Passam os anos fica a saudade… (10)

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

O primeiro domingo de Setembro era a festa da Senhora da Graça. Ir à Senhora da Graça era, para um garoto como eu, algo de maravilhoso, onde misturava alguma fé com o prazer do campo e, sobretudo, os prazeres dos olhos e do estômago…

Festa das famílias na Senhora da Graça - Capeia Arraiana

O meu avô, o meu pai, o meu tio, a minha mãe, a minha tia, a minha irmã e a Anabela filha dos meus tios e minha afilhada

A festa começava no dia anterior quando a minha avó, a minha mãe e a minha tia começavam os preparativos para a festa.

E que bem cheiravam as pataniscas, os panados, os rissóis, o frango assado, e tantas e tantas coisas boas que eram preparadas no sábado, e onde não podia faltar o arroz doce, os esquecidos e a bola parda, entre outros doces e guloseimas.

A família ia toda para a festa, algum tempo antes da hora da missa, uns a pé, outros no carro do meu tio Fausto. A ida mais cedo era também para reservar o local da merenda. Íamos habitualmente para o pinhal que ficava um pouco acima do terreiro. Lá chegados estendia-se a manta de trapos no chão e guardavam-se à sombra, as cestas com os comeres e os garrafões de vinho para os adultos.

Depois era a visita ao terreiro, onde me esperavam coisas maravilhosas como os rebuçados de açúcar, a santinha de açúcar ou as fiadas de pinhões. E lá ia pedinchar ao meu avô, à minha mãe ou à minha tia uns tostões para comprar aquelas verdadeiras preciosidades!…

A missa realizava-se na capela antiga, ficando a grande maioria na rua pois a mesma era muito pequena para tanta gente.

Seguia-se a procissão e, para além da beleza da Sra. da Graça, os olhos prendiam-se nas notas que, para pagamento de promessas, as pessoas pregavam no vestido da Senhora e esvoaçavam ao vento.
E chegava a hora da merenda. As famílias reuniam-se cada qual em sua sombra, mas rapidamente os homens se juntavam para provar o vinho, ou petiscar da merenda vizinha, enquanto nós crianças brincávamos livres como o vento.
A volta era feita cansados e tristes, mas sabendo que se cumpria um ritual antigo que não queríamos perder. E já com saudades do ano seguinte…

Mas a festa continuava quase sempre no Largo da Fonte onde, ao som do acordéon, se dançava e pulava o resto da tarde e parte da noite.

E eu ficava abismado com os dedos do acordeonista, atração que ainda hoje tenho, pois continua para mim a ser um mistério como crianças e adultos conseguem manejar tal instrumento…

ps. Infelizmente não estive dia 2 nesta festa. Mas não a esqueci, nem nunca me sairá da memória os momentos bons, enquanto membro da família, mas também como sabugalense!

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

One Response to Passam os anos fica a saudade… (10)

  1. Fátima Silva diz:

    Tantos, tantos primeiros domingos de setembro exatamente iguais a estes… Casei nessa capelinha há muitos e bons anos. Se acreditasse, diria que a Senhora da Graça abençoou esse 4 de agosto de 1979. Obrigada Ramiro por avivares a nosssa memória.

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