Os Clérigos Agonizantes da Sacaparte (02)

Jesué Pinharanda Gomes - Carta Dominical - © Capeia Arraiana

A Congregação dos Clérigos Agonizantes fixou-se na Sacaparte (Alfaiates) motivando os poderes para a renovação da ermida, cujo edifício é um harmónico conjunto de formas que se entregou à pastoral dos doentes e dos moribundos. Foi neste contexto que surgiu a Confraria de Nossa Senhora do Carmo da Sacaparte. Os cultos funerários, como as Alminhas, as Encomendações, os Sufrágios, o serviço aos doentes, foram aspectos que os Clérigos Agonizantes procuraram consciencializar nos fiéis. Junto da ermida havia alojamentos para as peregrinações de toda a Raia com albergaria, hospício para doentes e estábulo para animais de tiro e gado. (Parte 2 de 3.)

Santuário da Sacaparte em Alfaiates - Pinharanda Gomes - Capeia Arraiana

Santuário da Sacaparte em Alfaiates

Antes de irmos para Alfaiates, precisamos de viajar para sul, para as profundezas do Alentejo, para Tomina, e não para Torrina como se lê em textos de incorrecta leitura de alguns historiadores de Alfaiates. Tomina é um lugarejo bem escondido, a uma légua da Serra do Barreiro, na freguesia de Santo Aleixo da Restauração (concelho de Moura). Sedento de solidão mas, também, sedendo de acompanhar os moribundos desamparados em terras de pobreza, um frade do bispado do Porto, chamado Frei Manuel de Jesus Maria, descobriu em Tomina um sítio eriçado de fraguedos e umas covas. Para lá saiu e lá se fixou, criando a Congregação dos Clérigos Agonizantes. Vivia numa cova, junto dela tendo erguido uma capela, envolta por rochedos de maior altura do que ela. Corria o ano de 1710, e pouco a pouco ao solitário outros ascetas se juntaram, constituíndo uma interessante comunidade, ao modo dos Paulistas da Serra de Ossa, ali perto: solidão, pobreza, pastoral dos povos, com preferência pelos doentes. E fizeram um pequeno convento, aliás destruído pelo terrível temporal que, em 1878, assolou a região (Cf. Portugal Antigo e Moderno, vol. 8, p.596; J.B. de Castro, Mapa de Portugal, vol. II, p.86). Os monges seguiam a Regra de Santo Agostinho e usavam, no ombro da capa, uma cruz vermelha, do género dos Cónegos de Santo Antão de Benespera, com a diferença que a cruz agonizante era completa, enquanto a dos Antãos era em TAU.

No discurso dos anos, instalou-se em Portugal a Congregação dos Padres Camilos, e, no decurso desses anos, os Agonizantes olharam para Norte, e acharam que também havia para eles um lugar na Raia ribacudana. Escolheram Alfaiates, era o ano de 1726. Aqui existia uma deveras antiga ermida, situada a um quarto de légua da vila, ermida essa já inventariada em 1320, dedicada à invocação de Santa Maria da Sacaparte, ou Sacraparte. A etimologia do topónimo é ainda motivo de controvérsia, mas os historiadores mais antigos (Brás Garcia de Mascarenhas, Francisco Brandão e outros) preferem a forma Sacaparte, com base numa lenda piedosa, segundo a qual, estando Alfaiates ameaçada por adversários na guerra, recorreram a Nossa Senhora, a quem pediram «sáca-os à parte», como quem diz, «leva-os para longe daqui». Toda a gente acredita na lenda, e o bom e falecido amigo Padre Francisco Vaz, fazia gala em afirmar que este pedido – Sacaparte – exprime a intercessão de Maria na vida humana, sendo co-redentora e co-libertadora. Francisco Vaz achou o nome de Teologia marial. Sacaparte é, no entanto, como outros nomes raianos, um vocábulo arcaico, muito arcaico, e talvez nunca cheguemos a saber o seu real significado. Fique a piedade da lenda, que é bonita e sugestiva.

A ermida era de protecção régia, atestada em rol documental desde D. Diniz a D. João V, que se mostrou especial protector do santuário, onde acorriam peregrinações de toda a Raia, durante a Quaresma e o Tempo Pascal, até ao Pentecostes. Por isso, junto da ermida havia alojamentos para os peregrinos – albergaria, hospício para doentes e estábulo para animais de tiro e gado.

Aqui se fixou a Congregação dos Clérigos Agonizantes, que motivou os poderes para a renovação da ermida, cujo edifício é um harmónico conjunto de formas que se entregou à pastoral dos doentes e dos moribundos. Foi neste contexto que surgiu a Confraria de Nossa Senhora do Carmo da Sacaparte. Por ali não circulavam Padres Carmelitas, embora tivessem grande casa em Salamanca (o Colégio do Senhor Santo André onde João da Cruz estudou), e os agonizantes sabiam do valor pastoral do Escapulário de Nossa Senhora do Carmo e do respectivo privilégio sabatino, pois, segundo piedosa lenda a Senhora revelara ao Papa João XXIII, que, quem usasse o seu Escapulário, e estando em graça, ela o levaria para o Céu no primeiro sábado após a morte. Esta devoção calhava muito bem à pastoral dos moribundos, de onde o rápido crescimento da Confraria do Carmo de Alfaiates, com irmãos em todas as terras. Era uma Irmandade regional. O Pendão das Almas de Aldeia do Bispo tem, de um lado, o Arcanjo e, de outro, a Senhora do Carmo, óbvia influência do culto carmelista, instalado pelos Agonizantes, com licença dos Carmelitas.

Muitas coisas veneráveis se apresentavam aos peregrinos, entre eles a Poço dos Milagres dentro da capela, e os amplos espaços do Terreiro, ou Arraial, adjacente à ermida, e onde os Clérigos erigiram um pequeno convento de rés-do-chão e primeiro andar, com todos os pertences, embora modesto, mas de boa cantaria. A imagem estava, desde 1746, sob a protecção régia, e dois anos mais tarde estendeu-se à protecção ao Convento.

(Fim da parte 2 de 3.)

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«Carta Dominical», Pinharanda Gomes

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