Novela na Raia – Episódio 12

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 12).

Novela na Raia - Frequentando a Escola - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Frequentando a Escola – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

Primeira Parte – Frequentando a escola

Episódio 12

Os pães já estavam amarfolhados, graças aos nevões. Havia quem já os tivesse mandado rentear pelo gado, pois não queriam grandes adiantamentos.

Chegou o Entrudo. Como combinado, foi com os outros pôr o defumeço ruim a quem não lhes tinha dado a Janeira. Um caco velho com umas brasinhas colocado à porta, deitaram-lhe uma malagueta e esconderam-se na esquina mais próxima para ver o efeito. Daí a pouco todos tossiam dentro de casa. E vieram à rua. Ao verem o defumeço, deram-lhe um pontapé, atirando o caco para longe, no meio de mil pragas rogadas aos autores da façanha.

O Miguel teve ganas de ir pôr um defumeço bom à porta da Palmira. Ponderou os prós e os contras. E se os pais dela reagissem mal? Se começassem a ameaçá-la que não queriam namoricos… e ela o esquecesse?! Pensou em aconselhar-se com a irmã Lucinda.

E tomou a decisão: vou sozinho, mas não me mostro. Se vier ela à porta, mesmo não me vendo, saberá que fui eu. Se vier a mãe ou o pai, verei qual será a reacção.

E foi pôr-lhe o defumeço num caco com brasas que lhe dera o Magildro, em cima das quais deitou um pedaço de rosmaninho.

Com o bom cheiro, vieram à porta a Palmira e a mãe. Não viram ninguém por perto, agradeceram com um «muito obrigadas!» e fecharam a porta.

Afinal, se se tivesse mostrado, talvez até o convidassem a entrar!

No dia em que voltaram a Valverde, a Palmira comentou o facto com a Lucinda. Esta riu-se. Nem sabia que tinha sido o Miguel. A Palmira pediu-lhe que agradecesse ao irmão. A Lucinda aproveitou a ocasião para lhe perguntar se tinha namorado, já que o irmão lhe dissera que numa cantiga a caminho da raia falara «no sê amor». A Palmira corou e respondeu que não. Assim que chegou a casa, a Lucinda transmitiu o agradecimento da Palmira ao irmão e contou-lhe a conversa que tivera com ela. O Miguel ficou todo babado e entreviu um futuro risonho com a Palmira.
Já não se importou que um rascalheiro o perseguisse nem quis ir ao baile no dia de Entrudo com a galhada a enrolar fitas para guardar numa jarra.

– Para quê? Isso é p’a miúdos. Ê já sou um home! Já penso em namorar!

Foi ao baile, sim, mas para ver se encontrava lá a Palmira. Lá estava ela com a mãe a ver o balho, encostada às escaleiras do Preto Meirinha, as mesmas onde um dia o boi tinha apanhado pelo cinto o Manal e o havia matado. Nem sequer mascarada estava. Ele acreditou que ela o tivesse visto junto à casa do Amaro. Os corações de ambos aproximavam-se, mesmo à distância, e batiam em uníssono, como se houvesse telepatia entre eles.

Novas idas a Valverde aproximaram a Lucinda de Palmira. Tornaram-se confidentes. E tudo transmitia ao irmão, que rejubilava no seu íntimo.

Chegou o dia da matança deles. O marrano já tinha peso suficiente e eles precisavam de comida. O Miguel já pegou no pé do marrano, colocado em cima dum banco comprido, e ajudou a chamuscá-lo e a limpá-lo. Nesse dia houve festa em casa. Encheram todos o bandulho de fígado com batatas bem alinhadas e com um rico molho. À noite fizeram massa de morcela com o sangue apulado do marrano. Daí a dois dias, com o barranhão já livre, fizeram os farrenheiros com algumas gorduras derretidas do marrano e com fatias de trigo português que compraram à ti Mariê do Nascemento, padeira sua vizinha. Era costume oferecer uma malga da massa aos amigos. Só deram à tia Albertina e ao matador do marrano. Coitados deles! Bem precisavam dela toda! Para quê esbanjá-la?!

Ele ainda se lembrou de mandar uma tijela à Palmira. Mas, que diriam a mãe e alguém que viesse a saber disso? Donde lhes vinha a amizade?

Enquanto durou o marrano, foi vida doçura. Mas não durou muito tempo porque, em vez de fazerem choriças, uma gulodice para os ambulantes, preferiram vender uns quilos de febra. Pediram ao Amaro que desse volta ao povo a apregoá-la e depressa a despacharam. O Amaro recebeu uma febra pelo seu trabalho.

O Amaro era o arauto do povo. O ti João de Paulo matara uma vaca porque andava meio doente. Encarregou o Amaro de apregoar a carne. Vendeu-a toda. O Franklim, que comeu dela, apanhou um carbunco. Ainda hoje tem a marca no indicador direito. Ia morrendo. Se não o tivessem levado numa burra ao Dr. Armando do Soito, que lhe queimou o dedo para tirar o veneno, tinha partido desta para melhor.

No Domingo de Ramos foi à igreja com um ramo de oliveira cujas folhas ia desfolhando à medida que rezava um padre-nosso. As folhas numa mão cheia eram atiradas sobre a cruz que seguia na p’cissão. Guardou o ramo da oliveira em casa p’à mãe colocar na seara em cruz, o que faria crescer aquela.

Aproximava-se a Páscoa e queria que a Palmira lhe atirasse o cântaro enfeitado para ele o apular e lho devolver, trocando um olhar com ela. Mas, antes da folia, ainda iria mostrar que era homem ao tocar as matracas, levantando-as ao alto sempre a tocarem.

À noitinha ouviu grande ruído que vinha dos lados do Eiró. Os guardas haviam mandado parar o velho Ford do ti Barreiro, que fazia de táxi, mas também transportava algum contrabando de quem o alugava. Foram direitos à mala, abriram o esconderijo e apanharam o contrabando. O ti Barreiro teve os seus problemas com esta cena. Os donos do contrabando depressa arranjaram um culpado. Os guardas terem ido direitinhos ao esconderijo, só poderia ter sido acuso. As culpas foram para o Cigarri. E houve forte barulho, com clamações de «às armas!», a que o Regedor conseguiu pôr cobro. Felizmente, desta vez não houve facadas, mas tão só umas arrochadas e bangaladas de um lado e doutro.

Nunca se esclareceu quem foi o autor do acuso.

Chegou o dia de Páscoa. Vestiu as suas calças novas. Quis comprar umas amêndoas à Palmira, como era costume os namorados fazerem. Já tinha ganho uns tostões com as encomendas para as matanças e decidiu comprá-las. Não poderia ser ele a entregar-lhas. Mais uma vez usou os serviços da irmã, a quem adoçou a boca com uma amêndoa. E a irmã fez por se encontrar com ela no balho e entregou-lhas. A Palmira corou. Aceitou-as, sabendo que vinham do Miguel. Provou uma, deu outra à Lucinda, disse que eram doces e mandou -lhe um «obrigada», que ela transmitiu ao irmão.
Nesse e nos dois dias seguintes, a Lucinda e a Palmira acompanharam um pequeno rancho na volta ao povo com o cântaro enfeitado. Enquanto atiravam o cântaro entre elas ou algum atrevido que se intrometesse, cantaram:

O capitão do navio
Mandou-me agora chamar.
Não posso passar o rio,
Não posso passar o mar!

Seguiam-se outras quadras e a Coradinha como refrão.

Ao passarem no Vale, pararam, de novo, para fazerem roda e o Miguel, que as esperava, pediu à Palmira que lhe atirasse o cântaro. Ela assim fez e o Miguel devolveu-lho.

Mais um acto de afeição entre eles. O Miguel viu que ela reparara nas suas calças novas, facto que, mais tarde, comentou com a Lucinda.

Continuaram a volta ao povo. Já na Praça, intrometeu-se o Tátão. Alguém lhe atirou o cântaro, que este não apulou propositadamente, fazendo com que o cântaro se escaqueirasse no chão em pedaços. Ouviu pragas à farta e vários «Mald’çoado!»

Notas:
– Amarfolhar – transformar em marfolho, isto é, crescer e alargar.
– Apular – apanhar o cântaro que lhe fora atirado por alguém.
– Carbunco – carbúnculo.
– Defumeço – vaso com brasas e produtos para cheirar bem ou mal que se colocam no Entrudo às portas das casas onde há raparigas.
– Rascalheiro – homem armado de grande ramo de castanheiro ou carvalho com que atacava quem passasse à noite nas ruas.
– Rentear – cortar a parte de cima com os dentes do gado.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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