Albertina Caixeira, ali ao lado, e, já noite, vira entrar o Horácio, depois de bater à porta e terem-no mandado entrar.

Sentaram-se todos à volta do lume. Falaram do tempo frio que fazia, do pouco trabalho do campo, da moagem das taleigas de pão, agora que na levada corria água com fartura; ele falou de peripécias do contrabando. E o tempo ia correndo. Por fim, o Horácio lá se resolveu a dizer ao que viera.
– Venho aqui pedir a mão da Olinda. Pretendo casar com ela.

A Olinda não estava presente. Chamaram-na e deram-lhe conta dos propósitos do Horácio. Corada, mas já antes sondada pelo Horácio, anuiu ao pedido. Beberam um copo à saúde e o Horácio passou a ser visita da casa todas as noites, a namorar diante de todos.

O Miguel saira para sua casa, confuso com o que ouvira.
– Pedir a mão? Que queria dizer com isso? Para que queria a mão da prima Olinda?

Soubera depois que o Horácio a espreitava junto da Fonte, cada vez que ela ia buscar um cântaro de água e que lhe dirigira algumas palavras bonitas. Ela, algum tempo depois, aceitou falar com ele. Mas tocar-lhe, nem pensar. Beijinhos só depois de casada, quanto mais outras coisas. E, nessa altura, o Horácio disse-lhe o que pretendia dela – fazê-la sua mulher. Combinaram então o dia em que ele iria a casa dos pais dela fazer o pedido.

Daí em diante o Horácio tudo fazia para agradar à família da noiva. Se precisassem dele para algum trabalho, era só dizerem. De cada viagem que fazia a Espanha trazia sempre um chocolate, um caramelo, umas galhetas ou um véu para a namorada.

Uns dias antes do Entrudo, o Horácio arriscara pôr um defumeço à porta do Cabral. Umas brasinhas num caco, uns poses de açúcar por cima, um raminho de hortelã e lá dentro cheirava bem. Vieram à porta ver o que era. O Horácio, que já tinha entrado para o namoro habitual, ria. Perceberam que fora ele e agradeceram. Que Deus o livrasse se viesse pôr um defumeço mau com malaguetas ou cabelos em cima das brasas. Ou que fosse deitar um cântaro cheio de boguelhas para dentro do corredor, premindo apenas a aldrava, ouvindo-se as boguelhas a correr depois do estrondo do cântaro a escavacar-se. Muito menos outros objectos como caldeiros velhos ou a cabeça de um burro já feita em ossos.

Felizmente que o Quim já tinha morrido, preso na correia do munho ao Covão, senão haveria sarilhos com ele que, endemoninhado, ninguém o conseguia segurar. Por isso, ninguém se atreveria a rondar a casa.

O Miguel ia aprendendo a fazer mais tarde coisas parecidas à sua namorada.

Como havia de falar com ela à Fonte se ela ainda lá não ia?

Já não ia aos ninhos nem perseguia os pássaros com a sua fisga. Nunca tivera a pontaria do Mudo da Praça, que fazia cair pardais nos cestos dos vendedores de fruta, vinda de Malcata pela serra, no dorso de burros. O Mudo também era bom na lanchada. Mas o Alberto ganhava-lhe.

Há muito que os mais velhos já não o incitavam a pôr o cuspo no nariz de outro, primórdio de barulho entre eles, com cenas de maluta.

Viam-se nas ruas burros carregados de farrêim ou zaburro, com a carga bem arrochada. Por vezes, eram mesmo os carros de vacas que carregavam esta comida para burros ou vacas.
Os carros tinham sido reparados pelo Rambóia ou pelo Jaquim Ramos, com chedas novas ou mudança de cabeçalha. Tinham mesmo feito alguns novos. Era preciso prepará-los para o trabalho agrícola que se aproximava.

No mês de Julho eram as ceifas e as malhas. Vira partir os ranchos para o Campo com o manageiro Zé Vinhas e chegar os ceifadores de fora. Viu alguns ceifadores a trabalhar ao sol ardente e meditou uns minutos sobre o trabalho deles que ainda era mais duro que o de contrabandista. Era bem certo o que ouvira na dótrinê sobre o que Deus dissera a Adão, quando o expulsou do Paraíso Terrestre: Comerás o pão com o suor do teu rosto. Os ceifadores suavam a valer.

Gostava de ir até às Eiras ver meia dúzia de rapazes em frente de outra meia dúzia batendo compassadamente com a mangueira no pão, fazendo saltar o grão da palha. Todo o serviço das malhas o fascinava. Desde as acarreijas p’às Eiras, onde faziam medes, até ao dia da malha, em que os quadrazenhos se entreajudavam a fazer nagalhos com palha molhada no pio ou na Cale Fundeira, atar as fachas de palha e acarretá-la e ensacar o grão, depois de lhe retirar os conhos e praganas. Ele havia várias vezes ajudado a tia e vizinhos a deitar os nagalhos para fazerem as fachas. Por isso, acompanhava-os na fatiga.

Era este grão que haveria de ir moer ao munho do tio Cabral ou doutro e, transformado em farinha, havia de ser amassado e tendido à voz da Edites forneira, para ser levado ao forno de Cima, com um sinal distintivo- cruz, belisco ou pauzinhos, e que alimentaria as famílias. Pão negro, por vezes difícil de digerir, se mal cozido, que a Padeça vendia como se fosse o melhor do mundo. Uma ou outra vez, a mãe fazia uma bica com azeite. Sabia a pouco!…

Notas:
– Acarreija – acto de carregar os molhos do terreno até à eira.
– Boxaxê – alcunha, hipocorístico de vossemecê.
– Cascoréis – coscoréis.
– Farreim – ferrã.
– Fatiga – comida de pão, conduto e vinho no intervalo das carradas ou da malha.
– Fúcias – fuças.
– Lambazes – lampos.
– Maluta – Dois abraçados, tentando derrubar-se um ao outro.
– Mangueira – parte do mangual.
– Munho – moinho.
– Nagalhos – laços de palha molhada, atada pelas espigas.
– Pexêgos – pêssegos.
– Poses – pós.
– Um de Maio – é o dia das mentiras, como o um de Abril em Lisboa.
– Zaburro – milho basto para os animais.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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