Moinhos

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Na complementaridade do Ciclo do Pão, hoje escrevo sobre moinhos. No Concelho do Sabugal, nas margens das ribeiras, e principalmente do Rio Côa, existiam muitos, de salientar na Rapoula e Valongo do Côa. Em outras paragens do País chamam-lhe azenhas.

Moinho no Marenhol

Além da simpática, trabalhadora e vigilante figura do moleiro, também o pequeno edifício tinha o seu encanto ambiental e natural. Moinhos de rústica aparência que datam de remotos tempos, num sistema de rodízios, com rodas interiores, que com a força da água encanada dos açudes faziam girar as mós em movimentos incessantes, onde caíam os grãos de cereal. Ainda tenho na memória o murmúrio das águas sintonizado com os movimentos das mós.
Os moinhos, além do centeio, moíam trigo, cevada e milho. Crianças, muitos de nós, gostávamos de ser moleiros, porque moíamos a farinha para fazer o pão e as milharadas que comíamos no tempo das ceifas e dos dias festivos.
Também era interessante vermos o moleiro ao lado do transporte e a distribuição dos sacos de farinha através de uma burra com uma campainha pendurada ao pescoço.

Tapada Ribeira – Moinho

Dali saia a farinha, para mais tarde entrar amassada, com fermento à mistura, ficava levedada, entrava no forno comunitário, situado na Rua da Procissão, um património urbano ainda existente. Dava-se a lenha, giestas, ramos de pinheiro, pagava-se a pua, e recebia-se das mãos da Tia Maria Forneira o número de pães de centeio de direito. Também se faziam umas broas de cevada, das quais gostava imenso e nunca mais saboreei. O pão era um alimento fundamental naquela época. Era fruto do trabalho e do suor de todos. Não era só de alguns.
Quando o movimento da moagem apertava, íamos ao Moinho de Valongo do Côa, precisamente no rio com o mesmo nome, depois de atravessarmos a aldeia e um comprido pontão.
Na minha aldeia, a Bismula, conheci dois moinhos, não muito longe um do outro. Estavam instalados na Ribeira da Nave, um no Baixo Marinhol e o outro na Tapada Ribeira. Fui muitas vezes com o meu Pai, com a burra farrusca carregada com sacos de centeio, ao Moinho da Tapada Ribeira, atravessando caminhos íngremes e difíceis, como eram os do ciclo do pão. A minha avó tinha nas suas proximidades terras de cultivo, talvez a razão porque ali nos deslocávamos, onde desfrutávamos de um certo apoio logístico. Por cada alqueire de centeio recebiam-se oito quilos de farinha, já com o desconto da maquia, que pagava os serviços do moleiro. Não havia dinheiros.

Ribeira da Nave

As águas do açude da Tapada Ribeira abasteciam o moinho, regavam as nossas leiras, local dos nossos banhos, de pesca, habitat e refúgio de galinholas e pica-peixes, paraíso de nenúfares.
Este cenário inspirou-me estes simples versos: “O Açude da Tapada Ribeira/Tão antigo como a Terra/Já não volta à eira/Como já foi em outras eras”.
Em 1909 as enxurradas destruíram muitos moinhos, principalmente os das margens do Rio Côa. Actualmente, com a desertificação das nossas populações, sem afectos pelo património, a maioria está abandonada, não faltam moinhos destruídos e escancarados.

Moinho da Tapada Ribeira

Quando percorro esses territórios a minha alma fica dorida com tanta destruição de um património rural que nos deu a sobrevivência.
Lembro-me dos moinhos descritos por Cervantes em “Dom Quixote”. Os moinhos já não têm a forma alucinatória de gigantes, são anões em ruínas.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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