Passam os anos fica a saudade… (8)

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

E assim continuo no Largo da Fonte… Mas se havia a escola, o depósito, o tribunal e a fonte, o Largo tinha muito mais…

Largo da Fonte no Sabugal - Capeia Arraiana

Largo da Fonte no Sabugal

Em primeiro lugar a paragem das carreiras que se fazia frente ao Depósito. Era um acontecimento diário que ali concentrava não só os passageiros como também os mirones que, encostados às paredes do depósito, apreciavam, se despediam ou aguardavam os passageiros e, porque não, as passageiras…

De costas para o Depósito, o Largo iniciava-se, do seu lado esquerdo, com a «caverna dos tesouros», mais conhecida como Central!

E chamo-lhe «caverna dos tesouros», porque as muitas encomendas que sempre lá havia, eram para os olhos de uma criança, como se se tratasse do covil de Ali-Baba!

A central era comandada pelo sr. Fernando Campainhas, e, logo a seguir, pelo sr. Zé «Trocas».

Era ali que, periodicamente, íamos, eu, a minha irmã e a minha mãe ou o meu pai buscar o cesto cheio de coisas boas que a minha bisavó mandava de Casal Mundinho, pequeno lugarejo junto a Contenças de Baixo em Mangualde.

Mas logo a seguir ficava outro dos nossos sonhos, as bicicletas e as motas do «Azeitoninha». Para uma criança como eu que nunca teve uma bicicleta, ver tudo aquilo era como se o sonho se tornasse realidade. E já me via camisola amarela de uma Volta a Portugal!

Por acaso o meu pai teve uma mota na qual se deslocava para ir fazer a escrita da Adega Cooperativa, até que um dia caiu e partiu um ombro…

Mas o Azeitoninha era também o sítio onde íamos pedir para encher o «pipo» das bolas de «cautchu».

Depois da Escola vinha a casa do sr. Mário Correia, avô de um grande amigo, o Mário Carlos, que, apesar de mais velho, tive por companheiro na escola (penso que preparava a admissão ao Liceu com a D. Glória.). Com o Mário Carlos tive um dos dias de glória quando lhe corrigi o erro que tinha dado na palavra álcool, que havia escrito só com um «o», o que me mereceu a posse da régua e o dar duas reguadas a uma criança mais velha!…

O Largo terminava desse lado na «Cabine Elétrica», no lugar onde, penso, teria havido anteriormente uma central elétrica que dava energia ao Sabugal e onde hoje ficam os Bombeiros. A luz, como se dizia na altura, vinha de Seia, da Hidroelétrica da Serra da Estrela e muitos diziam que era a luz de Seia. Trabalhava nessa altura para esta empresa, se não estou enganado, o sr. João «Cinema», pai do sr. Carlos (conhecido por Carlos do João Cinema que foi também fotógrafo e também trabalhou para aquela empresa).

Passando ao lado direito, lembro a taberna do Ti Emídio Campainhas que tinha uma entrada para o Largo e duas (uma para o reservado) para a Rua Principal.

Seguia-se o AltoBar, café que comecei a frequentar muito cedo, acompanhando o meu pai que fazia a escrita do café.

Curiosamente, a existência de reservados era muito comum, pois, à semelhança do café do sr. Abílio, também o AltoBar tinha um reservado, para além de uma zona com árvores, nas traseiras, utilizada no Verão como uma espécie de esplanada.

Seguia-se mais uma taberna, a do Ti Ismael Cunha, numa casa que ainda hoje permanece igual, e a casa que mais tarde foi a residência e o comércio do sr. Germano, pai do Carlos Alberto e do Toni.

Nesta casa, e antes do sr. Germano, funcionou o consultório do dr. Armando, mais conhecido como o doutor do Soito.

O comércio era uma coisa digna de se visitar com as suas roupas, os seus tecidos, os botões, etc. etc. Havia um dia que o comércio abria depois da meia-noite para alguns amigos. Era a noite de 24 para 25 de Dezembro, após a missa do galo, para os maridos irem comprar as prendas esquecidas para as mulheres.

Sei que havia mais umas casas (uma delas do Carlos do João Cinema), mas não consigo lembrar a quem pertenciam.

O Largo da Fonte está ainda na minha memória, por ter sido em frente ao AltoBar que inicialmente parava inicialmente a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, liderada pelo sr. Prata, meu grande amigo e meu mentor literário durante anos e anos.

(E falta falar do São João no Largo da Fonte…)

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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