Casteleiro – Modos de falar de que gosto

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O falar «casteleirês» não tem fim. Trago hoje mais uma dezena de expressões e de palavras para seu gáudio. É apenas mais uma pequena homenagem à geração que me precedeu. Com estas notas, queria apenas deixar alguns registos para memória futura – amanhã, e para seu prazer de leitura – hoje, agora.

Aldeia do Casteleiro no concelho do Sabugal - Capeia Arraiana

Aldeia do Casteleiro no concelho do Sabugal

Não há como o ambiente de aldeia para a criação de expressões e modos de falar específicos.

Deixo aqui mais alguns exemplos, de uma série interminável.

Modos de falar muito engraçados

«Não batas mais no ceguinho» – quer dizer que a pessoa que fala tem razão, mas que já está a exagerar na reclamação dessa razão.

«Hoje é um dia asselanado» – é um dia bastante solene.

«Pernão» – aplica-se quando as coisas deviam estar aos pares mas por alguma razão só aparece uma: essa é «pernão»: par e pernão, está a ver?

«Não faças cerimónia» – isso quer dizer que alguém quer oferecer-lhe uma coisa, uma fruta, uma fatia de melancia e você a dizer que não, que não. Aí diz-se:
– Vá lá, aceite. Não faça cerimónia.
«Não te faças rogado» – é para se aceita a tal fatia da melancia (eu sou assim), dizem que a pessoa não faz cerimónia nenhuma.

E quando alguém barafusta muito mas lhe passa logo, diz-se que «é de repentes» mas que lhe dá com força mas lhe passa logo.

Trongas e bacalhaus suecos…

Uma tronga é uma pessoa desarrumada e trapalhona, sem cabeça organizada.
– Aquilo é um bacalhau sueco.
Leia: é uma tronga e mal comportada, de má resposta e tudo.

Labrusco é sujo. Mas o tempo neste inverno tem estado muitas vezes labrusco, também.

Quando um tipo é atado, meio enrascado e fica atrapalhado sempre que é preciso fazer alguma coisa, diz-se assim:
– Aquilo, em tendo qualquer coisa que fazer, é logo uma serra!…

Moranhêro é esta atmosfera meio húmida e pouco chuvosa que tem estado em alguns destes dias:
– Ó rapaz’s, está cá um moranhêro!

Quando uma comida está muito boa, diz-se que está de estalo ou que está de trás da orelha.
Mas se está um daqueles dias maus a sério, com vento e chuva etc., então a frase mais apropriada é outra mais forte:
– Está cá um dia de capar cães…

E esta?
– Isto é que vão aqui uns lavarintos!
Lavarinto é muito que fazer e uma grande azáfama, com muitos pratos e alguidares ou seja lá o que for.

Os preparativos das filhós na noite de Natal são uns lavarintos valentes.
Sabem o que era um «salazar», no meu tempo de jovem adulto, julgo que depois de Salazar ter desaparecido? Era simplesmente o «rapa» que se usa para arrebanhar a farinha já amassada que ia ficando no alguidar, quando se estavam a fazer os bolos.
Dizem-me que se dizia isso por malandrice – e acredito.
Mais uma, só: alguém que quando faz qualquer coisa ou dá algo a uma pessoa nunca mais se cala que fez ou que deu, diz-se assim:
– Aquele, em fazendo alguma coisa, está sempre a arrefartar…

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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