Os Clérigos Agonizantes da Sacaparte (01)

Jesué Pinharanda Gomes - Carta Dominical - © Capeia Arraiana

A Congregação dos Clérigos Agonizantes fixou-se na Sacaparte (Alfaiates) motivando os poderes para a renovação da ermida, cujo edifício é um harmónico conjunto de formas que se entregou à pastoral dos doentes e dos moribundos. Foi neste contexto que surgiu a Confraria de Nossa Senhora do Carmo da Sacaparte. Os cultos funerários, como as Alminhas, as Encomendações, os Sufrágios, o serviço aos doentes, foram aspectos que os Clérigos Agonizantes procuraram consciencializar nos fiéis. Junto da ermida havia alojamentos para as peregrinações de toda a Raia com albergaria, hospício para doentes e estábulo para animais de tiro e gado. (Parte 1 de 3.)

Convento da Sacaparte em Alfaiates - Pinharanda Gomes - Capeia Arraiana

Convento da Sacaparte em Alfaiates

O antigo concelho de Alfaiates, extinto e integrado no concelho do Sabugal em 1855, dispõe de uma história monástica, pois na sua área houve comunidades de professos religiosos, já na própria vila, já em Aldeia da Ponte. É sempre motivo de alguma surpresa, a ausência de Congregações religiosas antigas e conventuais, na área do Sabugal.

O concelho do Sabugal antigo era bem pequeno, meia-dúzia de freguesias raianas mais vizinhas do rio Côa (Vale de Espinho, Quadrazais, Ruvina, Ruivós, Vila Boa, Soito e Aldeia do Bispo, para além de uns lugares anexos já nomeados no inventário das igrejas de 1320: Aldeia das Freires, por exemplo, além das paróquias da vila). O restante das freguesias actuais, que são 40, pertencia aos antigos concelhos de Alfaiates, Vilar Maior e Sortelha.

O rio Côa continuando a definir uma linha de fronteira da Beira portuguesa com a antiga ponta do Reino de Leão, nas fontes do Côa. Terras pobres, mal povoadas (só Quadrazais tendo mais gente) e um tanto nómadas, as Congregações religiosas não acharam condições. E, talvez, bem contemplada a região, houvesse lugar para alguma. Preferiram Alfaiates, a nossa ver por três causas: um posicionamento mais central para abranger toda a Raia a partir da vila; uma economia de base agrícola mais rica e laborada; e maiores acessibilidades transfronteiriças. Todavia, só no século XVIII se iniciou a história monástica de Alfaiates.

No ciclo pós-tridentino, a par do culto das Almas do Purgatório (figura em definitivo estabelecida no Concílio de Trento) desenvolveu-se uma prática já muito antiga, a pastoral da doença e da morte. Renovaram-se hospícios medievais abandonados, encetaram-se novas fundações, juntou-se a caridade na área da saúde à assistência aos moribundos, e de tudo isto nasceu uma renovada pastoral, apoiada em inúmeras confrarias, ou irmandades, instituídas por fiéis leigos. Entre as Congregações vocacionadas para esta pastoral, conta-se a Congregação dos Clérigos Agonizantes, parentes de outras análogas, como a Congregação da Boa Morte (fundada por um pedreiro na freguesia da Lapa, em Lisboa), e que usava saudar com a advertência «Irmão, lembra-te que tens de morrer».

O clima pastoral suscitou novos movimentos, entre eles se contando a Congregação dos Ministros dos Enfermos, ou Ministros da Boa Morte, fundada por São Camilo de Léllis, de onde os professos destas Congregação serem popularmente designados por Padres Camilos, ao modo de como aos Carmelitas se chamava Albertos, e Lóios aos de São João Evangelista, por vestirem um hábito azulado.

(Fim da parte 1 de 3.)

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«Carta Dominical», Pinharanda Gomes

One Response to Os Clérigos Agonizantes da Sacaparte (01)

  1. Joaquim Tenreira Martins - diz:

    Até que enfim se desvenda o mistério da Sacaparte onde tantas vezes fui com o meu pai. Obrigado, caro amigo Jesué Pinharanda Gomes!

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