Passam os anos fica a saudade… (7)

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

E assim chego ao Largo da Fonte… O Largo era, sem dúvida, muito grande para nós garotos, mas era um dos centros da vida sabugalense de então.

Sabugal – vista parcial do Largo da Fonte em 1967

O Largo era marcante por várias razões, a saber:
1. A Escola
Edifício ainda hoje de grande qualidade e de grandes dimensões, construído na década de vinte do século passado, foi ali que todos estudámos e era ali que as crianças das escolas das aldeias vinham fazer o exame da 4.ª Classe.
(Para além dos professores que tivemos, seria injusto não referir as «contínuas», Josefina e Cláudia, sempre atentas, mas também sempre amigas).
E como lembro o recreio que, apesar de pequeno, chegava para as nossas brincadeiras, e a revoada quando era hora de sair e corríamos rua abaixo, já a pensar em tanto que tínhamos para brincar até ao jantar…

2. O Depósito
Outro edifício marcante do largo, talvez poucos se lembrem que o nome de Depósito vem, de ali ser o depósito dos tabacos, no espaço posteriormente ocupado pela Viúva Monteiro.
Mas para nós crianças, o depósito era o comércio da D. Emília onde reinava a figura inesquecível do sr. David!
Ali ia fazer os «recados» à minha mãe, levando outra relíquia desses tempos, a “caderneta”, onde o sr. David apontava o que eu levava e que era depois pago no fim de cada mês.
Mas o sr. David era também o guardião dos rebuçados dos «jogadores», que nos permitia espreitar a caixa onde, no fundo, ficava o rebuçado da sorte, aquele que nos permitia completar a caderneta e tomar posse desse tesouro que era uma bola de futebol! Juntávamos os tostões e avaliávamos se o amealhado já daria para comprar os rebuçados todos e ficar com o da sorte. O grupo que o conseguia era rei por uns tempos…

3. A Fonte
A fonte de Dom Dinis era, para nós crianças, um lugar obrigatório de visita. Ainda lembro as mulheres com os cântaros à água, mas lembro, sobretudo, os peixes nos tanques cheios de água e as escadas que subíamos e descíamos como raios.

(Que desilusão quando, mais tarde, soube que aquela não era a fonte de Dom Dinis, mas sim uma fonte construída em 1905, depois de destruírem a verdadeira que era um pouco mais ao lado…)

Mas o largo da Fonte não tinha apenas esta fonte, pois na esquina onde havia uma taberna e onde hoje está uma ourivesaria existia a modesta fonte do Cavacal.

4. O Tribunal
Curiosamente, e apesar deste edifício ter sido construído entre 1959 e 1966, nada tenho na memória desta obra. Mas lembro perfeitamente as oficinas que ali perto havia (em frente ao atual quartel dos bombeiros) onde a família Campainhas fazia sinos, chocalhos e campainhas.
E lembro também a festa rija da inauguração do Tribunal, presidida pelo então ministro da Justiça, Antunes Varela. (Foi por esta altura que mudaram pela primeira vez o nome ao Largo, que, oficialmente, passou a ser o Largo Prof. Dr. Antunes Varela, até que o 25 de Abril o baniu…)
No edifício e para além do tribunal, funcionava também o Registo Civil (onde trabalhava o meu saudoso tio Fausto) e o Notariado que, se ainda se lembram, antes funcionavam no Largo de São Tiago, numa parte do atual edifício do Museu, onde também ficava a PSP e as Finanças. (era nas Finanças que funcionava a delegação (?) da Caixa Geral de Depósitos).

(Para não tornar estes textos muito longos, voltarei ao Largo da Fonte, pois merece…)

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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